EBD: 01/2008

EBD: 01/2008 – A teologia do sofrimento

O sofrimento é resultante de uma experiência que traz desconforto de qualquer natureza, ou seja, mal físico, afetivo ou moral. O sofrimento pode causar sentimentos tais como dor, aflição, amargura, desgosto, penar. O sofrimento é um problema universal.

O sofrimento só existe porque foi dado aos anjos e ao homem o livre arbítrio. Foi-lhes concedido o direito de escolher entre a glória de Deus e sua própria vontade. Como Deus é sumamente bom, toda escolha em detrimento de Deus necessariamente segue a vertente oposta, o sofrimento. Para compreender, portanto, a natureza do sofrimento precisamos conhecer o caráter de Deus. Para este fim adotaremos como guia de estudo a obra de Henry Clarence Thiessen – “Palestras em Teologia Sistemática”, publicado pela Imprensa Batista Regular em 1989.

O caráter de Deus

Existem duas concepções básicas acerca de quem é “Deus”. Àquela concebida pelo homem natural e a revelação que procede da palavra de Deus. O homem natural tem em sua perspectiva Deus como uma “mente eterna”, conforme proposto por Platão; “a primeira causa de todo ser” tese de Aristóteles; o filósofo Fichte o concebeu como sendo a ordem moral do universo. Outros limitam Deus tanto no tempo quanto no espaço. Para alguns Deus é alguém que nenhum interesse tem pela história humana; para outros um ser cheio de humores, trovejando quando está irado e brilhando quando está de bom humor.

A Bíblia já apresenta Deus como um ser pessoal em plena atividade, criando os céus e a terra (Gn 1:1). Também afirma que, intuitivamente, toda a humanidade tem consciência de Sua existência (Ec 3:11; Rm 1:20). Por conta desta crença intuitiva está gravado na mente e no coração do homem a lei divina (Rm 2:15), bem como o juízo imposto ao pecado (Rm 1:32). Portanto toda a humanidade proclama, de um modo ou de outro, em seus elementos religiosos, a existência de Deus.

Declarar que Deus existe não implica, necessariamente, em conhecer a Deus (Rm 1:21). Sob esta ótica todo homem natural é ateísta por negar o único e verdadeiro Deus (Sl 10:4) e por não compreender as coisas de Deus (I Co 2:14). No sentido estrito se declara ateísta todo aquele que nega categoricamente a existência de Deus por conta de seu orgulho e arrogância. O que não é ateísta se declara agnóstico, isto é, considera ser impossível obter o verdadeiro conhecimento da divindade (Sl 10:11). O que não é agnóstico é panteísta por crer que a matéria é uma extensão do eterno, portanto tudo é Deus e Deus é tudo (Jr 13:10). O que não é panteísta é politeísta personificando Deus em tudo quanto a imaginação conceber (Rm 1:23). O que não é politeísta é dualista, crendo que há um Deus do bem e outro Deus do mal em luta eterna um com o outro, neste caso Satanás é visto co-eterno com Deus. Desta concepção surgem entre outros os gnósticos, que proclamam uma luta perpetua entre o bem e o mal.

O cristão, por sua vez, conhece Deus conforme o próprio Deus se revelou a Ele por meio da bendita pessoa de Jesus Cristo (Hb 1:1-3). Assim reconhecemos que Deus é Espírito (Jo 4:24), portanto imaterial, incorpóreo e invisível; Deus é vivo (Sl 84:2), sugerindo sentimento, poder, atividade; Deus é pessoa (Ex 3:14), portanto tem auto-consciência, intelecto, sensibilidade e vontade. Deus é eterno (Sl 90:2). Deus é imanente e transcendente (Sl 139:7-12). Estas são as qualidades divinas inerentes à Sua substância.

Quanto aos Seus atributos temos os não-morais e morais. Por seus atributos não-morais Deus é Onipresente, está em todo lugar (At 17:27,28; Hb 4:13). Deus é Onisciente, sabe de todas as coisas (PV 15:3; Jr 23:23-25). Deus é Onipotente, tem todo o poder (Gn 17:1; Jr 32:17). Deus é imutável, não pode mudar (Tg 1:17; Ml 3:6). Por esta características é preciso entender que Deus não pode agir em negação a si mesmo, portanto Deus não pode ver o mal (Ha 1:13); negar a si mesmo (II Tm 2:13) ou praticar o pecado (Tg 1:13).

Quanto aos Seus atributos morais, Deus é santo (Js 2:19), é reto e justo (Sl 89:14), é bom (Mc 10:18), é amor (I Jo 4:8), é misericordioso (Tg 5:11), é benevolente (Sl 145:9), é gracioso (Tt 2:11). Deus é verdadeiro (Jo 17:3).

A criação dos anjos e dos homens e a autonomia da vontade

Por conta de quem Deus é e faz, tudo quanto Deus fez é perfeito (Ec 3:11). O seu caminho é perfeito (II Sm 22:31). Deus é perfeito no conhecimento (Jó 37:16). E para manifestar a Sua glória Deus criou os céus e a terra (Gn 1:1), antes disso só havia Deus em sua essência divina na eternidade passada (Sl 90:2). Tudo quanto Deus criou o fez sem usar material pré-existente (Rm 4:17), isso inclui tanto os anjos quanto os homens, porquanto toda criatura foi criada por Deus (Is 42:5). Portanto o universo não é eterno, teve um começo, foi resultado do ato criativo de Deus. Assim todas as coisas foram criadas por Deus para a Sua própria glória (Sl 8:1; 19:1; Is 40:5).

