Comentários em aos Hebreus

Devemos nos apegar a palavra de Deus para não incorrermos em juízos divinos

Por esta razão, importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos. Se, pois, se tornou firme a palavra falada por meio de anjos, e toda transgressão ou desobediência recebeu justo castigo, como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram; dando Deus testemunho juntamente com eles, por sinais, prodígios e vários milagres e por distribuições do Espírito Santo, segundo a sua vontade. (Hb 2.1-4)

Caro amigo! Dileta amiga! O tema deste texto é um paradoxo, porquanto deveria ser uma prática da vida cristã, mas se torna incompreensível a muitos que se deparam com estas instruções acima do autor aos Hebreus. Estamos falando da necessidade de nos apegar à palavra de Deus. Lembro-me que na década de oitenta era bem popular a caixinha de promessas bíblicas. Antes de uma dada oração alguém do grupo passava a caixa por todos, cada um buscando uma promessa de Deus para guiar suas orações. Esta prática decorre de outra mais antiga e profunda, ressaltada principalmente com a reforma protestante, a de que a Bíblia é nosso livro de regra e fé.

Os reformadores tinham como principal meta dar glória a Deus em tudo quanto faziam; Esta é a razão porque não havia área da vivência deles que não tivesse uma diretriz extraída da palavra de Deus. Hoje o cristão, via de regra, não busca mais a glória de Deus, mas a sua realização pessoal, tornando com isso a palavra de Deus irrelevante para o seu dia a dia. O que conta é a força do pensamento positivo, a busca indiscriminada pela prosperidade e o anseio pela saude perfeita.

Permita-me dar uma demonstração do quão distante podemos estar de ter a Bíblia como livro de regra e fé. Paulo escreveu aos Efésios instruções preciosas para diversos papeis que exercemos. Se observarmos cada um destes papeis haveremos de perceber que eles afetam praticamente todas as áreas de nossa existência, ficando de fora unicamente os momentos de lazer. De aos Efésios capítulo cinco, verso vinte e dois até capítulo seis, verso nove, Paulo orienta a esposa e ao marido, aos pais e aos filhos, aos empregados e empregadores como estes devem exercer seus papeis à luz da vontade de Deus. Assim, cada um deles precisa exercer seus papeis segundo orientações divinas. Contudo esta não é a realidade de muitos cristãos hoje, senão de modo bastante superficial. É por esta razão que, quando se lê a necessidade de se apegar à palavra de Deus, a exortação se torna muito estranha, praticamente sem significado para boa parte dos cristãos. Então vamos entender a natureza da exortação para que possamos avaliar como ela impacta em nosso viver.

O autor aos Hebreus exorta ao cristão apegar-se à verdade ouvida (Hb 2.1). Mais adiante ele faz menção que esta verdade ouvida traz grande salvação (Hb 2.3). Isso nos faz perguntar: – Afinal de contas, porque a salvação está superdimensionada? Sabemos que no ato que recebemos a Cristo como Senhor e Salvador somos instantaneamente justificados e regenerados, passando a ter a vida eterna. Se nada mais ocorresse deste ponto em diante, estaríamos tão somente aguardando a ressurreição dos santos que dormem no Senhor e o arrebatamento dos que estiverem vivos ao soar da trombeta para estar para sempre com o Senhor, adentrando na eternidade. Ser salvo é exatamente isso, sair da condição de mortos espirituais para termos vida eterna em Cristo Jesus, aguardando novos céus e nova terra.

Ocorre que a salvação proposta pelo Senhor tem como ponto de partida a justificação/regeneração para prosseguir adiante, nos termos do autor aos Hebreus, conduzindo muitos filhos à glória por meio da santificação destes mesmos filhos (Hb 2.10,11). Paulo trata deste assunto escrevendo nos seguintes termos:

o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai, (Gl 1.4)

Observe que a obra de Cristo na cruz não somente nos justifica como também nos santifica, isto é, realiza um processo de transformação em nosso coração com o objetivo de nos desarraigar deste mundo para nos moldar na imagem de Cristo. Com isso queremos dizer que o nosso estilo de vida deve ser moldado segundo a palavra de Deus, pois somos chamados a sermos imitadores de Deus. Basicamente o que se está propondo é que aprendamos a andar com Deus neste mundo em trevas com o objetivo de glorificarmos a Deus. Em outras palavras, o autor aos Hebreus nos chama a assumir por completo nossa identidade cristã, sendo esta a razão da epístola aos Hebreus ser conhecida como “palavra de exortação” (Hb 13.22).

