EBD: 01/2008

EBD: 03/2008 – A teologia do sofrimento

O fim de toda hostilidade e a perpetuação da paz tem sido, desde a queda, o ideal perseguido pela humanidade. Desde a declaração que haveria perpétua inimizade entre a mulher e a serpente (Gn 3:15), passando pelo primeiro homicídio perpretado por Caim, a humanidade clama por paz (Gn 4:14). Para o ser humano a vida é idealizada como um estado de alegria e serenidade, livre do medo, da dor, do sofrimento e tristeza, mesmo porque é este o quadro da eternidade apresentado pelas escrituras (Ap 7:16,17; 21:4) e a condição da existência anterior à queda, conforme retratado em Gênesis 1 e 2. No Éden o homem estava em perfeita harmonia com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com a natureza.

A existência normal, contudo, é retratado pela dor, sofrimento, tensão, tristeza, crueldade, egoísmo, terror e terríveis acontecimentos. Isto porque a queda do homem no jardim do Édem trouxe consigo sobre toda a criação a morte, sendo seu efeito imediato o cativeiro da corrupção e a vaidade (Rm 8:20,21). Por esta razão este mundo ficou designado nas escrituras como “presente século mau” (Gl 1:4), tendo por conseqüência o sofrimento instaurado na terra como parte do cotidiano da vida. Neste contexto entendemos a afirmação do Senhor quando disse:

“Tenho-vos dito estas coisas, para que em mim tenhais paz. No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” (Jo 16:33)

Muitos dos que são submetidos à realidade do sofrimento manifestam crise existencial, e buscam explicação que possa amenizar sua dor. Há os que se revoltam contra a divindade por permitir tal estado de coisa, outros crêem haver uma força cega ou alienígena trabalhando contra os interesses da raça humana. A mitologia, por exemplo, designava seus deuses de acordo com as forças da natureza, tal como o deus trovão, deusa da fertilidade, etc. Estes deuses eram vistos tanto como causadores de males, como de benefícios, sendo aplacada a ira deles por meio de sacrifícios das mais diferentes espécies.

O problema do sofrimento

Como o sofrimento traz consigo a dor, seja ela de natureza física ou psicológica, o homem tem uma rejeição natural e instintiva por ele. Todavia o sofrimento é pertinente à experiência humana basicamente decorrente da queda e do pecado, visto Deus ser perfeito em tudo quanto fez e ser a própria expressão do amor.Portanto o sofrimento decorre do homem ter se abdicado da harmonia existencial entre ele e Deus, portanto, como expressou Agostinho, o pecado é a negação do bem. G. C. Bingham expõe que, do ponto de vista bíblico, de objetivo, temos uma criação perfeita, a rebelião e a queda. Assim, inferindo de Gn 3, Rm 1:18-32 e Rm 5:12-21, Bingham levanta os seguintes aspectos:

a) O homem perdeu seu relacionamento com Deus, neste sentido, morreu para Deus e passou a viver para si mesmo;
b) O homem passou a experimentar conflitos entre si mesmo, bem como com seus relacionamentos;
c) Certo tipo de morte física passou a ser parte da experiência humana.
d) O pecado passou a afetar todas as virtudes humanas, tornando-se uma regra da existência, visto o homem ter conhecimento do bem, sem poder, contudo, para fazê-lo;
e) Com a rejeição de Deus, o homem voltou-se para os ídolos, o que trouxe para si, simultaneamente a imoralidade sexual, bem como outras formas de rebelião e maldade.

Assim, continua Bingham, o mau invadiu todas as esferas da personalidade humana, afetando-o em maior ou menor grau, dependendo de inúmeras variáveis.Sua mente se tornou carnal, egocêntrica e contrária aos propósitos divinos (I Co 2:14, Rm 8:7). Deste modo, conclui Bingham, a maior parte do sofrimento pode ser explicada pela perda da serenidade, paz, alegria e propósito de sua vocação. Em relação a sua vocação, o homem perdeu a perspectiva do relacionamento pessoal com Deus e a aplicação das leis divinas, bem como seus princípios morais, sendo este a essência do conflito expresso pelo salmista:

“Por que se amotinam as nações, e os povos tramam em vão? Os reis da terra se levantam, e os príncipes juntos conspiram contra o Senhor e contra o seu ungido, dizendo: Rompamos as suas ataduras, e sacudamos de nós as suas cordas.” (Sl 2:1-3)

Neste sentido se for examinado com atenção a proposta feita pela serpente, ficou demonstrado a situação do ser humano. Quando ela disse que a humanidade poderia ser como Deus, estava dizendo que teria de sair de sua condição de ignorância para alcançar o supremo conhecimento. Do ponto de vista factual é assim que funciona em relação ao indivíduo, nasce sem conhecimento algum, galgando graus e méritos por meio de seus estudos. Portanto naturalmente o ser humano não possui conhecimento de Deus, de si mesmo e de seus semelhantes.

