Comentários em aos Hebreus

Entramos no descanso de Deus por meio da fé

Nós, porém, que cremos, entramos no descanso, conforme Deus tem dito: Assim, jurei na minha ira: Não entrarão no meu descanso. Embora, certamente, as obras estivessem concluídas desde a fundação do mundo. Porque, em certo lugar, assim disse, no tocante ao sétimo dia: E descansou Deus, no sétimo dia, de todas as obras que fizera. (Hb 4.3,4)

Caro amigo! Dileta amiga! Nosso tema é acerca do exercício da fé para entrar no descanso de Deus. Estamos diante de um divisor de águas na carta aos Hebreus. A proposta divina é que entremos no Seu descanso. A pergunta que você pode me fazer é esta: – Como se faz para entrar neste descanso? É preciso de algum sacrifício especial? É preciso de algum tipo de virtude? Faz-se necessário uma segunda graça? Para todas estas perguntas, a exceção da primeira, a resposta é um solene não. Em todo o Novo Testamento, como de resto, em todas as escrituras, só existe um modo de alcançar o propósito divino e isto se faz mediante a fé. O autor aos Hebreus já escrevera:

De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam. (Hb 11.6)

É por ser a fé o único modo de agradar a Deus e alcançar Suas promessas,que precisamos da fé para entramos no descanso de Deus. A questão aqui é entender em que sentido esta fé está sendo exercida e qual é a resultante dela para que, uma vez exercida, possamos saber que estamos desenvolvendo e crescendo neste mesmo descanso. Já havíamos explanado no texto por título “Discernindo o descanso de Deus” que em sua essência o descanso reside na absoluta confiança em Deus a despeito de quaisquer circunstâncias que estamos vivendo. O descanso não está em um resultado que alguém pretenda alcançar, como ser próspero, ter saúde perfeita, obter uma vitória sobre uma causa judicial ou quaisquer outras coisas que implique em obter o resultado à frente, no tempo.

Permita-me colocar outro aspecto. Sabemos que Deus pode conceder a alguém certa visão de seu ministério. Um exemplo é aquela dada ao Pastor David Yonggi Cho, que segundo seu testemunho pessoal, Deus lhe dissera haveria de ser pastor da maior igreja do mundo, como de fato sucedeu. Do ponto inicial, no final da década de 50, início de 60 até o dia de hoje, Pastor David deve ter passado por inúmeras tribulações e sua fé foi o motor de sua visão, não desistindo diante de nenhum obstáculo. Em idade avançada Pastor David escreveu um livro para relatar sua jornada e, em dado momento deu o testemunho de jamais ter dormido cansado. A razão desta afirmação foi a fé desenvolvida no convite de Jesus em Mt 11.28: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Segundo declarou o pastor David, toda noite, quando chegava no seu leito cansado, somente dormia depois de orar e deixar o fardo do dia na cruz, sentindo o alivio do descanso. Neste exemplo temos um testemunho de como exercitar a fé para entrar no descanso de Deus. Só para assinalar, o conceito de descanso na carta aos Hebreus é muito mais amplo que este testemunho, contudo ele serve de parâmetro inicial para considerarmos a necessidade de buscarmos o descanso do Senhor por meio da fé.

Voltando a premissa inicial, exercer fé no descanso de Deus é ter absoluta confiança que Deus é o Senhor de todas as nossas circunstâncias e tem cuidado de nós. Esta confiança neste descanso está contida na promessa da justificação e regeneração que experimentamos conforme declarada pelo profeta Ezequiel. Leiamos a promessa em sua íntegra:

Então, aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis. Habitareis na terra que eu dei a vossos pais; vós sereis o meu povo, e eu serei o vosso Deus. (Ez 36.25-28)

Água aspergida é uma alusão à palavra de Deus. Sua primeira obra em nós é nos justificar em Cristo Jesus, razão porque o profeta declara que fomos purificados tanto das imundícias quando dos ídolos. Em seguida faz menção a regeneração quando menciona um novo coração e um novo espírito, tendo nosso coração transformado de pedra para carne, ou seja, nos fazendo sensíveis à presença de Deus tanto quanto às necessidades de nosso próximo e, mesmo, a nossa. Depois o profeta nos traz a consciência da promessa do derramamento do Espírito Santo, porquanto Ele passa a habitar em nós, que fomos justificados e regenerados, tendo a palavra de Deus sido impregnada em nosso coração de modo que agora toda a Bíblia se apresenta como uma carta amorosa de nosso Pai celestial para nos conduzir nas jornadas deste mundo. Por fim o profeta faz menção de nossa adoção enquanto filhos e filhas de Deus para então declarar que Deus se tornou o nosso Deus. É neste ponto que entra a promessa do descanso do Senhor porquanto se Deus é o nosso Deus, isto significa ser o Senhor de todas as nossas circunstâncias, quaisquer que sejam elas.

