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Como folha levada ao sabor do vento

“Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários! Muitos se levantam contra mim. Muitos são os que dizem de mim:

Não há socorro para ele em Deus.

Mas tu, Senhor, és um escudo ao redor de mim, a minha glória, e aquele que exulta a minha cabeça.

Com a minha voz clamo ao Senhor, e ele do seu santo monte me responde. Eu me deito e durmo; acordo, pois o Senhor me sustenta.

Não tenho medo dos dez milhares de pessoas que se puseram contra mim ao meu redor.

Levanta-te, Senhor! Salva-me, Deus meu! Pois tu feres no queixo todos os meus inimigos; quebras os dentes aos ímpios.

A salvação vem do Senhor;

sobre o teu povo seja a tua bênção.” (Sl 3:1-8)

Do norte é soprado um vento brando e fresco. Como um balé de dançarinos invisíveis a brisa move-se de um lado para o outro. O ar em movimento flui por entre as árvores do jardim, carregando consigo o aroma das flores. Deslocando-se da árvore uma pequena folha é levada pelo vento, cadenciando no ar, num volver lento e suave, ora subindo, ora descendo, ora a esquerda, ora a direita. Por um instante a pequena folha parece encontrar nos ares o lugar de sua existência até pousar sobre um imenso tapete verde, cuidadosamente aparado pelo jardineiro.

Exposta ao sol, à chuva, desprovido da seiva da árvore, logo a folha se seca, se decompõe, vira pó. Suas partículas se integram ao ambiente, servindo de adubo, revolvida pelas mãos habilidosas do jardineiro, enquanto este prepara a terra para as belas flores que serão plantadas. Da folha nenhuma notícia mais, se perdeu na imensidão do jardim, cumprindo o ciclo de sua existência – dissolvendo-se como matéria orgânica para dar existência ao que vêm depois dela.

Tal como a folha soprada pelo vento somos lançado no vale da existência. Dia a dia estamos expostos à brisa ou a rajadas de ventos, sem que sobre eles tenhamos poder algum. À voz de nosso amigo ou benfeitor podemos subir aos pícaros da glória ou no volver de nossos inimigos e adversários sermos atirados aos cães esfomeados. Os que nos observam de longe nos vêem apenas como uma folha solta no espaço, ziguezagueando desordenadamente no ar até ser lançado à terra e pó se tornar. Nossa fragilidade parece nos fazer joguete na mão de nossos adversários.

Sempre a espreita, pronto a nos derrubar, como um coral muito bem afinado, conduzido por um maestro dando-lhe compasso, nossos adversários tramam aqui, mexem ali até seu intento ser alcançado – desprender a folha da árvore, lançada à sua própria sorte numa espiral descendente, arremessada contra a terra, dissolvendo-se na imensidão do jardim. Sob o olhar frio e calculista do adversário mor, seu desígnio prevaleceu – roubada do galho que lhe dava abrigo, a folha desprendeu-se da seiva da árvore, exalando seu último suspiro, sendo destruída pela força das intempéries, se dissolvendo no jardim da existência. O adversário mor já pode dizer:

“Não há socorro para ele em Deus.” (Sl 3:2)

Uma árvore sem folha é como um quadro sem cor, um jardim sem matéria orgânica é como uma noite sem o brilho da lua. Qual é o lugar da folha? Onde ela pode prestar melhor serviço a existência? Só Deus sabe. Uma coisa é certa, antes de ser matéria orgânica, folha foi; antes de dar vida ao jardim, prestou sua beleza à árvore. Ademais, não compôs as cores da árvore sozinha, como também não trouxe vida ao jardim pela força tão somente de suas partículas. Se lhe fosse dado a escolher, seria impossível dizer onde a folha presta melhor serviço. O que lhe cabe fazer é se entregar à mão do Criador, nutrida pela confiança absoluta em Deus.

Assim como a folha, fixa no galho da árvore, levada ao sabor do vento, se decompondo sobre os torrões do jardim, devemos confiar nos desígnios divinos. Nossa sustentação não está no galho da árvore, no volver do vento ou no pedaço de terra endurecida, mas em Deus que sustenta a árvore, que sopra o vento, que irriga a terra. Somos folha que se desprende da árvore porque somos folha – estrutura distinta da árvore, cujo destino não se identifica necessariamente com a sorte da árvore onde outrora estava fixada.

Assim como a folha que se desprende da árvore seguindo seu próprio destino, somos nós neste mundo. Quem de fato nos dá sustentação e nos leva ao sabor do vento é Deus. O Senhor é um escudo em redor de nós (Sl 3:3). Envolve-nos inteiramente nos seus cuidados e nos faz prosseguir no curso de nossa existência, independente da ação de nossos adversários. No máximo a adversidade pode nos fazer desprender da árvore, mas não pode tolher o curso de nossa existência.

Ziguezagueando no ar, subindo e descendo, a folha prossegue sua trajetória até repousar no solo. Ali se deita, ali dorme, ali se decompõe. Então podemos dizer:

“Eu me deito e durmo; acordo, pois o Senhor me sustenta.” (Sl 3:5)

No sono do justo o agir de Deus. Adão teve de dormir para, de suas costelas, ser tirada a mulher, Jesus teve de morrer na cruz para que de seu sangue derramado a igreja pudesse surgir. A folha pode descolar-se do galho pela força da brisa, pela violência da tempestade, pelo furor do furacão. Pouco importa a ação que a arrancou de onde estava, por isso podemos dizer com certeza:

“Não tenho medo dos dez milhares de pessoas que se puseram contra mim ao meu redor.” (Sl 3:6)

Nosso socorro vem do Senhor, que fez os céus e a terra. Nossa salvação está em Deus, que cuida de nós. Nossa vida está escondida em Cristo Jesus. Nenhum poder tem nosso adversário sobre nós que não seja dado pelo Senhor. Ele mesmo é quem fere no queixo nossos inimigos, ao Seu tempo agirá (Sl 3:7). Quanto a nós, confiadamente podemos dizer:

“A salvação vem do Senhor; sobre o teu povo seja a tua bênção.” (Sl 3:8)

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