Comentários em aos Hebreus

Como distinguir entre buscar para o ventre e buscar o reino de Deus

Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. (Hb 1.1,2)

Caro amigo! Dileta amiga! O assunto deste texto diz respeito à voz de Deus que se ouve por meio de Jesus Cristo.  E por que é tão importante conhecermos acerca deste tema? Vivemos em dias de sincretismo religioso. Não há mais limite para criar meios para ligar o homem a Deus e estou fazendo referência ao que se passa no arraial evangélico. Por sincretismo entendemos a interpretação ritualística e supersticiosa da Bíblia por meio da mistura entre diferentes costumes, doutrinas religiosas, tradições e culturas. Basicamente o indivíduo olha para o mundo ao seu redor, encontra determinado elemento religioso, busca na Bíblia algo que valida sua percepção e cria uma doutrina supersticiosa. Em torno desta doutrina constrói sua visão de mundo. Dentre as diferentes formas de misticismo criado no arraial evangélico se encontram objetos ungidos, óleos provenientes de Israel, sal grosso, orações feitas no monte, peças de roupas, toques de trombetas,

Temos ouvido falar de venda de óleo de Israel, envelopes com destinações específicas, correntes com ciclos definidos e objetivos declarados e assim vai. Todos estes elementos trazem consigo algo em comum: se o objeto for adquirido, ele personifica a benção de Deus e resulta em respostas divinas a problemas recorrentes. A ênfase deste tipo de recurso é para com o resultado: todo aquele que crê nestas superstições, alcança o que busca. O problema é que o resultado em si pode até ser verdadeiro, ou seja, qualquer pessoa crédula neste tipo de coisa, em cumprindo os requisitos que lhes são propostos, pode de fato alcançar o resultado pretendido. Ocorre que, aos olhos da Bíblia, o resultado alcançado nunca foi métrica para declarar que provém de Deus. Pelo contrário, o resultado em si pode até demonstrar que Deus não está neste negocio. Como sabemos disso? Leia por você mesmo:

Quando profeta ou sonhador se levantar no meio de ti e te anunciar um sinal ou prodígio, e suceder o tal sinal ou prodígio de que te houver falado, e disser: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los, não ouvirás as palavras desse profeta ou sonhador; porquanto o SENHOR, vosso Deus, vos prova, para saber se amais o SENHOR, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma. (Dt 13.1-3)

Atente bem para a exortação de Moises, o homem de Deus. Ele enfatiza que um sinal ou prodígio prometido pode de fato acontecer, contudo não serve de critério para confirmar que procedem de Deus. Entenda isso: – você pode ser curado de uma enfermidade terrível, pode ter suas finanças restauradas, pode conseguir certo sucesso em seus relacionamentos e, apesar de ter alcançado sua tão esperada benção, ainda assim ela não proceder de Deus. E qual seria a razão deste tipo de engano? Isto decorre do modo como estas bênçãos ilusórias remetem a pessoa ao distanciamento de Deus. Isto porque se tudo que você recebe não leva ao Deus dos céus e da terra, Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, de nada adiantou alcançar sua vitória. Você pode me dizer: – Mas esta é uma referência do Antigo Testamento, aplicável a Israel. No Novo Testamento as coisas são diferentes. Será? Leia por você mesmo:

Irmãos, sede imitadores meus e observai os que andam segundo o modelo que tendes em nós. Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas. Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, (Fl 3.17-20)

Observe agora como o critério dado pelo apóstolo Paulo é ainda mais contundente e rígido. Todo aquele que promete coisas terrenas como resultado a ser alcançado por meio de seus pretensos misticismos são inimigos da cruz de Cristo e caminham apressadamente para a perdição. Eu escrevi um texto tratando especificamente deste tipo de perdição, decorrente da busca do bem estar como um fim em si mesmo. Você pode ler este texto sob o título “Nossa sensação de bem-estar pode trazer o inferno à terra”. Voltando ao referido por Moisés, ele acrescenta que a busca frenética pela benção está provando, na verdade, o coração da pessoa. Ela precisa responder para si a seguinte pergunta: – o que é mais importante para mim, ter um resultado que satisfaz minha alma ou buscar a vontade de Deus? Mesmo porque, falando das coisas terrenas, Jesus mesmo declarou:

Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. (Mt 6.31-33)

Eu creio que você deve estar percebendo que as realidades espirituais são bastante complexas, sensíveis, exigindo discernimento para compreendê-las. Isto porque se atentarmos para nosso dia a dia, haveremos de notar que boa parte de nosso tempo laboral visa alcançar recursos para podemos comer, beber e vestir, contudo o Senhor nos exorta a mudarmos esta lógica e buscarmos em primeiro lugar o reino de Deus. E, neste aspecto, qual foi o início da mensagem do Senhor Jesus quando esteve entre nós? Leiamos:

Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus. (Mt 4.17)

