Comentários em aos Hebreus

Discernindo o tipo de incredulidade na carta aos Hebreus

Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração, como foi na provocação. Ora, quais os que, tendo ouvido, se rebelaram? Não foram, de fato, todos os que saíram do Egito por intermédio de Moisés? E contra quem se indignou por quarenta anos? Não foi contra os que pecaram, cujos cadáveres caíram no deserto? E contra quem jurou que não entrariam no seu descanso, senão contra os que foram desobedientes? Vemos, pois, que não puderam entrar por causa da incredulidade. (Hb 3.15-19)

Caro amigo! Dileta amiga! Nosso tema é quanto ao tipo de incredulidade que nos impede de andar com Deus. Fazendo uma rápida retrospectiva, a primeira vez que Israel manifestou sua incredulidade mencionada pelo autor aos Hebreus foi em Massa e Meribá, no capítulo 17, verso 7 de Êxodo, ainda antes de findar o primeiro ano desde a saída do Egito. Este tipo de incredulidade embrionária foi determinante para moldar toda a conduta de Israel no deserto, sendo assim impedidos de entrar em Canaã. Todos eles morreram no deserto, a exceção de Calebe e Josué, os únicos que creram que Deus estava presente com eles, apto a conduzi-los por toda a jornada, dando-lhes vitórias sobre todos os seus inimigos.

Nós precisamos estudar a carta aos Hebreus com lupa para que possamos compreender a natureza das exortações emanadas por este autor. Isto porque muito dos que creem em Cristo podem facilmente estar incorrendo neste tipo de incredulidade sem ter o menor discernimento que isso lhe ocorre. E quero novamente trazer a nossa mente a ceia do Senhor. Mensamente participamos deste evento. Adentramos no culto, aguardamos as devidas instruções e orações dos pastores, então nos levantamos para tomar do pão e beber do vinho, então nos damos por satisfeito por termos rememorando o sacrifício do Senhor até que ele venha. Como cada mês, na ceia do Senhor, os irmãos e irmãs que se fazem presentes são os mesmos que rotineiramente participam da ceia, temos a tendência de considerar que está tudo bem com todos os presentes, inclusive conosco mesmo. Isto porque o critério de avaliação que temos em nosso íntimo é posicional, se participamos da ceia, se fizemos uma rápida introspecção e oração antes de tomarmos da ceia, o que poderia estar errado? É que, afora os que dormem no Senhor, muitos dos que se fazem presente na ceia ou mesmo, estão fora dela, estão fracos e enfermos sem, contudo, discernir que isso decorre do tipo de incredulidade que têm diante de Deus.

Estas considerações são importantes porque o autor aos Hebreus continua citando a provocação ocorrida em Massá e Meribá, no primeiro ano da travessia do deserto. Naquela oportunidade este lugar tomou o nome em função da inquirição que Israel fazia a Moisés: “Está o SENHOR no meio de nós ou não?” (Ex 17.7). No texto sob o título “Não endureçamos nossos corações” fizemos a síntese das circunstâncias históricas que resultaram nesta inquirição, equiparando aqueles eventos com decisão em receber a Cristo como Senhor, com ênfase nos consequentes desta decisão. O que quero destacar é que Deus se fazia presente por meio de incontáveis sinais, como por exemplo, a abertura do mar vermelho e a sinalização das colunas de nuvem e de fogo, dia e noite, guiando o povo por meio do deserto. Mas não eram estes os sinais determinantes da presença de Deus, o que levou Israel a incorrer em erro na forma como discerniam a presença de Deus.

Para entender o que vai ser exposto, devemos nos fazer a seguinte pergunta: – Por quais critérios os crentes de hoje, de modo geral, assinalam a presença de Deus na vida deles? Há um ponto em comum inicial muito importante, todos creem serem templos do Espírito Santo, condição indispensável para ser crente em Jesus Cristo. Em algum tempo passado havia uma discussão entre os pentecostais e os tradicionais. Os pentecostais asseveram que só tinham o Espírito Santo quem era batizado neste mesmo Espírito, hoje até esta questão já se tornou pacífica, ambos os grupos crendo que é dado do Espírito Santo a todo o que crê em Jesus no ato de manifestar esta fé. Neste ponto se manifestam tanto a justificação por meio da fé quanto à regeneração em Cristo Jesus. Isso assegura a todos os cristãos, indistintamente, que estão salvos, aptos a vida eterna. Não é neste ponto que se manifesta o tipo de incredulidade referido pelo autor aos Hebreus, ademais, é bom adiantar, mesmo em se manifestando este tipo de incredulidade, isto não significa perda de salvação, mas de muitos dos benefícios decorrentes desta mesma salvação enquanto vivente neste mundo.

Para explanar este ponto, voltemos a ceia do Senhor. Paulo diz que muitos por participarem indignamente, dentre outras coisas que lhes sucedem, alguns dormem no Senhor. Paulo usa desta mesma expressão em I Ts 4.13, dizendo que os que dormem no Senhor aguardam pelo toque da trombeta para serem ressuscitados, o que demonstra este ponto, o tipo de incredulidade mencionada pelo autor aos Hebreus não leva a perda da salvação, mas de muitos dos benefícios dela decorrentes.

