A chave do coração

01 – Compreendendo o senhorio de nosso coração

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Por isso vos digo: Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir.” (Mt 6:24,25)

Jesus nos ensinou que o grande mandamento da lei é este: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento” (Mt 22:37). Este mandamento é o outro lado da moeda do primeiro mandamento do decálogo dado por Deus aos judeus com o seguinte teor: “Não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20:3). Por conta destes dois mandamentos nós só podemos ter um único Deus, não podemos servir a dois senhores. Ou servimos ao único e verdadeiro Deus ou as riquezas e obviamente nós respondemos prontamente que servimos a Deus, jamais as riquezas.

A grande questão que se nos coloca é como podemos identificar realmente quem ocupa o centro de nosso coração. Digamos que Deus seja o Presidente de uma empresa, neste caso nosso coração seria identificado pelos cargos de gerência, que são as pessoas responsáveis pelo planejamento e controle das ordens da Presidência, contudo os gerentes não são os executores. Os cargos de execução estão nas mãos dos funcionários, aqueles que exercem funções específicas e operacionais. Podemos dizer que a soma de todas as funções, bem como de todas as gerências correspondem com a vontade do Presidente. Agora, se conhecermos o caráter do Presidente e observarmos que a execução de uma ordem que não condiz com Seu caráter, logo podemos identificar que a vontade da Presidência deixou de ser obedecida.

O que o Senhor Jesus disse é que, se Deus é o Presidente, se Deus tem o centro de nosso coração, então o gerente não pode ser ansiosidade. Para sabermos se o gerente é a ansiedade, basta identificar qual a meta dos funcionários desta empresa. Se os funcionários trabalham exclusivamente para prover o que há de se comer, o que há de se beber e o que é preciso para vestir, então o gerente é a ansiedade, portanto o presidente desta empresa é a riqueza, não Deus, neste caso a gerência da empresa está sendo gerida por um “deus funcional”, assim os funcionários seriam as obras resultante dos comandos deste "deus funcional", que Paulo chama por "obra da carne". O Dr David A Powlison descreve estes “deuses funcionais” como sendo aquele “que ocupam posição de autoridade no coração humano – o  que ou quem na verdade controla ações, pensamentos, emoções, atitudes, memórias e expectativas” (1). Estes deuses funcionais, na verdade, nos impõe uma atitude que é diametralmente oposta à vontade de Deus, nos termos de Paulo, os que estão na carne, ou seja, sob o comando destes deuses funcionais, não podem de modo algum agradar a Deus (Rm 8:8). Quando Deus é o Presidente, o gerente é a Confiança em Deus, portanto todos os funcionários desta Empresa trabalham para o reino e para a glória de Deus.

Nós podemos identificar a presença do deus funcional, por exemplo, quando observamos como se processa a busca por um de nossos desejos básicos, o de ser reconhecido, o desejo de afirmação pessoal. Quando o pai se desloca em casa, a criança se movimenta em torno dele, para demonstrar alguma habilidade e ser reconhecida. Foi o caso de um menino, quando sua mãe se dirigiu ao portão de casa para despedir-se de uma visita. Quando ela entrou, fechando o portão, o menino passou por ela em grande carreira, fez um movimento rápido e empinou a sua bicicleta, dizendo: “Mãe, veja o que eu consigo fazer?!”. Naquele momento o desejo de seu coração era ser reconhecido por suas habilidades na bicicleta.

O desejo de afirmação traz consigo dois componentes, assim como a adoração a Deus se desdobram em dois aspectos: amar a Deus e não ter outros deuses. No caso da afirmação, ela busca incessantemente, no aspecto positivo, o sucesso e seu componente negativo, o fracasso. O sucesso lhe traz o reconhecimento público de seu merecimento e o fracasso a compaixão de seu semelhante, tanto um quanto o outro resulta em que o indivíduo está sendo notado, ou elogiado ou despertando o pesar de alguém. Acontece que o sucesso nunca chega à medida que queremos e o elogio não preenche a necessidade de nosso coração, assim somos alimentados pelo rancor, o sentimento amargo de ressentimento porque não recebemos o suficiente reconhecimento por nossos atos. Por outro lado se fracassamos, cultivamos o desalento e o desânimo, que facilmente se transforma em depressão.