O que nós precisamos entender acerca da vida cristã, para compreender os escritos da carta aos Hebreus é que, uma vez justificados/regenerados, somos chamados ao amadurecimento da fé. Sob esta ótica a carta aos Hebreus traz cinco grandes exortações por sua ordem: a) não podemos ser negligentes para com a palavra de Deus; b) não podemos deixar os pecados endurecer nossos corações; c) não podemos nos apostatar da fé, conduzindo nossa vida com base em nossa própria filosofia de vida; d) não podemos abandonar nossa confiança em Deus; e, por fim, e) não podemos deixar de servir a Deus. Estando consciente que esta carta nos chama ao amadurecimento, então podemos nos deter na primeira exortação, que nos chama a não sermos negligentes para com a palavra de Deus. E como o autor aos Hebreus nos coloca este ponto? O autor nos faz lembrar que Deus executa juízos sobre toda rebelião.

Podemos por exemplo, nos lembrar que os anjos que se rebelaram contra Deus, por dar lugar à iniquidade, receberam justos juízos. Sabemos que esta rebelião foi capitaneada por Satanás, contudo o juízo que recaiu sobre ele ainda está em execução e só finalizará após o milênio, quando ele será definitivamente lançado no lago de fogo e enxofre. Por outro lado existem anjos malignos com tal poder de destruição que se eles fossem soltos por um segundo poderiam destruir, quem sabe, todo o universo. Acerca destes lemos:

e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia; (Jd 1.6)

Procuremos entender: o juízo final ocorrerá em um único momento adiante no tempo, contudo muitos anjos malignos já estão acorrentados em algemas eternas esperando por esta hora. Do ponto de vista divino, a sentença já foi dada, resta tão somente chegar a hora de sua execução. Outros juízos podem ser acrescidos a este exemplo, como o diluvio, a destruição de Sodoma e Gomorra e as dez pragas que caíram sobre o Egito, observando que, acerca destes juízos, somente na destruição de Sodoma e Gomorra podemos identificar diretamente o testemunho dos anjos dado a Ló, obrigando a família dele se retirar antes que o fogo descesse do céu.

Agora, sob uma análise mais restrita, o autor aos Hebreus faz referência direta à entrega dos dez mandamentos feitos a Moisés. Em que pese o fato de sabermos que a lei foi escrita na pedra por dedo de Deus, Estevam, ao fazer referência ao monte Sinai, diz que a lei foi dada por ministério de anjos (At 7.53). E, já na entrega da lei, enquanto Moisés a recebia, os israelitas criaram para si um bezerro de ouro, querendo com isso prestar culto a Deus. Como resultado desta idolatria, em uma só noite foram mortos em torno de três mil pessoas (Ex 32.28).

A execução deste juízo sobre os idólotras executado por Moisés é apenas uma das evidências da seriedade com que o trato da lei de Deus se revestia, pois havia instruções em dados preceitos com diversas penalidades impostas, inclusive, implicando na morte do ofensor. Podemos citar aqui um fato ocorrido no livro de Levítico. Houve uma contenda no acampamento entre filhos de Israel e um outro que era filho de uma israelita com um egípcio. Este, indignado, veio a blasfemar o nome do Senhor. Imediatamente foi preso e levado a julgamento. A sentença dada pelo Senhor a Moisés foi que este deveria ser apedrejado até a morte, como de fato ocorreu (Lv 24.23).

Eu creio que você deve estar me dizendo o seguinte: – Cezar, vivemos debaixo da graça. Este caso de execução de juízos divinos não acontece mais. Eu lhe pergunto: – Será? Sabemos de um terrível juízo que se abateu sobre Ananias e Safira por conta de uma oferta mal explicada. O problema não fora o montante ofertado, mas o fato de terem mentido acerca da quantia devida, uma vez que haviam assumido o compromisso de dar certa parte ao Senhor (At 5.5,10). Mesmo assim talvez você insista em me dizer que este é uma exceção da regra, isto não mais acontece na dispensação da graça. Bem, quero lhe fazer lembrar que todo mês, em muitas igrejas, é servida a ceia do Senhor. Para esta cerimonia muita vezes é lido as instruções feitas pelo Apóstolo Paulo em I Coríntios capítulo 11, versos vinte e três a vinte e seis. Mas se a leitura prosseguisse um pouco mais, haveríamos de ler o seguinte:

Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice; pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si. Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem. Porque, se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo. (I Co 11.27-32)

Com isso quero dizer que todo mês, em havendo dado cristão participado da ceia do Senhor, em havendo ele feito de modo indigno, poderá estar alistado entre os que são julgados pelo Senhor, vindo a ficar fraco na fé, ou cair enfermo de algum modo ou mesmo perder a vida fora do tempo que seria o adequado para ele. Os juízos divinos estão ocorrendo constantemente no meio do arraial dos santos, no seio da igreja, o problema é que nos falta discernimento em identifica-los, razão porque muitos desprezam as exortações contidas na epístola aos Hebreus.

Comente este texto, isto me ajudará desenvolver outros aspectos do texto que não me foram percebidos. Compartilhe com seus amigos e amigas. Vejo você no próximo texto.

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