Reflexões

Estamos ouvindo Deus falar conosco?

Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o fundamento como prudente construtor; e outro edifica sobre ele. Porém cada um veja como edifica. (I Co 3.10)

Certa feita o profeta teve uma visão. O que ele viu deixou estupefato, porquanto a cena era estarrecedora: um vale cheio de ossos sequíssimos (Ez 37.1,2). O detalhe que não eram ossos de uma única pessoa, senão de uma nação inteira, porquanto mais à frente Deus lhe revela dizendo: “estes ossos são toda a casa de Israel” (Ez 37.11). E não estamos falando de uma devastação após guerra, ou de um cemitério qualquer, são gente como a gente, andando na rua, fazendo seus negócios, ocupando-se de suas tarefas, gastando o tempo no lazer. Gente que se sente tão pressionado com as demandas do dia a dia que suas almas não mais sonham com um amanhã esperançoso. Mas que tipo de gente seria esta?

Deixe-me pintar este quadro diante de seus olhos. Este levanta cedo, quase sempre no mesmo horário. Mal consegue tomar seu café da manhã e já tem de ir correndo para o trabalho, pois sabe que chegará em cima da hora. Bate seu cartão de ponto, senta na sua estação de trabalho, checa sua lista de atividades e as executas, mal esperando que aquela semana termine para poder descansar. A semana seguinte não será diferente e assim correm os anos. O seu empregador está em melhor condição, porquanto em que pese o estresse de liderar seus colaboradores, sente-se recompensado com seus ganhos, troca de carro todo ano, investiu um bom dinheiro para começar a construção de sua casa, ainda que tenha financiado grande parte de seu valor Seus fins de semana são emocionantes, seja pela prática de esportes radicais, viagens de veraneios, participação em congressos de negócios. Este, em que pese o fato de estar socialmente em melhores condições que seus funcionários, ainda assim pesa sobre ele o desassossego por conta da corrupção vigente no país, alta carga tributária, grande volume de burocracia e desmando dos governos. Tanto um, quanto o outro, em algum nível sofrem do mesmo mal, perderam a esperança de um futuro melhor, tal como o Senhor declarou ao profeta acerca do diagnóstico dado por aqueles que estavam com seus ossos sequíssimos: “Eis que dizem: Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; estamos de todo exterminados” (Ez 37.11). De tanto a realidade se impor, sejam os empregadores quanto seus colaboradores, mais se assemelham em escravos melhorados se comparados aos tempos serviçais

Como reverter este quadro? Aquele que se sabe enfermo busca os melhores médicos, anseiam por tratamentos eficazes, estão dispostos a experimentar os remédios mais amargos, desde que isso lhe traga cura. Por outro lado quem é incapaz de perceber sua real situação, se tornam imersos nas suas rotinas, fadados a serem daqui a dez anos um pouco mais do que são hoje, se conformaram. Quem assim encontra há um alento, porquanto o Senhor instruíra o profeta dizendo:

“Profetiza a estes ossos e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do SENHOR” (Ez 37.4).

Com isso queremos dizer que, não importa muito a condição que nos encontramos, a verdadeira questão que se nos impõe é: – estamos ouvindo Deus falar conosco? E não digo aqui ouvindo no sentido de colocar sobre esta palavra toda atenção, antes simplesmente ouvindo. Digamos que você esteja caminhando sobre uma calçada, passos apressados, olhando seu relógio preocupado, sabe que o expediente bancário é curto e a fila grande. Vai perder seu dia só por ter de pedir explicação a sua gente acerca de um lançamento indevido na conta bancária. Enquanto caminha tenso, focado em suas preocupações, alguém na esquina está com um livro aberto, a Bíblia, fazendo sua voz ecoar dizendo:

– Assim diz o Senhor!

Você levanta os olhos como não acreditando ter de passar por esta importunação. O interesse pelas coisas espirituais se resume ao culto no domingo. Mas aquela voz não pede licença, entra em seus tímpanos como quem lhe ofende e, antes mesmo que você tenha tempo de murmurar, ouve algo que toca seu coração:

Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o fundamento como prudente construtor… (I Co 3.10).

O termo “construção” lhe faz lembrar seu desejo de possuir sua casa própria. Ao trazer a mente a palavra “casa”, se lembra dos conflitos intermináveis que anda tendo com sua esposa. A figura de sua mulher na mente evoca a rebeldia dos filhos, fazendo-lhe pensar que a mãe deles perdera o controle da educação deles. Então você para diante do pregador, sabe estar atrasado, mas percebe naquele instante que sua vida é mais do que as ocupações seculares. Sente o vazio de sua alma e, por um instante, gostaria de ter um lugar solitário para deixar correr suas lágrimas. Então se lembra da palavra do Senhor, que diz:

Pelo que diz: Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará. (Ef 5.14)

O dormente está sendo comparado ao morto, traduzindo, o dormente é o cristão nascido de novo, cujo estilo de vida é muito próximo daquele que não tem a Cristo, portanto equiparado aos ossos sequíssimos. Estes, ainda que possam ter uma vida social vibrante, o tempo ocupado por atividades motivadoras, ainda assim, aos olhos de Deus estão como mortos, são dormentes, permanecem cegos às realidades espirituais. Para estes Paulo explica, depois adverte. Primeiro lhes diz que suas vidas são como uma construção em curso. O fundamento fora lançado, que é Jesus Cristo (I Co 3.11). A pergunta que devemos nos fazer a luz do que Paulo escrevera é: que tipo de edificação haveremos de levantar sobre este fundamento?

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