Reflexões

Gente como a gente: Esaú e Jacó

Isaque orou ao SENHOR por sua mulher, porque ela era estéril; e o SENHOR lhe ouviu as orações, e Rebeca, sua mulher, concebeu. Os filhos lutavam no ventre dela; então, disse: Se é assim, por que vivo eu? E consultou ao SENHOR. Respondeu-lhe o SENHOR: Duas nações há no teu ventre, dois povos, nascidos de ti, se dividirão: um povo será mais forte que o outro, e o mais velho servirá ao mais moço. Cumpridos os dias para que desse à luz, eis que se achavam gêmeos no seu ventre. Saiu o primeiro, ruivo, todo revestido de pêlo; por isso, lhe chamaram Esaú. Depois, nasceu o irmão; segurava com a mão o calcanhar de Esaú; por isso, lhe chamaram Jacó. Era Isaque de sessenta anos, quando Rebeca lhos deu à luz. (Gn 25.21-26)

O que mais impressiona dos personagens bíblicos está no fato de serem estereótipos humanos bem próximos do dia a dia de qualquer pessoa. Um bom modo de explicar esta afirmação é de nos socorrermos a teoria dos conjuntos na matemática.

Segundo consta na Wikipédia: “teoria dos conjuntos é o ramo da matemática que estuda conjuntos, que são coleções de elementos”. O que esta teoria faz é agrupar objetos de dois ou mais conjunto de dados que possuam uma mesma propriedade. Para dar um exemplo simples considere dois conjuntos de dados, o primeiro formado pela letra A, B e C e o segundo pela letra C, D e E. Neste caso o elemento com propriedade comum é a letra “C”, constante nos dois conjuntos. As demais letras diferem uma das outras se comparado um conjunto com o outro. Neste caso a letra “C” está contida tanto no primeiro quanto no segundo conjunto.

Tendo esta teoria em mente, é possível aplica-la ao texto bíblico citado acima. Para isto há de se levantar outro conjunto de dados não presentes no texto, qual seja: uma família humana qualquer, em quaisquer tempo da história. O que se pretende, neste caso, é encontrar os elementos contidos entre a família do texto bíblico com uma família qualquer que sejam comuns, independente da condição desta outra família.

Primeiro é preciso organizar os dados que se encontram nesta história bíblica. Nela se tem o pai, Isaque; a mãe, Rebeca; os filhos gêmeos Jacó e Esaú. Sabe-se que o número de filhos variam de família para família, raros são os que nascem gêmeos. Todavia, qualquer família da terra que tenha filho, possuem também estes elementos comuns: pai, mãe e filho(a).

No caso específico de Rebeca, consta que ela era estéril. Neste caso há necessidade de abrir um terceiro conjunto de dados, formados por mulheres que passam por dificuldades na gestação, inclusive as que têm abortos naturais. Este é um drama que, em muitos casos, exige que a mulher se socorra da medicina para poder gerar filhos. Muitas mulheres que vierem a er esta história terão dificuldade de compreender o drama de Rebeca por não passarem pelo mesmo problema, pois geram filhos naturalmente.

No terceiro agrupamento de dados há de se levar em conta famílias constituídas por mais de um filho(a), mas, de forma mais ampla, a natureza dos conflitos familiares. Primeiro se percebe o drama vivido por Isaque e Rebeca em relação a esterilidade de Rebeca, neste caso com Isaque assumindo a liderança em busca da solução. Por outro lado se percebe Rebeca lidando com relacionamentos conflituosos, que foi o caso que se deu ainda no ventre, com Esaú e Jacó disputando espaço. Há inclusive um ditado popular que retrata esta peculiaridade: briga entre irmãos só muda de endereço, isto porque todas as famílias convivem com conflitos familiares.

Por fim se tem um último conjunto de dados, que são pertinente aquelas famílias que buscam solução do alto, que se dá por meio de um relacionamento íntimo com Deus. Isto pode distinguir daquelas famílias que se socorrem tão somente dos recursos naturais que estão ao seu alcance, exemplificando, seja por meio da medicina, para resolver problemas de esterilidade, ou psicólogos, para tratar de conflitos em relacionamentos.

