Comentários em aos Hebreus

Discernindo o descanso de Deus

Temamos, portanto, que, sendo-nos deixada a promessa de entrar no descanso de Deus, suceda parecer que algum de vós tenha falhado. Porque também a nós foram anunciadas as boas-novas, como se deu com eles; mas a palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram. (Hb 4.1,2)

Caro amigo! Dileta amiga! Nosso tema é o descanso de Deus. Esta expressão já tinha sido mencionada tanto em Hb 3.11 quanto Hb 3.18, em ambas as passagens fazendo menção que a geração do deserto não entraram no descanso, isto é, todos aqueles que foram desobedientes. Para aquela geração o descanso era representado pela terra de Canaã, terra que manava leite e mel. Aqui é preciso destacar um aspecto importante acerca da natureza deste descanso, porque muitas vezes ele é entendido como um estado de vida sem lutas, com vitórias permanentes, saúde perfeita e prosperidade constante. Para compreendermos a verdadeira natureza deste descanso, começemos por uma notável declaração feita por Jesus, o Senhor antes de ser crucificado, depois haveremos de demonstrar que esta passagem não pode ser utilizada indistintamente para com todos os que passam por algum tipo de tribulação. Vamos ler a declaração:

Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo. (Jo 16.33)

Esta declaração de Jesus está associada a outra, dita no cenáculo aos discípulos. Vamos ler esta também:

Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize. (Jo 14.27)

Agora quero que você leia atentamente as duas declarações, observando quem é o personagem para o qual Jesus dirige ambas as palavras. Estes são os seus discípulos, aqueles que permaneceram com Ele até o momento de sua prisão, excluindo Judas, o traidor. Contudo, ao fazer Sua oração sacerdotal, o Senhor ampliou Sua visão não somente a estes discípulos, como também a um público maior. Vamos ler esta declaração também:

Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; (Jo 17.20)

Com isso estamos a afirmar que a declaração feita por Jesus acerca da paz é afeto a todos os crentes, em todos os lugares, que creram em Cristo em conformidade com a palavra do Senhor. Então é preciso que entendamos todo o contexto das instruções do Senhor iniciada desde o capítulo 13 do evangelho de João, indo até o capítulo 17. No capítulo 13 ainda temos a presença de Judas, o traidor. Ele participou, juntamente com os demais, da ceia do Senhor, vindo a se retirar logo em seguida. Devo lembrar a você que a ceia do Senhor é um importante referencial para compreendermos a carta aos Hebreus, isto porque há uma advertência em I Co 11, a partir do verso 27, que se houver uma participação indigna da ceia, haverá consequências maléficas que não leva a perda da salvação, mas a restrição do usufruto em muitos dos benefícios da cruz. São principalmente para estes que não discernem o corpo de Cristo, bem como, em uma amplitude maior, não discernem Cristo dentro de si mesmo enquanto membro do corpo de Cristo, que as advertências da carta aos Hebreus são dirigidas.

No capítulo 14 de João, as palavras agora são dirigidas aos verdadeiros discípulos, aqueles que guardam a palavra do Senhor no coração, isto porque Judas, o traidor já havia se retirado. Jesus se apresenta a estes como sendo o caminho, a verdade e a vida. Nada é dito do caminho nos capítulos 14 a 17 do evangelho de João, isto porque o caminho já estava traçado, era a cruz que se seguiria após sua prisão ainda naquela noite, com sua crucificação no dia seguinte. Agora, o que os discípulos tinham que internalizar com muita consciência era a verdade. E em que constituía a verdade naquele contexto? Ela residia em dois aspectos: o primeiro era que o Espírito Santo haveria de habitar com os discípulos por todos os dias até o fim da jornada deles. O segundo aspecto da verdade, decorrente deste, que traria muita dificuldade dos discípulos compreenderem era esta. Vamos ler na íntegra:

Naquele dia, vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós, em mim, e eu, em vós. (Jo 14.20)

Vamos ler esta mesma verdade na oração sacerdotal de Jesus:

a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. (Jo 17.21)

Eu lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja. (Jo 17.26)

Basicamente a verdade que o Senhor nos faz conhecer é que somos amados por Deus do mesmo modo como Ele ama ao Senhor Jesus e que estamos na mesma unidade com Deus, o Pai que há entre Ele e o Senhor Jesus. E a razão porque temos esta mesma posição diante de Deus é porque compartilhamos do mesmos Espirito Santo que estava no Senhor Jesus em todo Seu ministério terreno e que, uma vez ascendido ao Pai e assentado a destra de Deus, nos enviou para estar para sempre conosco. Isto tudo reforça que andar com Deus é estar consciente de Sua bendita presença em nós e que nós nos relacionamos com Deus no dia a dia à partir desta bendita presença do Espirito do Senhor.

