Comentários em aos Hebreus

Cristo é superior a tudo quanto foi criado

Ainda, quanto aos anjos, diz: Aquele que a seus anjos faz ventos, e a seus ministros, labareda de fogo; mas acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; e: Cetro de equidade é o cetro do seu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria como a nenhum dos teus companheiros. Ainda: No princípio, Senhor, lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obra das tuas mãos; eles perecerão; tu, porém, permaneces; sim, todos eles envelhecerão qual veste; também, qual manto, os enrolarás, e, como vestes, serão igualmente mudados; tu, porém, és o mesmo, e os teus anos jamais terão fim. (Hb 1.7-12)

Caro amigo! Dileta amiga! Eis que temos diante de nós o reino eterno do Senhor Jesus Cristo. E o autor aos Hebreus, para nos expor este reino faz notáveis contrastes, cabe-nos considerar cada um deles. Agora, para nós compreendermos estes contrastes precisamos ter em mente que Jesus, o Filho de Deus, criou todas as coisas, tanto as dos céus, quanto as da terra. Creio que isso é de nosso conhecimento, não temos dúvidas a este respeito. Só que quero chamar sua atenção para dois aspectos quanto a tudo que foi criado.

Há poucas definições nas escrituras sobre quem Deus é, na verdade, de forma direta e afirmativa só encontramos duas. Vamos conhecer cada uma delas: “Deus é amor” (I Jo 4.8) e “Deus é espírito” (Jo 4.24). Se voltarmos para a eternidade passada, quando nada mais havia senão Deus, o que tínhamos é que o Deus de amor é Espírito, não se falava acerca da matéria. Na afirmação em que tomamos conhecimento que Deus é amor, encontramos nesta assertiva a presença do Deus trino, porquanto só pode haver amor onde há relacionamento e isso se dava na essência da divindade entre Deus, o Pai, o Filho, o Senhor e o Espírito Santo. E, quando aprouve a Deus criar todas as coisas, o fez em duas esferas, a primeira, no mesmo âmbito de sua natureza, criou os anjos, seres espirituais, invisíveis ao restante da criação, por causa de sua natureza constitutiva, sem conseguirmos compreender como isso se dá.

Tudo o mais que foi criado, diferente dos anjos, é constituído de matéria. Isto inclui todo o restante do universo, tanto as coisas microscópicas, quanto as estelares. Precisamos ter este contraste entre o que foi criado, seres espirituais e o mundo material, porquanto é olhando para estas distinções que o autor aos Hebreus vai mostrar, por aquilo que cada um o é, as realidades eternas do reino de Deus. Sintetizando, tudo o que foi criado, o foi em duas esferas: o mundo eminentemente espiritual, formado pelos anjos e assemelhados e o mundo material compreendendo todo o restante do universo. Depois preciso fazer uma distinção entre tudo quanto foi criado, sejam seres espirituais e materiais, conosco, a coroa de toda criação divina até para entender porque o homem é esta coroa.

Qual o primeiro contraste apresentado pelo autor aos Hebreus acerca do reino de Deus? O primeiro está compreendido entre os versos sete a nove do primeiro capítulo aos Hebreus. Este escritor compara o reino de Deus ao reino espiritual formado pelos anjos. E o que é dito acerca dos anjos é de suma importância para a compreensão da existência, da vida em sua essência. Isto porque eles foram criados e perdurarão por toda a eternidade futura tais como foram criados. E a função deles é de serem ministros de Deus, com um poder inimaginável, que só podem ser equiparados a labaredas de fogo. O poder dos anjos é incomensuravelmente maior do que os dos homens, mas infinitamente menor do que o de Deus, tudo é uma questão por qual parâmetro se olha. Contudo, ainda que dotados de grande poder os anjos são apenas servos de Deus, enquanto que o Filho de Deus, que esvaziou-se de sua divindade para se fazer servo, em morrendo morte de cruz, ascendeu aos céus, assentando-se à destra de Deus, pois recebeu um trono eterno. Portanto Jesus Cristo é superior aos anjos.

Vimos que Jesus é superior aos anjos criados. Precisamos acrescentar que esta superioridade é sobre a totalidade destes seres espirituais, sejam bons ou maus. Agora para que não paire dúvida quanto a este aspecto, o autor aos Hebreus faz uma segunda comparação ao enaltecer a prevalência da justiça sobre a iniquidade. O Senhor Jesus ama a justiça, mas odeia a iniquidade, seja ela do tipo que for. E, por conta desta atitude, a unção recebida pelo Senhor para realizar o Seu ministério foi sobremodo excelente. João Batista trata deste assunto dizendo: “Pois o enviado de Deus fala as palavras dele, porque Deus não dá o Espírito por medida” (Jo 3.34). É interessante notar que Jesus veio para este mundo esvaziado, portanto tudo quanto passou a conhecer enquanto homem foi aprendido, principalmente à partir das escrituras do Antigo Testamento, que era o texto que estava a Sua disposição. Em certo lugar, no Antigo Testamento, está escrito:

Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel. Ele comerá manteiga e mel quando souber desprezar o mal e escolher o bem. Na verdade, antes que este menino saiba desprezar o mal e escolher o bem, será desamparada a terra ante cujos dois reis tu tremes de medo. Mas o SENHOR fará vir sobre ti, sobre o teu povo e sobre a casa de teu pai, por intermédio do rei da Assíria, dias tais, quais nunca vieram, desde o dia em que Efraim se separou de Judá. (Is 7.14-16)