Uma vez asseverado a justificação e continuando com o comparativo entre Israel no deserto e os dias atuais, em que outro ponto muitos confessam a manifestação da presença de Deus em suas vidas? Se levarmos em conta os testemunhos públicos que ouvimos, podemos declarar que a presença de Deus é manifestada na vida de muitos cristãos por meio de curas de enfermidades, sentenças favoráveis em processos jurídicos, sucesso em empreendimentos, recolocação no mercado de trabalho, aquisição de bens, recebimento de recursos financeiros sem relação com o fruto do trabalho, livramento em situações de morte e coisas semelhantes a estas. Se compararmos estes eventos com os que se evidenciavam com Israel na travessia do deserto, haveremos de notar certa similaridade com os sinais da presença de Deus naquele tempo. Isto porque os sinais podiam ser testemunhados não somente pelos diretamente atingidos por eles, como também por todos os que o cercavam. Podemos dizer que estes sinais se submetem a provas empíricas de sua comprovação. Também não é este o tipo de incredulidade mencionado pelo autor aos Hebreus, mesmo porque Israel não tinham como deixar de considerar a presença de d Deus em cada um destes sinais.

Creio que você deve estar me perguntando: – Se não são estes os sinais que expressam à presença de Deus junto a Israel afetos a incredulidade deles, em que condicionante Israel foi incrédulo para com Deus? A incredulidade se manifestava no ponto que nunca veríamos como sendo evidência. Voltemos a Massá e Meribá. Eles não encontraram água em Refidim. Moisés feriu a rocha e dela jorrou água. Agora vamos focar no vértice deste conflito. Leia o argumento de Moisés:

Contendeu, pois, o povo com Moisés e disse: Dá-nos água para beber. Respondeu-lhes Moisés: Por que contendeis comigo? Por que tentais ao SENHOR? (Ex 17.2)

Observe que toda incredulidade resultava em dois aspectos: não crer na palavra de Moises e, por causa disso, tentar ao Senhor, visto que Moisés era o próprio mensageiro de Deus naquele lugar. Este era o âmago da dificuldade de Israel, lidar com Moisés. Em cada conflito que esta mesma questão se manifestava, Deus respondia a Israel com graça, removendo o obstáculo que cegava Israel do seu relacionamento com Deus. Vemos esta prática se repetindo nos dias dos juízes por meio do seguinte padrão: “Porquanto deixaram o SENHOR e serviram a Baal e a Astarote” (Jz 2.13). Por exemplo: Moisés subiu no monte para buscar as tábuas da lei, Israel, com a demora de Moisés, fez para si um bezerro de ouro para adorar a Deus. Na rebelião de Corá, Datã e Abirão, estes questionaram a autoridade de Moisés de se colocar acima deles. Miriã, juntamente com Arão também se levantou contra Moises rebelando-se contra esta mesma autoridade, vindo a ficar leprosa por sete dias. Creio que você deve estar me perguntando: – O que isso tem a ver com a carta aos Hebreus? Lembra que os dois primeiros versos desta carta declara que antes Deus falava por meio dos pais e dos profetas, mas agora fala unicamente pelo Filho? Com isso quero afirmar que este tipo de incredulidade se manifesta hoje na mesma proporção que no Êxodo ela refletiu na atitude de Israel para com Moisés e, por consequente, no agir de Deus por meio de Moisés.

Talvez alguém deve estar dizendo agora: – Entendi, não ouvir os pastores como enviados de Deus resultam na mesma incredulidade manifestada por Israel no deserto. Digo que a resposta é não, a questão não está na capacidade de ouvir ou não a voz do seu pastor na congregação local. Lembre-se que cada um de nós só podemos incorrer em dois erros, afastar-se de Deus e então, cavar para si cisternas rotas que não retém água, conforme dito pelo profeta Jeremias. Antes, o tipo de incredulidade referido pelo autor aos Hebreus diz respeito a nossa capacidade ou incapacidade em ouvir a voz do Senhor em nosso coração. Se ouvirmos ela vai resultar em nossa transformação de tempo em tempo na imagem de Cristo mediante o poder de Deus nos termos de II Co 3.8 e Rm 12.1,2. Se não ouvirmos, a tendência é que o mesmo caráter que tínhamos quando recebemos a Cristo como o Senhor, perdura indefinidamente, sem muitas mudanças. Neste caso a pessoa tem a tendência de dizer a si mesmo que nasceu deste jeito, haverá de morrer com as mesmas nuanças de personalidade.

Se atentarmos a exortação do autor aos Hebreus neste trecho de Hb 3.15-19, veremos que o autor enfatiza que Deus se indignou com um tipo específico de pessoa naqueles dias, os que caíram no deserto, os que não entraram em Canaã. É preciso lembrar que, daquela geração entrou tão somente Calebe e Josué, os únicos que não se deixaram levar pelo mesmo tipo de incredulidade do restante do povo. Com isso quero dizer que a exortação não pode ser aplicada indistintamente à igreja, ainda há muitos que nutrem a esperança de se conformar na imagem de Cristo e buscam isso do Senhor. Estes aprenderam a andar com Deus e conversam com o Senhor amiúde para que possam ter seu homem interior renovado pelo poder de Deus.

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