Reflexões

Garantia divina dada as bençãos prometidas

para que, mediante duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, forte alento tenhamos nós que já corremos para o refúgio, a fim de lançar mão da esperança proposta; (Hb 6.18)

Quando se lê a Bíblia o leitor se depara com diferentes personagens. Isto acontece também na leitura de qualquer romance, faz parte do enredo encontrar, no ato da leitura, gente exercendo papeis que dão sustentação à trama da estória. O personagem tem a função de desencadear uma série de ações, que interagindo com outros no mesmo contexto, formam o sentido da estória que tanto cativa os leitores. De certa forma o enredo com seus personagens pe encontrado também na Bíblia, com uma notável diferença. 

Na Bíblia, diferente dos romances não se está lendo estórias, mas histórias, não enredo fantasiosos, mas acontecimentos e fatos reais, acontecidos no passado e transmitidos para os leitores dos dias atuais com a mais absoluta fidedignidade. Mas o que mais impressiona dos personagens bíblicos não está no fato de serem estereótipos humanos bem próximos do dia a dia de qualquer pessoa. Por exemplo, Jacó se submeteu ao árduo trabalho imposto por seu futuro sogro para ter direito a casar-se com Raquel; os filhos de Jacó embriagaram todos os homens de uma cidade para os matar logo em seguida traiçoeiramente; Sansão se deixou seduzir pelo encanto de uma mulher antes de perder sua poderosa força com o corte de seus cabelos; Jeremias foi lançado no calabouço por ter dirigido palavras de exortação ao rei. Assim, é possível encontrar na Bíblia personagem do tipo que se pode dizer: – é gente como a gente. Tanto é verdade que Tiago escreveu acerca de Elias, um notável profeta do Antigo Testamento: “Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos…” (Tg 5.17).

De novo, o que mais impressiona na leitura da Bíblia não é encontrar personagens humanos tão próximos do dia a dia de qualquer mortal, mas o fato de constar entre os personagens o próprio Deus se auto revelando à humanidade. Dizer simplesmente que Deus é um dos personagens apenas dá uma pálida ideia da importância deste personagem no enredo bíblico. É preciso antes se perguntar quem Deus é. Nos dias atuais é comum ouvir alguém expressar sua fé com expressões do tipo: “creio em Deus”, “Deus me ajude”, “Meu Deus”, “Deus é bom!” e assim por diante. Esta expressão se encontra nos lábios de frequentadores das mais diferentes religiões, inclusive com distinções próprias advindas das culturas de sua época.

No bojo da fé do budismo, por exemplo, não há um único Deus, nem deuses que sejam eternos, mas seres celestiais que habitam no mundo de grande felicidade. Já no hinduísmo Deus é uma espécie de energia, um ser com incomparáveis poderes. Por outro lado, tanto para o judaísmo como o cristianismo há um só Deus. Todavia, mesmo assim é preciso substantivar este Deus, dar-lhe atributos que lhe sejam próprios e únicos. Assim, o Deus dos judeus e cristãos é o Criador dos céus e da terra, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. O cristianismo, por sua vez, lhe acrescenta mais uma identificação peculiar: Deus é o Deus e Pai do Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, que, em se fazendo carne, habitou entre os homens na plenitude do Espírito de Deus. Portanto o Deus dos cristãos é o Deus trino: Deus, o Pai; Jesus, o Senhor e o Espirito Santo, cada uma destas pessoas exercendo papel distinto no processo redentor da humanidade.

Feito estas considerações, é possível analisar uma porção do texto bíblico encontrado no capítulo 6 da Epístola aos Hebreus. Após uma série de exortações dirigida aos seus leitores, no verso 9 o autor sintetizou sua intenção quanto a tudo que tinha escrito. Seus leitores precisavam alcançar coisas melhores advindas da redenção que há em Cristo Jesus, para, logo em seguida, trazer a mente deles a promessa feita por Deus a Abraão. E aqui se faz presente o personagem por excelência, da Bíblia. Não só Deus é mencionado, como ainda o autor faz menção do juramento feito por Deus a Abraão. É notável esta instrução dada aos leitores do primeiro século da era cristã, pois o evento mencionado em que Deus fez promessa a Abraão ocorreu por volta de 1850 anos antes de Cristo, portanto já se passaram 3868 anos de história desde então.