Por conseqüência todas as coisas criadas por Deus devem render glórias a Deus (I Cr 16:29; Sl 29:1,2; Is 43:7; Jr 13:16; Rm 15:6). E, neste ponto, começamos a entender a origem do sofrimento. Isto porque em sendo o propósito de Deus que toda a criação lhe dê glória, esta disposição de conduta pode ser obtida da parte de Deus por vontade própria da criatura ou por obrigação. Se fosse por obrigação já não seria por amor, visto que toda criatura teria necessariamente sido criada para ser serva de Deus. Neste caso um dos atributos divinos estaria deixando de ser evidenciado, pois Deus é amor.

Aprouve a Deus, visando Sua própria glória, criar anjos e homens dotados de vontade própria. A criação dos anjos está subentendida em Cl 1:16 e Sl 148:2,5. Os homens foram criados conforme observamos em Gn 1:26. Por serem criados, nem os anjos, nem os homens são dotados de imortalidade, atributo inerente a Deus, antes a existência dos homens e dos anjos está subordinada ao propósito divino.

Distintos dos homens, os anjos são seres incorpóreos (Sl 104:4), criados distintamente uns dos outros (Lc 20:34-36), portanto não se constituem em uma raça (Hb 12:22). Seu poder e conhecimento excedem aos dos homens (II Sm 14:20), contudo não são oniscientes nem onipotentes, atributos estes inerentes a Deus. Uma coisa é certa, tanto os anjos quanto os homens foram criados perfeitos.

Se tudo quanto Deus fez foi perfeito e muito bom (Gn 1:31) então como surgiu o mal e o pecado? Não surgiu de nada inerente a criação porquanto tudo foi criado por Deus, portanto santo e perfeito (Tg 1:17). Também não foi o próprio Deus que o criou porquanto Deus não pode ver o mal e a ninguém tenta (Tg 1:13). Quando Deus criou os anjos e os homens, deu-lhes uma vontade autônoma, isto é, deu-lhes a disposição para servir ou rejeitar a soberania divina, portanto, implicitamente deu-lhes a capacidade de pecar ou não pecar.

No caso de Satanás, ele fora criado como o “selo da perfeição” (Ez 28:12), portanto primeiro e protótipo para todos os outros anjos. Contudo sua posição de poder e autoridade sobre os demais anjos (Ez 28:14), o esplendor de sua prosperidade (Ez 28:16), a magnificência de sua beleza e sabedoria (Ez 28:17) e o anseio pelo poder supremo (Is 14:13) levou-o a liderar uma rebelião angelical (Ap 12:4).

O homem também criado perfeito se deixou enganar por Satanás (Gn 3:1) motivando um ato livre de revolta contra Deus. Assim, em sua essência, tanto na atitude do homem quanto na dos anjos caídos, o pecado foi motivado pela vontade suprema de afastar-se de Deus, de rejeitar a soberania divina, de optar pelo exercício de sua própria vontade. Portanto o pecado entronizou o ego por um ato de arbitrariedade maldoso.

Deus assim permitiu porque foi sua intenção criar os anjos e os homens como seres livres, dotados de direito de escolha. A diferença entre um e outro é que aos anjos não foi-lhes dados a oportunidade de arrependimento porquanto foram criados não como raças, visto que cada ser é uma criação única, antes como um exército. Já o homem, criado a imagem e semelhança de Deus (Gn 1:26), aprouve ao Senhor, por Sua bendita graça prover-lhe um Salvador (I Jo 2:2). O certo é que a queda dos anjos e dos homens oportunizou que conhecêssemos a benevolência divina.

Os princípios inerentes à queda do homem

Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e o inseriu em um ambiente perfeito para que este desenvolvesse todo seu potencial (Gn 2:8). Em dois momentos ficaram implícitas a soberania divina, primeiro quando Deus determinou que o homem deveria dominar e subjugar a terra (Gn 1:26,18). Sendo o homem a semelhança de Deus, sabendo que Deus trabalha incessantemente (Jo 5:17), ao determinar o campo de atuação do homem, essencialmente Deus o dotou da capacidade de se colocar a serviço, de servir. Esta é a razão porque quando o Senhor Jesus procurou esvaziar-se de Si mesmo para glorificar a Deus, optou assumir a forma de servo antes que a de homem (Fl 2:7), condição dada ao homem quando este foi colocado no jardim do éden para guardá-lo e lavrá-lo (Gn 2:15).

Num segundo momento, ao determinar-lhe que não comesse do fruto proibido, porquanto se o fizesse haveria de morrer (Gn 2:17), a reivindicação da soberania divina estabeleceu como condição inerente ao reconhecimento deste senhorio a obediência à palavra de Deus. A desobediência a esta ordem seria punida com a morte. A obediência à palavra de Deus foi a elevação moral de uma lei dada a toda criação segundo a qual toda árvore deveria dar fruto segundo sua espécie (Gn 1:12), bem como as aves e os peixes (Gn 1:21) e os animais (Gn 1:24). Assim também o homem haveria de colher frutos segundo suas ações (Gl 6:8), razão porque o salário do pecado é a morte (Rm 6:23). E é no contexto da morte que surge o sofrimento.

pensador

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“Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Rm 6:23)

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