Reflexões

Dando conta de nós mesmos no tribunal de Cristo

o qual também vos confirmará até ao fim, para serdes irrepreensíveis no Dia de nosso Senhor Jesus Cristo. (I Co 1.8)

Enquanto esteve preso em Damasco, certa feita Paulo foi chamado para expor sua fé em Cristo Jesus diante do governador Félix, juntamente com sua esposa Drusila, que era Judia (At 24.24). Não sabemos qual foi o conteúdo desta exposição, contudo Lucas fez questão de ressaltar que Félix ficou profundamente amedrontado com tudo que ouviu acerca de três tópicos: da justiça, do domínio próprio e do Juízo vindouro (At 24.25). Vamos equacionar estas três temáticas a luz da soberania divina e no horizonte temporal e, para isso, precisamos de um ponto de referência.

O parâmetro que tenho em mente é nosso coração. Para isso consideremos um cone. Ele se constitui em uma figura geométrica como uma pirâmide cuja base é um polígono. Todo o envolto e sua base podemos representar como sendo nosso corpo. O interior, se tomarmos como um espaço vazio, nossa alma. Um pouquinho antes de atingir o vértice, nosso espírito humano. Consideremos, pois, o vértice, como sendo nosso coração. O vértice é um ponto de confluência, para onde todas as interações, corpo, alma e espírito, afluem simultaneamente. Este mover seria como correntezas de um rio desaguando no mar. Eis a razão porque nosso coração é tão complexo e difícil de compreender. Aliás, o profeta Jeremias fez a seguinte observação:

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações. (Jr 17.9,10)

Em que pese esta complexidade, temos a responsabilidade de zelar por nosso coração. Uma de nossas metas é o mantermos limpos para que possamos ver a Deus (Mt 5.8). Temos como saber de seu estado por aquilo que pensamos, falamos e fazemos, porquanto “a boca fala do que está cheio o coração” (Mt 12.34). E, se há algo que devemos nos precaver em todo o tempo é como o estado em que se encontra nosso coração, porquanto está escrito: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Pv 4.23). Assim, do mesmo modo que todo nosso ser conflui para nosso coração, ele pode ser a fonte de rios água viva que jorra de nós para o nosso próximo (Jo 7.38).

Voltemos a figura do cone. Se aquilo que se move pode sair do vértice para a base ou do contrário, diríamos que quando o sentido é da base para o vértice, estamos vivendo para nós mesmos, envoltos em nosso egocentrismo. Por outro lado se este mover é do vértice para a base, diríamos que a prevalência é da manifestação de Deus em nós. Estes dois sentidos foram desenhados pelo apóstolo Paulo nos seguintes termos:

Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz. (Rm 8.5,6)

Para compreender a importância desta inclinação faça uma pequena demonstração para si. Tome uma régua e a coloque de pé, segurando-a na ponta superior. Então solte-a e veja para que lado ela irá cair. Este foi o sentido da sua inclinação, porquanto se estivesse em perfeito equilíbrio, haveria de permanecer de pé. Do ponto de vista da existência, não existe este ponto de equilíbrio, ou vamos nos inclinar para as coisas de Deus, ou para as da carne. Tudo depende de quem nos lidera, se nós mesmos, ou então o Senhor em nós. Todos nós, que cremos em Cristo, temos a inclinação para as coisas espirituais, a pergunta que cabe cada um de nós fazer é a força com que esta inclinação se dá. Para alguns, uma hora e meia na semana em adoração diante de Deus é de todo suficiente para o sustentar na jornada, outros, contudo, estão como Davi declarou de si mesmo: “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma” (Sl 42.1). Entre um e outro há uma enormidade de variação.

Agora podemos retornar as temáticas do apóstolo Paulo. Seja o ímpio, ou o crente, todos temos de trilhar nossa jornada nestes três aspectos básicos: a justiça, o domínio próprio e o juízo vindouro. Podemos considerar estes três termos como refletidos no espelho de água, assim, a pessoa poderia ler os tópicos na superfície ou eles retratados abaixo da superfície da água. Félix ouviu de Paulo na perspectiva abaixo da linha d’água. Estes a justiça os julgarão em conformidade com suas obras, por não exercerem domínio sobre si, em ofensa as suas consciências, não lhes restando outo fim senão o juízo final conforme lemos:

Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo as suas obras. Então, a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo. E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo. (Ap 20.13-15)

Não foi sem razão que Félix ficou amedrontado porquanto o fim último daquele que jaz sem Cristo é a terrível perdição eterna. Por outro lado o crente vê estes mesmos tópicos sob outra ótica diametralmente oposta. Para estes Jesus Cristo é sua justiça, tudo quanto o Senhor alcançou na cruz lhe foi dado gratuitamente, sendo justificado pelo sangue que fora derramado pelo Cordeiro imaculado de Deus. Este primeiro tópico é prontamente entendido por praticamente a totalidade dos cristãos. Agora os dois outros demandam mais atenção, porquanto poucos são comentados nas pregações e ensinos da palavra de Deus. Consideremos o último antes de tratar do segundo. Pelo modo como Paulo escreveu aos Coríntios o dia de nosso Senhor Jesus Cristo, que diz respeito ao tribunal de Cristo que todos nós, os crentes, haveremos de comparecer (II Co 5.10), deve ser para nós um marco, um referencial que se impõe diante de nós.

O tribunal de Cristo decorre do fato de ser Ele o Criador, nós criaturas; Ele o Redentor, nós os remidos; Ele o Pai celestial, nós seus filhos; Ele o noivo, nós a noiva; Ele o Cabeça, nós, seu corpo, sua igreja; Ele o Soberano Senhor, nos, seus servos. Com isso se evidencia que haveremos de prestar conta por cada um dos papeis que representamos diante de nosso Senhor e Salvador porquanto é impossível nos relacionar com Deus sem levarmos em conta dois aspectos distintos de nossa fé: Deus existe e se torna galardoador dos que o buscam. (Hb 11.6), razão porque Paulo escreveu: “cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus” (Rm 14.12).

Diante de tão grande responsabilidade, voltemos ao segundo ponto, precisamos aprender a exercer domínio próprio. Lutero dizia: nos é exigido governar nosso corpo e lidarmos com pessoas e eu acrescento, adorar e servirmos a Deus. E exercer domínio próprio não é uma tarefa fácil, porquanto se são nove o fruto do Espírito na lista de Gl 5.22,23, o último deles, portanto o mais difícil de ser alcançado é exatamente o fruto do domínio próprio. E aqui trazemos a memória o primeiro tópico dado pelo apóstolo Paulo, o exercício do domínio próprio se faz com base na justiça de Deus, porquanto o que será colhido no juízo daquele dia, no tribunal de Cristo será o quanto realizamos com base na palavra e no poder de Deus porquanto está escrito: “O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida” (Jo 6.63).

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