O primeiro conjunto de dados declara o núcleo familiar. Quando se diz que os personagens bíblicos são gente como a gente, isto implica aceitar que não há diferença qualitativa entre seus anseios, planos e conflitos com qualquer família na terra. A família foi constituída com um único e essencial propósito: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.” (Gn 1.28).

O segundo conjunto de dados declara as consequências da queda do homem no seio da família. Assim como a terra se tornou maldita, produzindo espinhos e abrolhos em detrimento a produção agrícola, também a mulher passou a conviver com dois legados: sofrimento na gravidez e dominação masculina. Está escrito: “Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gn 3.16).

O terceiro conjunto de dados declara os conflitos familiares decorrente da queda. Já com o primeiro casal, Adão e Eva, eles tiveram que conviver com o dissabor de ter um homicida em casa, com Caim matando Abel por inveja ao culto que Abel prestava a Deus.

Por fim, o quarto conjunto de dados marca a distinção entre os personagens bíblico e grande parte da humanidade. Enquanto o homem em geral busca socorro em seu semelhante, seja em que dimensão for, doente – o médico, endividado – o banco, segurança – o governo e assim por diante, os personagens bíblicos buscam socorro do alto, a intervenção de Deus nos negócios humanos. Se em todos os demais conjuntos de dados uns podem diferir do outro em função das histórias circunstanciais de suas vidas, ainda que na essência todos lidem com o problema básico – a morte, só os que se voltam para o alto encontram redenção, portanto a vida eterna.

É por isso que Isaque, diante da esterilidade de sua esposa, orou a Deus por 20 anos, sendo ouvidas suas orações, no plural, demonstrando que não foram poucas as vezes que ele se apresentou diante de Deus com sua causa. Rebeca, por sua vez, quando percebeu o conflito entre seus filhos ainda no ventre, buscou conhecer o eterno plano de Deus para com eles, ao que o Senhor lhes disse que havia em seu ventre duas nações uma haveria de servir a outra. Com isso a perspectiva e os valores que Rebeca procurou transmitir aos seus filhos transcendiam o tempo de vida deles mesmos, colocando-o em uma perspectiva, por que não dizer, eterna. Há de se lembrar de que em se transformando nações estavam cumprindo o propósito inicial da família, qual seja, multiplicar-se e povoar a terra.

O grande desafio que a Bíblia impõe a cada cristão e, por decorrência, a toda humanidade, é este: fazer com que os olhos deixem de fitar tão somente os problemas imediatos e se elevem para o propósito maior que Deus tem para a Sua criação. De certo modo este é o significado do batismo nas águas. Jesus, o Filho de Deus, Verbo que se fez carne, a glória de Deus que habitou entre nós, perfeito, sem pecado, cuja magnitude de Sua glória se evidenciou na transfiguração diante de seus discípulos, no monte, este Jesus se propôs a ser batizado nas águas por João Batista.

E qual era o apelo de João aos que vinham ser batizados? “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.” (Mt 3.2). E quando Jesus pediu para ser batizado, o que disse João a ele? “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” (Mt 3.14). E por que Jesus então se batizou, se não tinha pecado? Porque ele tinha primeiro que se identificar com os pecados dos homens, tornando-se o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29) para que, por meio desta identificação os crentes pudessem se identificar com ele para receber a glória de Deus, com ela a vida eterna, portanto a promessa da ressurreição. Assim, quando se reconhece que os personagens bíblicos são gente como a gente, o que de fato esta pessoa está fazendo é encontrar em que ponto se identifica com este personagem e, a partir deste ponto, se deixar transformar pelo poder de Deus na imagem de Cristo.

2 Comentários
  • Edgard J.C.Menezes
    abril 22, 2018Responder

    Muito interessante a aplicação da teoria dos conjuntos. Será que a Bíblia foi escrita para pessoas comuns ou para os separados por Deus para a Sua Obra?

    • Cezar Andrade Marques de Azevedo
      abril 26, 2018Responder

      A Bíblia foi escrita para todos os níveis de profundidade que se possa imaginar. Seu conteúdo é de saber inesgotável. A Bíblia pode ser comparada aos gomos de árvores que denotam idade, quanto mais a pessoa cresce no conhecimento do Senhor, maiores ficam as amplitudes destes gomos. Por outro lado toda a profunidade se condensa na simplificidade e toda simplicidade contém toda profundidade.

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