Jesus veio anunciar a proximidade do reino de Deus, este mesmo reino que devemos buscar em primeiro lugar, deixando em segundo plano nossas necessidades materiais e seculares. Isto exige de nós uma “metanoeo”, palavra grega que se traduz por arrependimento, cujo significado é de mudar em sentido oposto a direção da mente. Isto significa que devemos deixar de pensar como faz o mundo na busca de suas necessidades, anseios e realizações, e nos voltarmos para Deus e as realidades do reino de Deus. E como se dá este processo? Digamos que você seja pescador. Trabalhando nesta honrada profissão, seu objetivo é obter o maior número de peixes em cada pescaria para gerar renda, levando sustento a sua família. Todos nós trabalhamos nesta lógica: o fruto do nosso trabalho nos sustenta e nos realiza. Ocorre que Pedro, o pescador, encontrou-se com Jesus. Vamos ver o que se passou depois de Pedro obter a maior pesca de sua vida:

Pois, à vista da pesca que fizeram, a admiração se apoderou dele e de todos os seus companheiros, bem como de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram seus sócios. Disse Jesus a Simão: Não temas; doravante serás pescador de homens. (Lc 5.9,10)

Aqui está a diferença de como uma atividade secular pode tornar o coração da pessoa para Cristo. Qualquer que seja o milagre que você busca, seja no âmbito da cura física, na restauração de suas finanças, na reconstrução de seus relacionamentos, na realização de seu sucesso profissional, se elas não resultarem em maior comprometimento com o reino de Deus, o que você de fato está fazendo é alimentando seu ventre, se tornando inimigo da cruz de Cristo. Isto nos faz perguntar em como Deus fala conosco para não sermos enganado por nenhum tipo de superstição ou misticismo, mesmo porque podemos facilmente ser enganados exatamente por alcançar aquilo que tanto buscamos, contudo restrito a esta dispensação, a este século, a esta era, ao tempo presente.

No Antigo Testamento, para Deus falar com Seu povo, utilizou-se de profetas que se expressaram usando dos recursos naturais que estavam a sua disposição. Por exemplo, Moises, para fazer Faraó libertar o povo de Deus, praticamente destruiu a cultura, a economia e a religião do Egito. José, para vencer uma batalha, teve de fazer o próprio sol recuar no tempo, dando-lhe margem para suplantar seus adversários. Elias, para conclamar o povo ao arrependimento, orou para não chover em Israel por três anos. Por certo muitos agricultores faliram neste período. Ezequiel para declarar o tempo de juízos divinos para com Israel teve de dormir de um lado, depois de outro, por longos períodos de tempo para avisar Israel como Deus haveria de tratar com as iniquidades dele. Era assim que Deus falava no Antigo Testamento. Esta é a razão porque a maior parte das superstições no arraial evangélico tem origem em textos do Antigo Testamento, porquanto eles entendem que se Deus falava daquele jeito com o povo por meio dos profetas, hoje seria do mesmo modo, rejeitando por completo o ensino do autor da carta aos hebreus em seus primeiros versos.

Você me pergunta então: – e como Deus fala hoje? Se voltarmos ao texto introdutório da carta aos Hebreus, haveremos de perceber que a voz de Deus está dita em regência verbal do pretérito perfeito. Isto significa que aquilo que era preciso ser dito da parte de Deus, foi feito por meio de Jesus Cristo, isto de forma definitiva. E o centro deste dito corresponde a mensagem da cruz, razão porque Paulo faz distinção, identificando os inimigos da cruz como aquele que busca satisfazer tão somente seu próprio ventre. Vamos tentar entender qual a relação entre alimentar o ventre com a cruz de Cristo. Leiamos a exposição que Jesus fez acerca do objetivo final de Sua vinda a este mundo:

Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia. (Mt 16.21)

Em síntese Jesus declara que Ele veio exclusivamente para morrer depois de muito sofrer e, ao terceiro dia, ser ressuscitado. Com isso queremos dizer que tudo quanto Deus tem a nos dizer passa primeiro, pelo critério da morte, para, só então, experimentarmos a benção da ressurreição. Pedro queria pescar para ganhar dinheiro e prover as necessidades de sua família. Jesus, contudo mostrou que, por maior que seja a pesca, se a vontade de Pedro não morresse para si mesmo e seu propósito não fosse convertido por buscar em primeiro lugar o reino de Deus, tudo que ele alcançaria seria a provisão para seu próprio ventre. Prolongaria sua vida na terra, mas não lhe traria bênçãos eternas. Assim, aprendemos que somente se passarmos pela prova da cruz poderemos, de fato, validar as intenções de nosso coração.

Comente este texto, isto me ajudará a aprofundar pontos que possam não ter ficado claros para você. Compartilhe com seus amigos e amigas. Vejo você no próximo texto.

Leave a Comment