Reflexões

Importa que venha o escândalo. Que escândalo?

“Disse Jesus a seus discípulos:

É impossível que não venham tropeços, mas ai daquele por quem vierem! Melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho e fosse lançado ao mar, do que fazer tropeçar um destes pequeninos.

Tende cuidado de vós mesmos; se teu irmão pecar, repreende-o; e se ele se arrepender, perdoa-lhe. Mesmo se pecar contra ti sete vezes no dia, e sete vezes vier ter contigo, dizendo: Arrependo-me; tu lhe perdoarás. Disseram então os apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé. Respondeu o Senhor: Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: Desarraiga-te, e planta-te no mar; e ela vos obedeceria.” (Lc 17:1-6)

Alguém disse:

“Todo ponto de vista é um ponto de cegueira”.

O ponto de vista tem a propriedade de cegar porque quando uma pessoa defende seu ponto de vista pode estar fechando as portas para qualquer outra percepção que não a sua, sendo assim com certas palavras na Bíblia. Estas palavras têm o poder de cegar, sua simples presença é suficiente para alguém dizer-se entendido, catedrático no texto, muito entendido em determinado assunto, portanto apto a explicar o texto pela simples presença daquela palavra. Neste caso não importa mais o que está escrito no texto como um todo, este individuo entende que aquela palavra, por si só, explica o texto. Conta a seguinte piada, que exemplifica o poder de uma palavra isolada:

Um maluco ligou pro corpo de bombeiros, dizendo que estava pegando fogo no hospício.

Em menos de dez minutos, umas dez viaturas chegaram no local.

Os bombeiros saltaram do carro e o comandante perguntou para um louco:

— Amigo, onde é o fogo?

— Pô, vocês vieram tão depressa que nem deu tempo de eu acender.

Qualquer que ligue ao corpo de bombeiro para comunicar que está pegando fogo, esta frase produz um entendimento explícito que se há fogo, há um incêndio; se há um incêndio, a brigada do corpo de bombeiro precisa deslocar-se para o local imediatamente. Esta ação gerada pela invocação da palavra demonstra a força criadora que ela possui para produzir ação, para induzir movimento.

Por adotar este conceito, reforçado com a ideia que o poder de Deus está em sua “palavra”, pensa-se que Deus permitiu que este mesmo poder de uma “palavra” fosse inerente a sua pronúncia. Qualquer que diga: há poder em suas palavras, este imediatamente procura se reportar a Gn 1:3, quando Deus disse: “haja luz” e o texto bíblico observa a implicação desta ordem ao comentar: “e houve luz”.

A ideia é: se Deus pode produzir este poder na pronunciação de uma palavra, podemos fazer o mesmo. Assim damos a palavra à propriedade de gerar vida, a capacidade de mudar circunstâncias. Assim quando a palavra “fogo” é pronunciada numa brigada de corpo de bombeiros e induz este regimento a se deslocar imediatamente, deduzimos que realmente a palavra tem um grande poder inerente a ela própria.

Para entender o poder que esta palavra possui precisamos compreender o pano de fundo em que ela está inserida. A piada contada só teve sentido porque o maluco ligou para o corpo de bombeiro, lugar onde a palavra “fogo” tem significado de incêndio e, portanto, deslocamento da brigada. Se ele ligasse para outro lugar, o diálogo seria completamente diferente:

Um maluco ligou pro hospital, dizendo que estava pegando fogo no hospício.

A enfermeira respondeu:

— Tenha certeza que ele vai se alastrar até a sala dos médicos.

Esta piada demonstra que a palavra pronunciada tem o poder de interagir com um dado grupo social de modo bem distinto que em outro, portanto o que dá o poder a palavra não é ela em si mesmo, mas o seu conceito ideológico inerente ao grupo social onde ela é pronunciada. Num estudo acerca destas marcas ideológicas inseridas no enunciado, a professora Patrícia Ribeiro Corado (UERJ) observou (1):

“Ao longo da história da humanidade, cada sistema de dominação cria discursos que o sustentem e até justifiquem. É interessante observar que o poder encontra, na palavra, mecanismos para se manter sem o uso da força, uma vez que o poder não é necessariamente um espaço que se ocupa, mas principalmente uma relação que se cria. Dessa maneira, a palavra amplia a relação de poder na medida em que funciona como instrumento para a obtenção de apoio, adesão, submissão.

