Comentários em aos Hebreus

Entrar no descanso de Deus é o mesmo que andar com Deus

Ora, se Josué lhes houvesse dado descanso, não falaria, posteriormente, a respeito de outro dia. Portanto, resta um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das suas. (Hb 4.8-10)

Caro amigo! Dileta amiga! Nosso tema é o descanso que falta ao povo de Deus. E, para apresentar este assunto o autor aos Hebreus faz uma linha histórica que começa no Êxodo sob a liderança de Moisés, passa pelo extraordinário comando militar de Josué, para concluir com a avaliação profética do rei Davi. No capítulo anterior o autor já demonstrara que toda a geração que saiu do Egito, contudo permaneceu incrédula quanto ao poder de Deus, pereceu no deserto, não alcançando o descanso de Deus, que consistia para eles tomar posse da terra prometida. Então surge uma pergunta: – se a geração desobediente não entrou que dizer da geração que acompanhou Josué e Calebe? Esta geração experimentou o descanso de Deus? A resposta do autor aos Hebreus é um sonoro não. Israel não conseguiu entrar neste descanso por meio de Josué. E com base em que o autor chega a esta conclusão?

Creio que você já percebeu a importância do Salmo 95 para a compreensão do autor aos Hebreus acerca deste grande tema que é o descanso de Deus. Diferente dos demais, não é dito expressamente que este Salmo fora escrito por Davi, mas o autor aos Hebreus atribui a ele esta autoria. Encontramos esta afirmação em Hb 4.7, quando o autor faz menção sobre o endurecimento do coração, atribuindo a Davi a autoria deste salmo. Este Salmo vincula o evento em Massá e Meribá, ocorrido ainda no primeiro ano da travessia do deserto, antes deles terem estado no monte Sinai, com os quarenta anos zanzando no deserto por causa da incredulidade deles.

O raciocínio desenvolvido pelo autor aos Hebreus foi que, se Davi exortava o povo a ouvir a voz de Deus com o coração, evitando endurece-lo, é porque desde o Êxodo, passando por Josué, chegando aos dias de Davi, o povo de Deus ainda não conseguira ter usufruto da promessa feita a Israel. Devemos nos lembrar que Israel ouvira as boas novas acerca deste descanso em Mara, quando o Senhor os exortou a ouvir a voz de Deus para não incorrer em nenhuma das enfermidades do Egito. É baseado neste raciocínio que o autor aos Hebreus faz ênfase ao fato de faltar ao povo de Deus um descanso, observando ser perfeitamente possível, na atual dispensação, um cristão viver inteiramente com base neste descanso. Isto porque o próprio autor, que já havia experimentado esta realidade espiritual, escrevera: “Nós, porém, que cremos, entramos no descanso…” (Hb 4.3).

Nós temos demonstrado que o descanso tem conexão com ouvir a voz de Deus e, por consequência, com o desarraigamento deste mundo, que é um dos consequentes da obra da cruz. Que entra neste descanso quem verdadeiramente se coloca como ovelha do pasto do Senhor este está inteiramente seguro em Suas mãos, assumindo que o Deus é o Senhor absoluto de suas circunstâncias, confiando absolutamente nos cuidados de Deus. E, neste ponto, é importante enfatizar a conexão que existe entre Josué, o descanso de Deus e o consequente desarraigamento deste mundo. Isto porque se o autor aos Hebreus tinha convicção dele próprio estar descansado no Senhor, o mesmo fez Josué, contudo este grande líder de Israel deixou claro que o povo que o seguia precisava fazer sua própria escolha pessoal. Com isso tomamos consciência que o descanso prometido por Deus só é dado para quem o busca proativamente, nunca será obra de acaso na vida de quem quer que seja.

Josué colocou Israel na prensa quando o convocou ao final de sua vida para fazer rememorar toda caminhada até aquele momento, dando a Israel perspectiva de futuro. Foi em Siquém o local em que Josué reuniu toda a liderança de Israel diante da presença do Senhor (Js 24.1). Então Josué fez Israel lembrar que Deus chamara Abraão em meio a um povo idólatra para trazê-lo a Canaã. Observe que nesta exposição de Josué encontramos a importância de ouvir e obedecer a voz do Senhor para que as promessas de Deus possam se cumprir na íntegra.

