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Discernindo autoaceitação de autoconfiança

Bem que eu poderia confiar também na carne. Se qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: … Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos. (Fl 3.4,8-11)

Caro amigo! Dileta amiga! O tema de nossa conversa hoje é a autoestima, que traz consigo o conceito de autoaceitação incondicional. Este é um conceito, vindo da psicologia, para designar a percepção que cada indivíduo tem de si mesmo diante do mundo que o cerca e da razão de sua existência. Outro conceito mais limitado, contudo cujo significado é confundido com este é autoconfiança.

Enquanto que autoaceitação diz respeito aquilo que o indivíduo é, a autoconfiança define a percepção que a pessoa tem de sua própria capacidade realizadora. A autoconfiança aponta para o potencial do ser, a autoaceitação reflete a personalidade do indivíduo, aquilo que ele é perante o mundo que o cerca.

Como o mundo é uma sociedade performática, autoconfiança se tornou sinônimo de autoaceitação, pois o ter se tornou mais importante que o ser. Este tipo de percepção remete, por exemplo, às entrevistas de emprego, onde a grande meta é demonstrar ao provável empregador a capacidade de realização que o pretenso candidato tem. Geralmente, neste caso, se ignora todas as deficiências e exalta as qualidades profissionais e pessoais.

Creio que você deve estar me perguntando: – como podemos discernir a diferença entre autoconfiança e autoaceitação? Para entendermos as distinções, vamos trazer a mente dois cenários. No primeiro você está sentado em sua estação de trabalho, iniciando o expediente em uma segunda feira de manhã. No outro você está confortavelmente sentado diante de seu aparelho de TV em uma tarde de domingo, assistindo seu programa favorito. No primeiro caso é esperado que você alcance algum resultado que seja significativo para o empreendimento em que se inseriu. No outro você tem todo o direito de descansar, sem preocupar-se com o dia de amanhã.

Agora vamos traçar uma linha do tempo. Temos o marco zero, prosseguindo esta linha indefinitivamente até a morte natural. A autoaceitação está no ponto inicial. Ao nascer você não foi capaz de definir coisa alguma a seu respeito. Você é fruto do relacionamento íntimo de seus pais, foi gerado na cidade em que eles se encontravam, recebeu traços hereditários de sua família ascendente, possui características intrínsecas que formam sua própria personalidade, distinta de qualquer outro ser. Este é quem você é.

Desde o nascimento suas necessidades começaram a ser supridas. As variantes de como acontece este suprimento variam ao infinito. Os mais privilegiados recebem desde cedo os mais qualificados alimentos, as mais belas vestimentas, as mais ricas moradias, outros, no extremo oposto, desde cedo carecem de refeições regulares, são cobertos por trapos, moram em condições insalubres. Assim, cada caso é um caso, cada individuo uma história. E, deste ponto em diante, vai se definindo a autoconfiança. Isto é, uma confiança baseado nas posses, nas qualidades desenvolvidas, na capacidade de produzir resultado, autoconfiança esta que vai se afastando mais e mais da autoaceitação.

Talvez você me diga que a diferença entre quem você quando nasce e como você é criado não tem importância alguma na salvação de sua alma. Vamos então considerar a pergunta feita pelo jovem rico a Jesus. Leia: – “Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna?” (Mt 19.16) Observe como a pergunta deste rapaz é performática. Ele pensa que na porta do céu há uma balança e que nela será posto suas boas e más obras, se a parte boa vencer, ele entra, senão, está fora. Esta é a chamada doutrina da salvação por meio de obras. E, por crer no direito ao céu como fruto de sua performance, Jesus procurou ampliar o leque de obrigações. Leia como o diálogo transcorreu e como Jesus deu o xeque mate em suas pretensões:

Respondeu-lhe Jesus: Por que me perguntas acerca do que é bom? Bom só existe um. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos. E ele lhe perguntou: Quais? Respondeu Jesus: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho; honra a teu pai e a tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Replicou-lhe o jovem: Tudo isso tenho observado; que me falta ainda? Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. (Mt 19.17-21)

Observe que Jesus citou cinco mandamento dos dez recebidos por Moisés. Os quatro primeiros diziam respeito ao relacionamento entre Deus e o homem, Jesus deixou estes de fora. Contudo o Senhor não citou o último mandamento: – Não cobiçarás. Quando o jovem deu por cumpridor de todos os citados, Jesus pediu então a única coisa que restava, visto que a luz do entendimento deste jovem, ele era capaz de cumprir pelo menos cinco mandamentos, se acrescentar suas atividades religiosas, talvez nove, mas ficaria faltando o último. Para este rapaz daria prova de cumprimento vendendo tudo quanto tinha. Nesta hora ele pulou fora. Leia por você mesmo: “Tendo, porém, o jovem ouvido esta palavra, retirou-se triste, por ser dono de muitas propriedades” (Mt 19.22).

