Comentários em aos Hebreus

Compreendendo a importância de saber Cristo ser superior aos anjos

tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles. Pois a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei Pai, e ele me será Filho? E, novamente, ao introduzir o Primogênito no mundo, diz: E todos os anjos de Deus o adorem. Ainda, quanto aos anjos, diz: Aquele que a seus anjos faz ventos, e a seus ministros, labareda de fogo; mas acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; e: Cetro de equidade é o cetro do seu reino. (Hb 1.4-8)

Caro amigo! Dileta amiga! Temos por tema a superioridade de Cristo sobre os anjos. Creio que é muito estranho tocarmos neste assunto, pois sabemos de sua existência, mas praticamente desconhecemos seus feitos em relação ao nosso cotidiano. Talvez alguém, por algum livramento impressionante, possa reputar aos anjos o seu livramento, contudo ainda assim pode ser mais uma presunção do que certeza. Ainda que haja quem tenha visão dos seres angelicais, quanto a estes temos que aceitar o seu testemunho, pois podem ver por si, mas não mostrar ao outro. E aqui não estou tecendo incredulidade, mas apenas manifestando o que nossa percepção sensorial pode atestar.

Na Bíblia temos muitos eventos em que homens interagiram com anjos de Deus.  Jacó, por exemplo, lutou com o Anjo do Senhor por toda noite até o amanhecer do dia. Grandes batalhas foram vencidas por Israel por interveniência direta de anjos. Daniel recebeu resposta de oração por intermédio de um anjo, após receber extensa explicação da batalha espiritual que se travara para que a resposta da parte de Deus pudesse chegar até ele.

Agora, me deixe dizer algo importante: não é olhando para nossa experiência com anjos que poderemos entender a superioridade de Cristo sobre eles. É um erro considerar os anjos a luz de nossa experiência pessoal com eles, pois nem estes grandes homens de Deus incorreram neste erro. E existe uma razão muito simples para rejeitarmos este tipo de consideração. Permita-me expor este princípio com base na interação que o apóstolo João teve com um anjo. Leia por você mesmo:

Então, me falou o anjo: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro. E acrescentou: São estas as verdadeiras palavras de Deus. Prostrei-me ante os seus pés para adorá-lo. Ele, porém, me disse: Vê, não faças isso; sou conservo teu e dos teus irmãos que mantêm o testemunho de Jesus; adora a Deus. Pois o testemunho de Jesus é o espírito da profecia. (Ap 19.9,10)

Os anjos, em relação a nós, são seres poderosíssimos. Este anjo veio até João e transmitiu-lhe uma revelação acerca das bodas do Cordeiro. João ficou tão impressionado que se prostrou aos pés do anjo para adorá-lo. E qual foi a atitude do anjo diante da humilhação a que João se submeteu diante dele? Leia de novo a resposta e coloque esta palavra no seu coração, pois aqui há um importante princípio acerca dos anjos: “Vê, não faças isso; sou conservo teu e dos teus irmãos que mantêm o testemunho de Jesus; adora a Deus” (Ap 19.10). E o princípio é este: tanto nós quantos os anjos, nos reportamos diretamente a Deus. É o Senhor que cabe saber se vai nos dar livramento por meio de anjos ou por mão de homens ou por outro meio qualquer. O próprio autor aos Hebreus vai reforçar este princípio ao escrever:

Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação? (Hb 1.14)

Assim como nós, os anjos também estão a serviços de Deus, agindo em estrita obediência as Suas ordens, portanto não nos cabe dizer o que Deus deve fazer para nos prover livramentos, mas esperar no Senhor, crendo que Deus tem cuidado de nós. Assentado isso em nosso coração, compreendendo que a grandeza de Cristo sobre os anjos não diz respeito diretamente à interveniência dos anjos em relação a nossa experiência, surge a questão:  Por que é tão importante sabermos que Cristo é superior aos anjos? Antes de respondermos esta questão, precisamos ter clareza que os anjos também são seres criados como nós o fomos. Leia:

pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. (Cl 1.16)

Paulo explica neste texto que tantos os seres visíveis quanto os invisíveis foram criados por Cristo Jesus. Portanto, quando Deus se determinou criar os céus e a terra em Gênesis, capítulo um, verso um, naquele tempo, na eternidade passada, só havia Deus nesta decisão, em Deus, a trindade, Deus, o Pai, Jesus, o Senhor e o Espirito Santo. Nenhum anjo presenciou esta decisão porque eles também foram criados juntamente com todo o universo. Temos a menção deles na criação nesta síntese de tudo quanto foi criado: “Assim, pois, foram acabados os céus e a terra e todo o seu exército.” (Gn 2.1). A menção ao exército do Senhor inclui também os anjos.