A leitura destes versículos precisa de uma acurada contextualização, isto porque o texto trata de duas crianças, o Emanuel, que é o Filho de Deus, e sobre Sear-Jasube, filho de Isaías. Entendamos o mistério. O rei Acaz pediu proteção ao rei da Assíria para o livrar da mão do rei da Síria. Ocorre que a Assíria foi o reino que fez desaparecer as dez tribos de Israel, razão porque Isaías profetizou ao Rei Acaz acerca desta destruição eminente. Devemos nos lembrar que após a morte do rei Salomão, Israel dividiu-se em dez tribos ao Norte, conhecido também por Israel, e duas tribos no Sul, capitaneada por Judá. Israel, ao Norte, voltou-se a idolatria representada pelo bezerro de ouro e, mesmo conclamado ao arrependimento por inúmeros profetas, negou-se a voltar-se para o Senhor, dai o juízo que haveria de ser destruído por mão do rei da Assíria, como de fato se deu anos depois.

Neste contexto Isaías trouxe seu pequeno filho Sear-Jasube para fazer uma analogia entre o crescimento de seu filho com a destruição eminente. No verso dezesseis Isaías declara que antes de seu filho discernir o bem do mal, a destruição haveria de vir sobre o rei da Síria, contudo, mais tarde, o mesmo reino da Assíria que destruiu a Síria, haveria de destruir o próprio Israel, as dez tribos do Norte. Agora que entendemos que parte da profecia diz respeito ao filho de Isaias, em meio a esta predição, Isaías profetizou também o nascimento virginal do Senhor Jesus e acrescentou que Jesus aprenderia a desprezar o mal e escolher o bem em sua infância e adolescência. Como sinal de como isso se daria, Isaías afirmou que Jesus haveria de comer neste período de sua vida manteiga e mel, típico alimento disponível aos mais pobres em época de grande privação. Devemos nos lembrar que, após o nascimento de Jesus, o rei Herodes mandou matar todos meninos menores de dois anos, obrigando Jesus e Sua família se retirar para o Egito.

O que queremos demonstrar aqui é que Jesus, passado pelo processo de esvaziamento de Sua divindade e, tendo nascido como o menino Jesus, nascido sem pecado porquanto fora concebido pelo Espírito Santo no ventre de Maria, por isso nascido de uma virgem, este mesmo Jesus desenvolveu sua maturidade espiritual, iluminado pelo Espírito Santo que o gerou e, a partir dos estudos do Antigo Testamento. Como sabemos disso? Leia por você mesmo duas afirmações importantes a este respeito acerca de Jesus:

Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele. (Lc 2.40)

E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens. (Lc 2.52)

Foi neste processo de crescimento e amadurecimento espiritual pelo qual Jesus passou, ainda que tenha nascido sem pecado. Este processo de crescimento e amadurecimento nos estão disponíveis. E foi por meio deste processo que Jesus aprendeu a amar a justiça e odiar a iniquidade. E por que o autor aos Hebreus revela esta faceta da infância, adolescência e juventude de Jesus logo após ter afirmado que Jesus é superior aos anjos? Porque nos faz lembrar que um dos anjos escolheu a iniquidade como estilo de vida, o que nos foi revelado pelo profeta Ezequiel a respeito de Satanás: “Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniquidade em ti” (Ez 28.15). Este anjo maligno foi criado perfeito em um mundo perfeito, como perfeito nasceu Jesus em um mundo caído, no entanto enquanto Satanás escolheu para si a iniquidade, Jesus amou a justiça e odiou esta mesma iniquidade a qual Satanás se amealhou para si, mostrando quão exaltado é o Filho de Deus.

Se avançarmos o texto, haveremos de ter o terceiro contraste que diz respeito ao restante do universo, fazendo uma ressalva agora, a de que o universo tende para sua dissolução. O universo é feito de matéria e qual seu destino final? O autor aos Hebreus vai expor na sequência dizendo que o universo tende para o envelhecimento, para se desfazer em pó, para a sua autodestruição. Hoje nós olhamos para o mundo que nos cerca e sentimo-nos seguro com ele, porquanto desde a criação dos céus e da terra tudo permanece como esta. Contudo há um fim apocalíptico eminente descrito pelo apóstolo Pedro nestes termos:

Ora, os céus que agora existem e a terra, pela mesma palavra, têm sido entesourados para fogo, estando reservados para o Dia do Juízo e destruição dos homens ímpios. (II Pd 3.7)

No livro do Apocalipse ficamos sabendo que haverá novos céus e nova terra, contudo este como nós o conhecemos hoje será destruído antes da implantação visível do reino de Deus. Antes mesmo deste evento se dar, o autor aos hebreus nos revela que o reino de Deus é superior ao próprio universo criado pelo Senhor Jesus, porquanto mesmo tendo sido criado por Jesus, tende a destruição. É por esta razão que devemos colocar nossa confiança tão somente em Cristo Jesus, porquanto tudo que nos é precioso neste mundo pode sofrer abalos de alguma natureza, mas os que confiam no Senhor permanecem para sempre.

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