Na sociedade contemporânea, com a divulgação do discurso democrático, o poder da palavra torna-se cada vez maior e mais absoluto. Nas relações sociais, tem o domínio aquele que melhor articula a palavra a fim de garantir esse domínio, e isso ocorre em quaisquer tipos de relações, desde as conjugais e familiares até as políticas em âmbito mundial. Quando o discurso do dominador perde força, a relação de dominação se fragiliza.

Percebe-se então que a palavra se torna mais poderosa na mesma medida em que a sociedade se democratiza em todas as suas relações. Um pequeno exemplo disso está nas relações entre pais e filhos ou professores e alunos. A existência de hierarquia nessas relações ainda guarda suas evidências, entretanto, dia a dia, a força cede espaço ao diálogo nesse jogo de poder.

Se considero que pela palavra o poder se constrói, estabelece e fortifica e que o discurso democrático torna esse poder-palavra cada vez maior, obrigo-me a certas reflexões acerca das estruturas de poder às quais estamos, portanto, submetidos.”

A moderna mentalidade cristã tem defendido a tese que a palavra tem o poder inerente em si mesmo, portanto certos termos não podem ser pronunciados sob risco produzir o resultado que esta palavra invoca. Assim, alguns pastores têm dito que uma mãe não pode chamar seu filho de “vagabundo” porque se o fizer, está profetizando que ele será um indivíduo errante, vadio. O que estes pastores não percebem é que não é a palavra “vagabundo” que tem o poder de tornar o filho vadio, mas a relação que existe entre o filho e sua mãe. Uma mãe amorosa, que trata seu filho na admoestação do Senhor, seguramente não corre nenhum risco de ver seu filho se tornar um “vagabundo” só porque ela, irada, perdeu seu controle emocional e lhe disse: “vai trabalhar vagabundo”. Agora, uma mãe que não trabalha, cujo esposo também não é modelo de profissional, brigando com o filho e dizendo: “vai trabalhar vagabundo”, provavelmente já tem consigo uma criança propensa a ser errante por causa do exemplo de seus pais, não porque a palavra “vagabundo” tenha algum poder em si mesmo.

Um termo que tem trazido esta marca de carregar um poder sobre si, poder este que não existe é a palavra “escândalo” ou “tropeço”. O Senhor Jesus disse:

“… É impossível que não venham tropeços (escândalos), mas ai daquele por quem vierem!” (Lc 17:1b)

A palavra “escândalo” se traduz por “Aquilo que é causa, ou resulta de erro ou pecado”; “Aquilo que perturba a sensibilidade pelo desprezo às convenções ou a moral vigente”; “Indignação provocada por um mau exemplo, ou ação vergonhosa, leviana, indecente”; “Grave acontecimento que abala a opinião pública”: “Fato imoral, revoltante” (Aurélio).

Qualquer que faça a leitura deste texto tende a tirar conclusões antes mesmo de terminar a leitura. Como o significado da palavra “escândalo” no dicionário tem como elemento comum a indignação causada por um ato imoral, a tendência das pessoas é lerem as palavras de Jesus do seguinte modo:

“… É impossível que não venham os maus exemplos, os erros, os pecados, as ações vergonhosas, a indecência, a leviandade, mas ai daquele por quem vierem!” (Lc 17:1b)

E com base neste tipo de leitura o comportamento resultante é o único esperado. A igreja espera alguém cometer um pecado, ficando na espreita, dia e noite. Até um radar é instalado no seio da congregação, movido com base na fofoca, no mexerico, na intriga, na bisbilhotice. Este radar é tão eficiente que não demora muito, alguém é descoberto no pecado. Quanto maior for a evidência, quanto mais elementos de prova se levanta, melhor. Alguém, do alto de sua santidade, depois de configurar o fato, de catalogar o evento, de caracterizar a indecência, chega toda cheia de si no meio da congregação e diz:

“Gente, a palavra de Deus se cumpriu. Eu encontrei um homem que pecou. E que escândalo!!!. Temos que tomar imediata providencia, pois este indivíduo não pode continuar em nosso meio.”