A tendência natural, salienta Bingham, é que o ser humano tem um defeito de origem em sua vontade e uma falha em seu verdadeiro conhecimento. Assim ele já em si mesmo está deslocado, é incoerente, tem seus sistemas funcionais precários e distancia com facilidade de seus propósitos. Continua Bingham argumentando que por estar desprovido da capacidade de relacionar-se senão baseado em si mesmo, nunca está satisfeito, sofre privações emocionais, carrega consigo sentimentos de culpa, medo, solidão e coisas similares (Ec 3:16).

Por conseqüência os atos humanos tendem a conduzi-lo para todo tipo de miserabilidade e coisas do gênero. Suas escolhas egocêntricas trazem consigo os conflitos com Deus, consigo mesmo, com os outros e com o meio ambiente. Tais conflitos, continua Bingham, produzem raiva, medo, ciúme, rivalidade, e resulta em sofrimento para si próprio e outros. Seus melhores relacionamentos, conclui Bingham, “serão impregnado com a sua própria auto-procura, de forma que amor verdadeiro não se pode dizer que existe nele”.

O que precisa ficar demonstrado é que o sofrimento tem início com a queda e o pecado, sendo a morte a execução do anunciado juízo divino (Gn 2:17, Rm 6:23). O sofrimento é fruto e conseqüência da escolha humana em rebelar-se contra Deus. Com isso não se quer dizer que Deus é indiferente ou passivo em relação ao sofrimento, antes sendo Deus de amor e de misericórdia, por certo tinha em mente como lidar com a misericórdia sem abrir mão de Sua justiça (Ap 13:8). Mesmo porque o sofrimento só é compreensível tendo por base as Escrituras:

“O sofrimento ocupa lugar considerável nas Escrituras. Desde Caim até Jó, desde o Gólgota até as visões do Apocalipse, há poucas páginas na Bíblia que não tocam de perto ou de longe esta dura realidade da existência humana” (A. Amsler, em Vocabulário Bíblico, p. 404)

Como o ímpio vê o sofrimento

O homem natural é incapaz de compreender as coisas de Deus porque sua visão foi influenciada pelo deus deste século que o cegou. O diabo cegou o homem ao colocar em duvida o amor de Deus, declarando que o melhor de Deus estava sendo retido. Satanás convenceu o homem que este só seria amado por Deus se o amor fosse nivelado às suas necessidades imediatas, uma extensão do amor por si mesmo.

Por conseqüência o homem entende que Deus age baseado em duas leis: a lei da recompensa – o povo de Deus nunca sofre e a lei da retribuição – as pessoas más sempre sofrem (Jó 4:7-9). Por este raciocínio se alguém sofre é porque pecou (Jo 9:2). Ademais o ímpio pensa que Deus não tem interesse algum em ajudar o homem (não ama o suficiente), nem é poderoso o suficiente para dar livramento ao homem (não tem poder o suficiente) (Sl 10:4). Por outro lado se Deus ama e tem poder, então só pode amar o pecador se o castigar antes, assim a salvação se dá por meio do sofrimento (Sl 10:11). Por fim, se o mal perdura é porque Deus não tem poder para entrar em juízo com o homem (Sl 10:13). Em essência o homem rejeitou o conhecimento de Deus e estabelece por si mesmo sua própria verdade (Sl 4:2, Rm 1:21). Assim ele se tornou incapaz de reconhecer não só o pecado em si mesmo como também todas as conseqüências que o pecado acarreta (Jo 9:41).

Em sua exposição Bingham salienta que o uso perverso do universo, as escolhas e ações egocêntricas e ações têm trazido grande parte do sofrimento que o homem conhece, tais como guerras, genocídios, violações, maus tratos, a auto-agressões.

Todavia, apesar de se reconhecer sua própria responsabilidade no uso inadequado dos recursos naturais e nas conseqüências de suas escolhas egocêntricas, o homem insiste em acusar Deus como culpado e, mesmo, causador do sofrimento. O fato é que Deus age em justiça, nunca em reação ao pecado praticado, mas tudo ao Seu tempo (Ec 3:1). O Senhor pode agir em influência para mover o homem a não agir em maldade (Gn 6:3), contudo em respeito ao seu livre arbítrio poderá permitir que este execute toda sua malignidade (II Ts 2:3).

Quando o mal atingir seu ápice (Ap 18:5), então o Senhor agirá em justo juízo (Ap 19:15). Este dia será o dia de indignação do Senhor (Sf 1:15). Enquanto este dia não chegar o Senhor permitirá que o sol surja sobre os justos e injustos indistintamente, uma expressão clara do amor e da misericórdia do Senhor (Mt 5:45). O Senhor quer que todos cheguem ao arrependimento (II Pd 3:9), posto que Seu bendito Filho veio para dar vida e vida com abundância (Jo 10:10).

pensador

    http://cezarazevedo.com.br/plano-de-salvacao-por-pergunta/

    http://cezarazevedo.com.br/estudo-para-novo-convertido-0110/

    http://cezarazevedo.com.br/estudo-para-batismo-0110/

    http://cezarazevedo.com.br/ministracao-para-libertacao-interior-e-perdao/

“Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Rm 6:23)

Leave a Comment