Que coisas melhores são estas pertencentes à salvação? Na acepção de muitos cristãos as coisas melhores se traduzem por boa vida, tudo que diz respeito ao atendimento das necessidades próprias dos seres humanos, retratado na pirâmide de Maslow como sendo em ordem crescente: necessidades fisiológicas, de segurança, sociais, de estima e auto realização. Contudo se observarmos todas estas necessidades, elas têm algo em comum, dizem respeito a interação com o ambiente externo e expresso nele. Exemplificando, viver bem é ter alimentação saudável, moradia e provimento financeiro adequado, relacionamentos duradouros, estar bem consigo mesmo e ser bem sucedido em tudo que faz. Assim, estar bem com a vida representa o supremo bem.

Paulo, o apóstolo, reconhecendo esta pretensão exortou que os cristãos orem pelas autoridades, bem como por todos os homens para que vivam de modo tranquilo e em paz, com toda piedade e respeito. (I Tm 2.2). Se bem que tais coisas são necessárias e importantes, as coisas melhores da salvação mencionadas pelo autor aos Hebreus são muito mais profundas e valorosas que estas. Jesus, dirigindo aos seus discípulos, explicando o motivo de sua vinda, declarou a eles: – “… eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10.10).

O que o Senhor está a dizer é que a qualidade de vida que deve ser almejada por todo o cristão tem um valor atemporal e presente. É uma vida que perdura por toda a eternidade e, no cotidiano, abundante no fruto do Espirito que se expressa em nove facetas: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5.22,23). É uma qualidade de vida que faz de quem a possui um ser bem aventurado, feliz por natureza, pleno em satisfação, não importa em que empreenda neste mundo, obviamente, desde que este empreendimento seja agradável aos olhos de Deus.

É tendo estas preciosidades em vista que o autor aos Hebreus fez lembrar aos seus leitores acerca das promessas feitas por Deus a Abraão, considerado o pai da fé, seja do judaísmo, quanto do cristianismo. Abraão recebeu da parte de Deus promessas a serem alcançadas desde que deixasse sua terra e sua parentela, confiando absolutamente em Deus para prosseguir por uma jornada ao desconhecido.

Hoje se sabe que a terra era Canaã, mas quando Abraão iniciou sua viagem, teve de prosseguir até chegar o momento que Deus lhe mostrou claramente qual seria sua terra. Do mesmo modo, ainda que se tenha diferentes atividades, profissões, trabalhos, empreendimentos ou qualquer forma que seja para ganhar a vida honestamente, a jornada final de cada cristão é desconhecida. Paulo, fazendo menção do que se pode esperar, escreveu: “não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas.” (II Co 4.18). Assim, seja o que for que alguém faça, a extensão do resultado que está alcançando só será conhecido quando se adentrar na eternidade, estando na presença de Deus para todo o sempre com corpo glorificado, devidamente qualificado para experimentar tais bênçãos.

Quanto a estas bênçãos, o autor aos Hebreus, para demonstrar a total e absoluta certeza que elas estão sendo concedidas desde agora para sempre, fez menção ao juramento feito por Deus invocando dois fundamentos imutáveis centrados em sua própria pessoa, qual sejam: a Sua própria imutabilidade, bem como a absoluta imutabilidade de seus propósitos eternos. Com isso o autor aos Hebreus está a declarar que Deus só tem uma intenção em mente para com os seus filhos amados: proporcionar-lhes um reino inabalável (Hb 12.28). Para se ter um vislumbre do que seja isso, o apostolo João assim o descreveu:

Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. (Ap 21.3)

E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram. (Ap 21.4)

Foi com a certeza de que esta finalidade será alcançada que o autor aos Hebreus usou dos termos explicativos “para que”, com o propósito de denotar a grandiosidade da promessa de Deus feita a Abraão e estendida a todos os filhos de Deus por todas as eras.

2 Comentários
  • Edgard J.C.Menezes
    abril 21, 2018Responder

    Obrigado pelo texto. Identifiquei conteúdo que poderiam compor dois ou três bons textos. Logo no início, como exemplo, quando escreve sobre a semelhança dos personagens bíblicos com as pessoas comuns seria um conteúdo a ser aprofundado.

    • Cezar Andrade Marques de Azevedo
      abril 21, 2018Responder

      Edgar

      Muito bom receber seu comentário. Gostei da sugestão, vamos ver o que se pode fazer.

      Abraço.

      Cezar Azevedo

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