Qualquer que ouve esta mensagem imediatamente se lembra das palavras de Jesus e diz:

“É verdade, este irmão está cheio de razão, temos um escândalo em nosso meio e precisamos agir imediatamente. Vamos excluir este indivíduo de forma exemplar para mostrar a todos que não compactuamos com esta indecência, com esta leviandade.”

Um terceiro, no calor da indignidade, preocupado com a opinião pública, vai mais longe ainda e diz:

“Este pecador está perdido. Ele não sabe o que é cair nas mãos do Deus vivo. Ele agora vai aprender o que é o peso da mão do Senhor. Se um dia se levantar, vai precisar de tantas ataduras que nem haverá lugar que não estará esfolado.”

É interessante observar que estas falas estão todas de acordo com o significado da palavra “escândalo” dada pelo dicionário. Alias, tem muita gente fazendo do dicionário um manual de teologia sistemática, pois crêem firmemente que a palavra tem poder em si mesmo. Agora a pergunta é: foi este o escândalo que Jesus fez referencia? Para Jesus alguém cair em pecado, cometer um ato imoral é um escândalo?

Não há nenhuma evidência nos Evangelhos que Jesus se escandalizava com o pecado. Em sucessivas passagens vemos Jesus tratando mansamente o pecador, como o caso daquela mulher adúltera que todos queriam apedrejar. Numa passagem lemos:

“Ora, estando ele em Jerusalém pela festa da páscoa, muitos, vendo os sinais que fazia, creram no seu nome. Mas o próprio Jesus não confiava a eles, porque os conhecia a todos, e não necessitava de que alguém lhe desse testemunho do homem, pois bem sabia o que havia no homem.” (Jo 2:23-25)

Se Jesus não se escandalizava com o pecado, que tipo de escândalo o Senhor declarou que, uma vez cometido “Melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho e fosse lançado ao mar, do que fazer tropeçar um destes pequeninos”? (Lc 17:2)

É prosseguindo a leitura do texto, procurando entender o contexto e associando este contexto ao caráter do Senhor Jesus que se pode entender o tipo de erro, de pecado, de ato imoral, que realmente escandaliza o Senhor. Na sequência do texto o Senhor disse:

“Tende cuidado de vós mesmos; se teu irmão pecar, repreende-o; e se ele se arrepender, perdoa-lhe. Mesmo se pecar contra ti sete vezes no dia, e sete vezes vier ter contigo, dizendo:

Arrependo-me; tu lhe perdoarás.” (Lc 17:3,4)

O Senhor diz que importa vir o escândalo, que é necessário que ele venha, agora este escândalo é devidamente configurado pelo Senhor, é retratado pelo Senhor e este escândalo não é de modo algum aquele que o dicionário configura como sendo seu significado, como sendo o que traduz as palavras do Senhor. Jesus declarou que um irmão, em pecando deve ser repreendido e perdoado. Se ele manifestar seu arrependimento, deve ser perdoado. Se lê repetir seu pecado sete vezes no dia e arrepender-se sete vezes no dia, deverá ser perdoado sete vezes. Neste caso a configuração do escândalo não é em razão do pecado, mas o escândalo surgirá sempre que a igreja recusar-se a perdoar quem pecou. Este é o escândalo: a recusa deliberada de liberar o perdão.

Quando os apóstolos perceberam que escândalo para o Senhor não é o pecado cometido, mas a recusa da igreja em liberar o perdão, eles ficaram tão aflitos, tão perturbados, tão desnorteados, tão desorientados que disseram:

"… Aumenta-nos a fé." (Lc 17:5b)

Que contradição. Sempre que a palavra “escândalo” é mencionada, o senso comum procura entender esta palavra como sendo “Indignação provocada por um mau exemplo, ou ação vergonhosa” (Aurélio), mas o que realmente causa “escândalo” aos olhos do Senhor não é o ato pecaminoso em si, mas a atitude obstinada da igreja em recusar o perdão ao pecador arrependido. Esta obstinação traz a tona um outro conceito da palavra “escândalo” também escrita no dicionário: “Grave acontecimento que abala a opinião pública”. O que de fato abala a opinião pública, quando alguém é excluído da igreja porque cometeu um ato pecaminoso, tendo demonstrado arrependimento, não é o pecado cometido, mas a incapacidade da igreja estender seu perdão ao pecador.