Depois Josué lembrou Israel que a descendência de Abraão desceu ao Egito e foi tirado de lá por mão de Moisés, fazendo rápida menção ao Êxodo, para concluir que Deus fora fiel, trazendo o povo para a terra de Canaã, tal como fizera com Abraão no início de sua jornada. Mais uma vez Josué evidencia a importância de ouvir a voz de Deus para o cumprimento de Suas benditas promessas, pois ao fazer o paralelo entre a chamada de Abraão com a de Israel, Josué estava demonstrando que Deus age com todos de um mesmo jeito, por meio de Sua bendita palavra. Para um tempo em que o cristianismo tem se tornado predominantemente um emaranhado de misticismo, sacrifícios, ritualismos e coisas do gênero, é muito importante reafirmar que o único meio do Senhor falar com Seu povo continua sendo pela palavra de Deus, observando ser esta a ênfase do início desta carta, isto é, Deus agora nos fala por meio do Seu bendito Filho, o Verbo encarnado de Deus que morreu na cruz, ressuscitou, ascendeu aos céus e agora está assentado a destra de Deus. Então, depois de Josué relembrar toda a história, encerrou sua prédica desafiando o povo a fazer sua própria escolha pessoal:

Agora, pois, temei ao SENHOR e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no Egito e servi ao SENHOR. Porém, se vos parece mal servir ao SENHOR, escolhei, hoje, a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais que estavam dalém do Eufrates ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao SENHOR. (Js 24.14,15)

Josué coloca o dedo na ferida, expondo qual é o âmago da vida com Deus neste mundo. Enquanto estamos no mundo precisamos fazer uma clara escolha diante de Deus, se vamos nos deixar seduzir pelas benesses dessa vida ou haveremos de servir ao Senhor com integridade e fidelidade. Se realmente assumirmos a escolha de fazer a vontade de Deus haveremos, primeiro, de colocar todos os ídolos de lado, para então experimentar qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus para conosco. É por falta desta clara opção como estilo de vida que muitos não alcançam o descanso de Deus, sequer tomando conhecimento de sua existência. Estes são os que, por sua incredulidade no poder presente de Deus, acabam ou dormindo, ou ficando fraco ou enfermo, conforme atesta Paulo após fazer menção da ceia do Senhor em I Co 11.27-32.

Naquela oportunidade, em Siquém, o povo refletiu muito sobre toda a trajetória deles, reconheceu a poderosa mão do Senhor em todos os eventos, considerou a proposta de Josué e suas implicações, para então tomar a sábia decisão de entrar no descanso de Deus com a seguinte declaração de fé: “… Ao SENHOR, nosso Deus, serviremos e obedeceremos à sua voz” (Js 24.24). Josué tomou esta declaração de fé como suficiente, fazendo com o povo de Israel uma aliança, exigindo que o povo permanecesse em sua sinceridade, não vindo a mentir a Deus (Js 24.27). Então veio o tempo dos juízes, quando Israel foi abrindo concessão e mais concessão, não expulsando de todo o povo inimigo, antes absorvendo seus costumes. Foi quando o Anjo do Senhor se apresentou diante deles, chamando-os a fazer uma introspecção de consciência, dizendo-lhes:

Vós, porém, não fareis aliança com os moradores desta terra; antes, derribareis os seus altares; contudo, não obedecestes à minha voz. Que é isso que fizestes? (Jz 2.2)

Esta tem sido a sina do povo de Deus, trocando as benesses deste mundo pela exclusiva obediência a voz de Deus, deixando de ser pastoreada pelo Senhor para se deixar tratar pelos mercenários que não têm nenhum apreço pela alma dos que buscam ao Senhor. Paulo, por exemplo, sabendo que não mais voltaria para a região de Éfeso, reuniu-se com toda a liderança para conclamar com extrema severidade:

Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um. (At 20.29-31)

Observe que a igreja corre o mesmo risco que Israel corria de voltar-se para o mundo, deixando de ouvir a voz de Deus. O próprio autor aos Hebreus já havia expressado esta preocupação exortando que jamais devia haver entre nós um perverso coração de incredulidade que possa nos afastar do Deus vivo (Hb 3.12 adaptado). Com esta sequência de argumentos fica ainda mais reforçado que o grande propósito da carta aos Hebreus é de nos conclamar a andar com Deus em todo o tempo, seguindo a liderança do Espírito Santo, porquanto este é o único modo de não satisfazermos “à concupiscência da carne” (Gl 5.16).

Ao final deste bloco de versos, o autor aos Hebreus faz novamente o comparativo entre o descanso que devemos almejar com aquele exercido por Deus ao final de Sua obra. Deus fez os céus e a terra em seis dias, vindo a descansar no sétimo, sendo este o exemplo que deve nortear cada um de nós. Creio que você deve estar se fazendo a seguinte pergunta: – qual é a obra que devemos fazer que é tão completa que após feita, podemos entrar no descanso de Deus do mesmo modo que o próprio Deus o fez? Para responder a esta indagação, trago as palavras do próprio Senhor Jesus quando o povo lhe fez a mesma pergunta:

Respondeu-lhes Jesus: A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado. (Jo 6.29)

O povo retrucou dizendo que Jesus não tinha autoridade como Moisés teve para falar desta obra, porquanto Moisés dera ao povo no deserto o maná do céu dia após dia, ao que o Senhor contra argumentou dizendo:

… Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede. (Jo 6.35)

Crer em Jesus é estar no descanso de Deus, fazemos isso por meio da fé tão somente. O que o autor aos Hebreus faz é nos conclamar a viver esta promessa como realidade espiritual em nosso cotidiano, no tempo chamado “hoje”.

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