Para os que pensam ser capaz de obedecer todos os mandamentos, Paulo colocou o dedo na ferida em sua carta aos Romanos, citando exatamente o último – não cobiçarás. É muito importante ler como Paulo argumenta:

Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum! Mas eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, despertou em mim toda sorte de concupiscência; porque, sem lei, está morto o pecado. Outrora, sem a lei, eu vivia; mas, sobrevindo o preceito, reviveu o pecado, e eu morri. E o mandamento que me fora para vida, verifiquei que este mesmo se me tornou para morte. Porque o pecado, prevalecendo-se do mandamento, pelo mesmo mandamento, me enganou e me matou. (Rm 7.7-11)

Observe como o décimo mandamento é capcioso. Ele nos pega no contrapé. Ele nos engana, nos fazendo pensar que somos melhores do que realmente somos. Uma das maneiras capciosas de se fazer isto é se arvorando do seguinte pensamento: Eu sou de Deus. Deus é santo. Eu sou santo, portanto todas as minhas atitudes estão revestidas desta mesma santidade. Talvez você não tenha feito a relação, mas foi esta a mesma proposta feita pela serpente no jardim do Éden: “vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3.5).

O que a serpente propõe é uma proposta autoperformática. Se você for capaz de realizar-se, se você souber desenvolver seu potencial, amadurecer seu entendimento, aumentar em riqueza, vencer a balança com seus atos de bondades, está apto a ser salvo. Quem pensa assim precisa jogar para baixo do tapete tudo que não confere com este quadro, tudo que não presta em si mesmo. Assim, se desenvolve a autoconfiança em sua capacidade, mas se deprimi por não ser capaz de fazer sua autoaceitação. Você passa a querer ver somente suas perfeições, mas procura ao máximo esconder todos os seus defeitos. Neste caso você se torna incapaz de ter a mesma conclusão de Paulo acerca de si mesmo: “Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim” (Rm 7.21).

Este é o cerne da autoaceitação: – Sou capaz de aceitar em mim tanto o bem que pratico, quanto o mal que escondo obstinadamente de mim mesmos e dos outros? Seria capaz de assumir que de fato o mal reside em mim e que tenho de conviver com esta realidade, buscando a graça de Deus? É neste ponto que entra o amar ao próximo como a si mesmo. Se não formos capazes de nos enxergar como quem de fato somos, aceitando a presença do mal em nosso coração, não teremos condição de aceitar o próximo em seus defeitos.

Creio que agora você deve estar me fazendo a seguinte pergunta: – O que significa aceitar o mal em mim? Seria fazer vista grossa em meus defeitos? Seria permanecer em meus pecados? Seria me conformar com minha baixa autoestima? Por mais surpreendente que seja não é nada disso. Paulo foi enfático neste sentido: “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?” (Rm 6.1,2).

O ponto chave está no final do argumento de Paulo – já morremos para o pecado. Quando aceitamos a Cristo passamos pela obra de justificação e regeneração. Na justificação fomos perdoados de todos os nossos pecados, o Senhor não olha mais para eles e, mais, os cobre com o sangue do Cordeiro. Assim, quando Deus nos vê, quem de fato Ele enxerga é Cristo em nós, esperança da glória. Por outro lado fomos regenerados, nascemos de novo, temos uma nova natureza. E é com esta natureza que adquirimos autoaceitação, porquanto mesmo que ainda venhamos a agir consoante ao que éramos, ainda assim estamos dia a dia sendo transformados pelo poder de Deus para ser a imagem de Cristo. O importante é saber que já somos amados de Deus, não precisamos demonstrar performance mais, o que somos solicitados a fazer é viver em novidade de vida, agindo em conformidade com o que somos em Cristo. E, mesmo se viermos a falhar, o Senhor nos corrige, nos levanta e faz caminhar adiante.

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