Vamos considerar um “escândalo” e como o Senhor Jesus tratou deste “escândalo”.

“Então, prendendo-o, o levaram e o introduziram na casa do sumo sacerdote; e Pedro seguia-o de longe. E tendo eles acendido fogo no meio do pátio e havendo-se sentado à roda, sentou-se Pedro entre eles. Uma criada, vendo-o sentado ao lume, fixou os olhos nele e disse:

Esse também estava com eles.

Mas Pedro o negou, dizendo:

Mulher, não o conheço.

Daí a pouco, outro o viu, e disse:

Tu também és um deles.

Mas Pedro disse:

Homem, não sou.

E, tendo passado quase uma hora, outro afirmava, dizendo:

Certamente este também estava com ele, pois é galileu.

Mas Pedro respondeu:

Homem, não sei o que dizes.

E imediatamente estando ele ainda a falar, cantou o galo. Virando-se o Senhor, olhou para Pedro; e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como lhe havia dito: Hoje, antes que o galo cante, três vezes me negarás. E, havendo saído, chorou amargamente.” (Lc 22:54-62)

A negação de Pedro é um “escândalo”, ele se acovardou diante dos opositores do Senhor. Quando o Senhor o encontrou, consciente que Pedro o negara, foi ao encontro de Pedro para repreendê-lo. Esta repreensão do Senhor foi conduzida de modo bem diferente do que hoje fazemos. O Senhor Jesus não pediu para ele contar a história, para ele explicar sua fraqueza, para ele declarar sua covardia. Veja como o Senhor conduziu a repreensão:

“Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro:

Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?

Respondeu-lhe:

Sim, Senhor; tu sabes que te amo.

Disse-lhe:

Apascenta os meus cordeirinhos.

Tornou a perguntar-lhe:

Simão, filho de João, amas-me?

Respondeu-lhe:

Sim, Senhor; tu sabes que te amo.

Disse-lhe:

Pastoreia as minhas ovelhas.

Perguntou-lhe terceira vez:

Simão, filho de João, amas-me?

Entristeceu-se Pedro por lhe ter perguntado pela terceira vez:

Amas-me?

E respondeu-lhe:

Senhor, tu sabes todas as coisas; tu sabes que te amo.

Disse-lhe Jesus:

Apascenta as minhas ovelhas. Em verdade, em verdade te digo que, quando eras mais moço, te cingias a ti mesmo, e andavas por onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queres.

Ora, isto ele disse, significando com que morte havia Pedro de glorificar a Deus. E, havendo dito isto, ordenou-lhe:

Segue-me.” (Jo 21:15-19)

A diferença de tratamento da repreensão do Senhor e como a moderna mentalidade cristã tem conduzido os atos de disciplina é gritantemente distinta. Enquanto o Senhor considera a relação que o pecador tem com Ele, a igreja considera a relação que o pecador tem com o pecado. Enquanto o Senhor considera como o pecador conduzirá Sua vida como fruto do arrependimento, a igreja se preocupa se o pecador não voltará a pecar novamente. Como a igreja não quer correr nenhum risco, não coloca sua confiança em Deus, mas quer ser arbitro do coração do pecador, ela prefere antes jogá-lo na sarjeta que estender o perdão. Os discípulo, sentindo que teriam problema no exercício da disciplina, rogaram ao Senhor que lhe aumentasse a fé, a fé no poder transformador do poder de Deus, a fé no poder que Deus tem de mudar o querer e o agir do pecador arrependido. A este pedido o Senhor respondeu:

“Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira:

Desarraiga-te, e planta-te no mar; e ela vos obedeceria.” (Lc 17:6)

O significado da palavra "escândalo" é a igreja quem vai definir, não o dicionário. Cabe a ela, a luz da palavra de Deus, considerar a decisão que vai adotar. Contudo a igreja deve estar atenta para que ela própria não seja razão de "escândalo" por ser mais dura que o Senhor o é, não liberando perdão para o pecador arrependido.

(1) http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno13-15.html

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