Voltando na carta aos Hebreus, se considerarmos os argumentos do autor aos Hebreus, no capítulo um, que vai do verso quatro a ao capítulo dois, verso dezesseis, procurando compreender acerca de quais anjos o Senhor faz referência, aprenderemos uma base sólida para lidar com esta superioridade de Cristo em relação aos anjos. Sabemos que houve uma rebelião angelical no passado capitaneada por Lucífer, também conhecido por Satanás e o Diabo. Desde então os céus se dividiu entre anjos bons e maus. Então, tendo isso em mente, percebemos que o autor aos Hebreus está fazendo referência, em primeiro lugar, aos anjos, de modo geral. E a estes é dada uma ordem:

“E, novamente, ao introduzir o Primogênito no mundo, diz: E todos os anjos de Deus o adorem” (Hb 1.6).

E por que é tão importante ordenar aos anjos adorarem a Jesus Cristo, declarando com isso a superioridade de Cristo sobre os anjos? A chave do entendimento está na palavra “introduzir”. Entenda a cena. Na eternidade passada havia Deus tão somente. Então Deus criou anjos e todo o universo. Estes seres celestiais têm a prerrogativa de adorar a Deus. Temos uma pálida descrição desta cena no livro de Isaías, quando ouvimos o soar da adoração celestial: “E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória”(Is 6.3). Se nós pudéssemos estar junto com os anjos nesta adoração, o que estaríamos vendo? Creio que, como eles, veríamos o único Deus, pois fora dEle não há outro igual. Todo o Antigo Testamento é um solene testemunho desta verdade, razão porque os judeus têm grande dificuldade de compreender a Trindade, ainda que haja prenúncio desta revelação no Antigo Testamento. Se os judeus tiveram esta dificuldade, pode ser que os anjos também passaram pela mesma percepção. Assim, os anjos viam a Deus e o adoravam clamando dia e noite acerca da santidade divina.

Este quadro já muda completamente no Novo Testamento, em especial no capítulo quatro e cinco do Apocalipse. Ali percebemos homens e anjos adorando ao Deus trino, pois temos aquele que “é semelhante, no aspecto, a pedra de jaspe e de sardônico” (Ap 4.3), temos “os sete Espíritos de Deus” (Ap 4.5) e ainda “no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto” (Ap 5.6). Portanto nesta cena celestial temos a Trindade revelada a todos os seres viventes, quer visíveis, quer invisíveis. Assim, entre Isaías, capítulo seis e Apocalipse, capítulo quatro e cinco, há todo um processo de revelação acerca da Trindade no seio do único Deus. Tendo estes quadros em mente, voltemos ao termo “introduzir”. Como o Filho de Deus foi introduzido na terra e revelado aos anjos em condição tal que estes renderam-lhe adoração ainda quando do seu nascimento? Examinemos primeiro a cena de adoração:

E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem. (Lc 2.13,14)

Eu pergunto a você: – a quem os anjos adoravam? Por certo você responderia de bate pronto: – ao bebê recém nascido de Maria, a Jesus Cristo, também conhecido como Emanuel. Isto é verdade, mas não é tão simples aceitar aquela cena de adoração. E por que? Isto porque para Jesus nascer como um bebê, o Verbo se fazendo carne, algo impressionante teve de ocorrer, escrito e revelado pelo apóstolo Paulo nestes termos:

pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, (Fl 2.6,7)

Note que a cena de um bebê nascendo, o que para nós é um evento corriqueiro, repetindo bilhões de vezes desde a criação do primeiro homem, naquele caso em especial, representa a maior humilhação que alguém pode se impor a si mesmo. Em Jesus Cristo nascendo como bebê, Ele teve de esvaziar-se de Sua divindade, assumindo a forma de servo, se fazendo semelhante aos homens e, sendo reconhecido em figura humana. Pense no tamanho da fé que os anjos tiveram de depositar na voz que os instruíam para dirigir-se àquele local e adorar a um bebê, cuja palavra de mistério lhes fora dada como sendo o próprio Filho de Deus? Para entender isso, voltemos a cena de adoração em Isaías, capítulo seis. Digamos que você fosse um dos serafins clamando dia e noite que Deus é santo. Isto significa que no dia em que Jesus nasceu você estaria naquele lugar celestial adorando a Deus. Será que você teria a visão que Jesus, o Senhor estaria saindo de alguma forma daquele local, visível e perceptível aos anjos, passando por todo um processo de esvaziamento até assumir a forma humana? Creio que não. Penso que os serafins continuaram a adoração sem perceber que ficaram tão somente diante de Deus, o Pai, enquanto que o Filho de Deus assumia a forma humana.

Com isso quero dizer que quando os anjos receberam a ordem de adorar a Deus, o fizeram pela confiança na palavra de quem deu a ordem, não porque entendiam como o mistério se dava. Eles sabiam por revelação, mas isto não significa compreender a verdade em toda sua extensão. Tiveram de acompanhar todo o ministério terreno do Senhor para chegar a profundidade da compreensão deste mistério. Assim também nós, reconhecer a superioridade de Cristo sobre os anjos é reconhecer todo o mistério da cruz e posterior glorificação do Senhor da glória, observando que nós somos os que fomos resgatados por esta maravilhosa obra divina.

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