Nesta busca incessante do sucesso, até para justificar nossos fracassos, mas também porque não somos reconhecidos na medida de nossas realizações, fabricamos para nós inimigos, todos aqueles que se apresentam como obstáculo ao sucesso desejado. Os que fracassam andam a caça de benfeitores, alguém que os possa livrar da penúria que se encontram. Como o mundo é injusto, os inimigos fabricados por nós acabam por nos tratar como tais e os benfeitores se recusam a dar o que tanto almejamos, passamos a nutrir o sentimento de vingança, o desejo desenfreado de tirar a desforra, de castigar as pessoas por não nos dar o que queremos. Por conclusão descobrimos que o deus funcional, que realmente está controlando nossas ações, pensamentos, emoções, atitudes, memórias e expectativas é, na verdade a ira. A “ira é um movimento desordenado da natureza pecaminosa do homem, que o leva a rejeitar com violência tudo aquilo que o desagrada, e a vingar as ofensas reais ou imaginárias”(2)

Assim, o fruto tão almejado, desejo de afirmação, quando proveniente de um coração que não tem Deus no controle, tem por deus funcional a ira, sendo seus agentes operacionais o rancor, a mágoa, o desalento e o desânimo. O tão cobiçado sucesso ou seu agravante negativo, o fracasso se tornam as verdadeiras metas existenciais, construídos sobre falsos relacionamentos por gerar ou inimizade aos que estão em busca do sucesso ou dissimulação aos que andam na caça de benfeitores para tirar-lhes o peso de seu fracasso.

Nós não podemos nos deixar enganar sobre toda esta questão de quem está no centro de nosso coração. O Senhor Jesus deixou claro os critérios por meio dos quais nós podemos identificar a quem de fato nós estamos servindo porque Ele bem conhece o coração que temos. Nosso coração é, por natureza, enganoso, mais do que todas as coisas, segundo observou o profeta Jeremias (Jr 17:9). O apóstolo Paulo foi mais longe e disse que nosso coração é dominado pelo pecado que se utiliza da lei de Deus para gerar em nós toda sorte de desejos intensos contrários à vontade de Deus (Rm 7:8). O que é pior é que o pecado tem o poder de nos enganar, de nos fazer crer que o pecado que nós cometemos é, na verdade, a vontade de Deus para nossa vida (Rm 7:11).

O mais terrível é que, quando o pecado não consegue nos enganar, consegue pelo menos fazer com que a sua vontade seja obedecida em detrimento a lei de Deus. Neste caso nós fazemos o que não queremos e o que realmente queremos somos incapazes de fazer (Rm 7:20), isto porque em nossa carne, por causa da queda do homem, não habita bem algum (Rm 7:18).

O certo é que podemos pecar por ignorância no tocante a qualquer coisa que o Senhor Deus tenha ordenado que não devia ser feito (Lv 4:2) ou podemos simplesmente ocultar nosso pecado dos homens (Lv 4:12), contudo seja por ignorância ou estando oculto, ainda assim somos culpados pelos pecados que cometemos (Lv 4:13). De um modo ou de outro, nós somos responsáveis por nosso coração, razão porque devemos guardá-lo com toda a diligência, porque dele procedem às fontes da vida (Pv 4:23).

Graças a Deus por Sua bendita palavra; ela é viva e eficaz, apta para discernir os pensamentos e intenções do coração (Hb 4:12), ou seja, a palavra de Deus é apta para identificar o que realmente está motivando nossa conduta se nós assim permitirmos, é apta para identificarmos quem realmente está no centro de nosso coração. E, se não nos endurecermos pelo engano do pecado (Hb 3:13), então a palavra de Deus também é apta para dirigir nossos passos (Sl 119:105) para a glória de Deus.

(1) Powlison, David A. Conceitos Bíblicos Básicos Sobre a Motivação Humana in Aconselhamento Bíblico, Coletânea. Atibaia. Seminário Bíblico Palavra da Vida, 1999.

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