Voltemos agora a questão da tribulação mencionada por Jesus. Todo ser humano, por conta da queda, lida com tribulações. A chamada teologia da prosperidade ensina que os que andam com Deus passam a ter saúde perfeita e prosperidade contínua. Esta não é uma verdade que procede do Novo Testamento, porquanto o próprio Senhor Jesus assevera que todos hão de ter passar por aflições Então como enquadrar o descanso de Deus em relação as aflições? Jesus, antes de declarar que devíamos ter bom ânimo diante das aflições, porque o próprio Senhor vencera o mundo, iniciou sua instrução dizendo que era para termos paz no Senhor. Creio que você se lembra quando o mar ficou revolto, com Jesus dormindo dentro do barco. Os discípulos ficaram aterrorizados, acordando o Senhor, clamando para serem salvos. Ao que Jesus os exortou porque tinham tão pouca fé, vindo em seguida acalmar o mar. Congele o tempo em que o mar estava revolto, Jesus dormia, acordou e repreendeu a pouca fé dos discípulos. Com isso queremos dizer que estar no descanso de Deus não é estar isentos de aflição, mas estarmos confiantes no pleno cuidado do Senhor para conosco e, se for o caso, na Sua pronta intervenção em nossas circunstâncias.

Deixe-me trazer a sua memória o Salmo 23. Na primeira parte do Salmo é dito que o Senhor conduz seu povo por pastos verdejantes e águas de descanso, contudo nós continuamos com a prerrogativa de escolher caminhar pelo vale da sombra da morte. Se escolhermos a jornada da morte, porquanto há caminhos ao homem que parecem direito, mas seu fim é morte, o Senhor há de seguir conosco, levando sua vara e cajado, pronto a nos tirar deste vale se seguirmos Suas instruções. E se obedecermos a Sua voz em meio a este vale, Ele há de preparar um banquete para nós diante de nossos inimigos, vitória esta mencionada por Jesus em Jo 16.33.

Por outro lado, quando Jesus falou das bem aventuranças dada a todos que forem pobres de espírito, isto é, que receberam a Cristo como Senhor e Salvador, ele diz em dado lugar: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5.10). Com isso queremos dizer que estar no lugar de descanso não é estar isentos de aflição, mas é passar por estas mesmas aflições sob a liderança do Espírito de Deus. O contrário, isto é, não estar no descanso de Deus, é passar por aflições buscando as coisas que são de nosso próprio interesse e não do reino de Deus, em outras palavras, nestas condições a pessoa estaria vivendo para si, não para o Senhor. Com isso quero reafirmar que vencem as aflições os que estão em Cristo, sendo esta a primeira mudança de perspectiva em qualquer luta que estejamos enfrentando para podermos receber vitórias da parte de Deus.

Agora podemos voltar a exortação do autor aos hebreus em Hb 4.1,2. Nós, assim como Israel, recebemos a mesma promessa de entrar no descanso de Deus, isto é, de fazer uma troca com o Senhor, deixar morrer nossa vida natural na cruz e viver no poder da ressurreição, isto é, viver desde agora em diante para o Senhor e não para nós mesmos. Nestas condições não somos obrigados a entender tudo que se abate sobre nossa vida, mas temos a absoluta necessidade de confiar sempre no Senhor. Entrar no descanso de Deus, portanto, é confiar absolutamente no Senhor em todas as nossas circunstâncias sabendo que Ele tem cuidado de nós. Esta é a razão de encontrarmos, por exemplo, a seguinte declaração na própria carta aos Hebreus:

Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei. Assim, afirmemos confiantemente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei; que me poderá fazer o homem? (Hb 13.5,6)

O autor aos Hebreus, tendo esta perspectiva da promessa do descanso de Deus, salienta que alguns falham em reconhecer o Senhor nesta perspectiva no seu dia a dia. É preciso ressaltar a temporalidade em que a promessa se aplica, isto é, no dia chamado “hoje” (Hb 3.13), porquanto não estamos falando de um andar esporádicocom Deus, que a pessoa lembra de Deus, a excessão da hora da aflição, quando relaciona a presença de Deus em sua vida com certos eventos específicos, como o culto dominical, a escola bíblica ou outra atividade de cunho espiritual. Antes estamos falando de um andar com Deus que atinge todas as dimensões da vida em todo o tempo da existência. São estes que falham em não exercitarem sua fé neste descanso prometido.

É por esta razão que o autor aos Hebreus termina sua exortação em Hb 4.2 fazendo saber que a geração de Israel que saiu do Egito, por cultivarem a incredulidade na contínua presença de Deus no seu cotidiano, deixou de entrar na terra prometida. Isto aconteceu a eles porque a palavra da promessa em nada acrescentou ao estilo de vida que eles tinham. E o autor termina com a seguinte ressalva: isto se deu com Israel porque ouviram a promessa, mas não creram nela, não exerceram fé. A síntese desta exortação é que temos de ler, estudar e meditar nas escrituras buscando sua internalização em nós, de tal modo que nossa forma de pensar, nossas atitudes, nossas ações, sejam todas elas feitas com base na palavra de Deus. Tal como Pedro, temos continuamente de dizer: – até agora nada conseguimos, mas em Teu nome executamos isso e aquilo.

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