Neste aspecto o autor aos Hebreus faz uma leitura positiva de uma exortação divina. Se Israel não entrou no descanso de Deus por causa da ira do Senhor, então a oportunidade para estar neste descanso continua aberta, porquanto estamos debaixo da graça divina. E, neste ponto, o autor faz menção da base por meio da qual podemos compreender a natureza deste descanso. O descanso do Senhor repousa no fato do próprio Deus ter descansado de Suas obras finda a criação dos céus e da terra. É em Deus que temos o exemplo por meio do qual devemos nós mesmos almejar entrar neste bendito descanso. Então nos vêm a pergunta: – em que consiste este descanso?

Para compreendemos a natureza desde descanso e como ele se aplica a nós, precisamos primeiro encurtar a vida, considerar seu fim, para então expandi-la novamente não em nossa perspectiva humana, mas sob a lógica divina. Paulo escreveu aos Efésios que fomos predestinados para filhos adotivos de Deus por meio de Jesus Cristo. Antes de esta promessa nos alcançar estávamos mortos em nossos delitos e pecados. Assim, com base nesta realidade espiritual, já nascemos tendo a morte como fim eminente. Nestas condições não importaria muito que fizéssemos, sem Cristo haveríamos de ser julgados por nossas obras e lançados no lago de fogo e enxofre. Portanto a vida de um ímpio nada acrescenta ao plano divino porquanto suas obras apenas agravam ou não sua condenação. Quem vive nesta condição não tem descanso algum, no íntimo de sua consciência sabe que haverá de prestar conta de seus atos, não havendo nada que possa mudar seu destino final.

Ocorre que fomos alcançados pela palavra de Deus, convencidos pelo Espírito Santo do pecado, da justiça e do juízo, arrependidos, convertidos, justificados e regenerados, nos tornando habitação do Espírito Santo, sendo agora co-herdeiros de Cristo Jesus. A mudança de perspectiva é tão radical que nosso nome não mais se encontra no registro das obras, mas no livro da vida. Não foram nossas obras que nos qualificaram para alcançar esta posição, mas o sacrifício de Cristo na cruz como o Cordeiro de Deus que tira nossos pecados. É com base nesta perspectiva que o autor aos Hebreus percebe nossas obras, ainda que por realizar, porquanto o percurso da vida continua, como já tendo sido concluídas desde a fundação do mundo. Ou seja, não temos nenhuma condição de sabermos o que haveremos de fazer desse dia em diante, mas qualquer coisa que venhamos a fazer, elas já estavam escritas no livro da vida. O salmista traduziu esta realidade nestes termos:

Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda. (Sl 139.16)

Observe que o salmista enfatiza que todos os seus dias já estavam registrados no livro de Deus. E qual é a implicação desta revelação senão que Deus tem absoluto cuidado de nós? Não há nenhuma tribulação, nenhum obstáculo, nenhuma realização, nenhum empreendimento bem sucedido que não esteja sob os cuidados atentos de nosso Deus. Veja o caso de Jó que, por maior que tenha sido seu sofrimento, ainda assim tudo esteve sob os restritos cuidados do Senhor. Jó não sabia desta verdade no início de sua provação e, ao final, confessou que falou sem conhecimento de causa, arrependendo-se por ter considerado Deus como injusto em permitir semelhante sofrimento. O arrependimento de Jó nada mais foi que aceitar por meio de sua fé que Deus governa todo o universo, inclusive sua vida e que, por mais inexplicável que fosse sua provação, ainda assim Jó podia confiar absolutamente em Deus. Jó descansou sua fé e teve sua sorte restaurada em dobro de tudo quanto tinha antes.

Pense nisso, se considerarmos a conversa entre um cristão e um ímpio sobre as decisões governamentais que afetam suas vidas, ambos vão dizer em uníssimo: – nós precisamos ir às ruas para obrigar o governo a mudar suas políticas públicas em nosso favor. Este tipo de comportamento é muito similar a de Israel quando pediu um rei a Deus: “constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações” (I Sm 8.5). Este tipo de pensamento nega a primazia do reino de Deus sobre a governança humana. Contudo entrar no descanso de Deus por meio da fé é ter consciência que a totalidade de nossa realidade foi alterada, pois “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl 1.13).

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