Comentários em aos Hebreus

Jesus Cristo é poderoso para nos socorrer

Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo. Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados. (Hb 2.17,18)

Caro amigo! Dileta amiga! Nosso tema é o sacerdócio de Cristo. Se iniciarmos a leitura da carta aos Hebreus desde o primeiro verso até aqui, este é o primeiro momento que o autor apresenta Jesus como ocupando o papel de sumo sacerdote. Precisamos de uma rápida contextualização para compreendermos a importância de Jesus Cristo ocupar esta posição.

A primeira vez que ouvimos falar de um sumo sacerdote foi com o encontro de Melquisedeque com Abraão. Ele nos é apresentado como sendo “Melquisedeque, rei de Salém… sacerdote do Deus Altíssimo” (Gn 14.18). Na própria carta aos Hebreus temos a definição do papel exercido pelo sumo sacerdote. Leiamos:

Porque todo sumo sacerdote, sendo tomado dentre os homens, é constituído nas coisas concernentes a Deus, a favor dos homens, para oferecer tanto dons como sacrifícios pelos pecados, (Hb 5.1)

O sumo sacerdote é um homem escolhido por Deus para exercer o ministério das coisas celestiais diante de Deus a favor dos homens. Sabemos, por exemplo, que no Egito, nos dias de José, haviam sacerdotes que obtiveram privilégios da parte de José durante o período da seca, contudo estes não são os mesmos da linhagem bíblica. Isto nos faz entender que desde a queda a humanidade sentiu a necessidade de religar o seu relacionamento perdido com Deus. Instintivamente, tendo consciência da santidade divina, os homens sentiram-se impotentes para buscar a Deus por si mesmo, razão de constituírem para si sacerdotes, entendendo que estes teriam esta prerrogativa.

É importante entender esta distinção porque, segundo as escrituras, só existem duas linhagens sacerdotais constituídas por Deus, o sacerdócio da linhagem de Melquisedeque, ocupados tão somente por dois homens, o próprio Melquisedeque e, depois, Jesus Cristo, que se tornou reconhecido como sendo sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque. A outra linhagem, de cunho temporário, ligado a antiga aliança, é o sacerdócio Araônico, cujo primeiro representante foi Arão, irmão de Moisés, o grande líder do povo de Israel.

No Novo Testamento, a partir da constituição da igreja, cada crente em Jesus Cristo, nascido de novo, justificado e regenerado, é visto como sacerdote diante de Deus. O corpo de Cristo ocupa esta posição porque está plenamente identificado com Jesus Cristo. Tudo o que o Senhor alcançou a partir da cruz se tornou usufruto comum com cada membro do corpo de Cristo, pois todos possuem o mesmo Espirito Santo. Para compreendermos porque o cristão passou a ocupar tão importante posição, precisamos compreender o que distinguia o sumo sacerdote de todos os sacerdotes de seu tempo.

Desde Moisés aprouve a Deus estabelecer para si um tabernáculo segundo modelo desenhado exclusivamente para esta finalidade, representando as coisas celestiais. Quando o Senhor propôs a Moisés a edificação deste tabernáculo, disse a ele: “E me farão um santuário, para que eu possa habitar no meio deles” (Ex 25.8). Portanto a intenção do Senhor era habitar no meio do Seu povo, como ocorre com a igreja, porquanto o Espírito Santo habita em cada cristão que recebeu a Cristo como Senhor e Salvador.

Quanto ao espaço específico do tabernáculo em que o Senhor se mostrava presente, havia um lugar chamado Santo dos santos. Este lugar era uma tenda dentro de uma tenda, cuja porta era feita por um espesso véu. Por detrás do véu havia a arca da aliança, sobre ela dois querubins, dentro dela as tábuas da lei. Esta arca era a representação da santidade divina e os anjos simbolizavam a necessidade de contínua adoração para estar na presença de Deus. Neste lugar somente o sumo sacerdote podia entrar, e ainda assim, uma vez por ano. Estando dentro do Santo dos Santos, o sumo sacerdote permanecia em completo breu, oferecendo a Deus incenso. Em exercendo esta função sacerdotal, o sumo sacerdote alcançava o favor de Deus para com o povo de Israel por um ano.

Em Jesus morrendo na cruz, o véu que separava o lugar santo dos Santo dos santos foi rasgado de cima para baixo, isto no templo de Jerusalém, lugar que fora construído sob ordenanças divinas em substituição ao tabernáculo de Moisés. Com o rasgar do véu se deu a entender espiritualmente que não havia mais a necessidade de um sumo sacerdote adentrar naquele lugar anualmente, porquanto o próprio Senhor Jesus se tornou, com Seu sacrifício na cruz, o Sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque. E, por consequência, todo membro da igreja de Cristo foi constituído desde então como sacerdote de Deus, com livre acesso ao trono de Deus para nele depositar suas orações e prestar seu culto de adoração a Deus.

Ocorre que o sumo sacerdote, bem como toda a tribo sacerdotal, que no caso do Antigo Testamento era a tribo de Levi, eram gente escolhida dentre o povo segundo os critérios divinos. Ninguém, no Antigo Testamento, podia tomar esta honra para si, a escolha era uma exclusividade divina. Este sumo sacerdote, por ser escolhido dentre os homens, era também homem de carne e sangue, portanto sujeito a morte, como todos homens o são. Jesus Cristo, o Verbo de Deus que se esvaziou para estar entre nós em forma humana, contudo sem pecado, pode não só se tornar Sumo sacerdote, por cumprir todos os requisitos divinos para exercer esta função, como também se tornou um Sumo sacerdote misericordioso para com os homens e fiel para com Deus em todas as coisas referentes a Deus.

Uma das funções sacerdotais era o de oferecer a Deus um cordeiro em sacrifício pelos seus próprios pecados, bem como pelos pecados daqueles que se encontravam em autoridade e pelos pecados do povo. O sumo sacerdote, quando fazia este sacrifício anual, podendo com isso adentrar no Santo dos santos, obtinha para o povo o beneplácito divino por um ano. Jesus cumpriu este requisito quando Ele próprio se apresentou diante de Deus como sendo o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Portanto ao ser crucificado Jesus estava em si mesmo se fazendo pecado por todos os homens para que todo aquele que cresse neste sacrifício fosse salvo, justificado e regenerado.

O autor aos Hebreus salienta que Jesus Cristo, em sua crucificação, estava fazendo propiciação pelos pecados do povo. Propiciar é apaziguar a ira de Deus, removendo-a completamente de diante do pecador. Entendamos, o salário do pecado é a morte, todos nós estávamos destinados a morrer, vindo depois o juízo e a morte eterna. Contudo dentro dos decretos divinos havia a prerrogativa de alguém inocente morrer pelo pecador em morte substitutiva. Como o caráter divino exige a execução da pena, somente se houvesse esta morte substitutiva o pecador haveria de escapar do juízo divino. Ocorre que nenhum homem, mesmo Adão, porquanto caíra em pecado, estava em condições de apresentar este sacrifício a Deus. Dai a razão de Jesus Cristo, na condição de Verbo de Deus, ter de esvaziar de Sua divindade, se fazer homem, habitar entre nós, exercer seu ministério terreno, ser preso, julgado, condenado, sofrer todo o cálice da ira de Deus contra Ele próprio, para então morrer na cruz e, ao terceiro dia, ser ressurreto, cumprindo assim o papel de Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. É por isso que Paulo escreveu:

pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, (sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; (tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus. (Rm 3.23-26)

Nós éramos pecadores, estávamos impossibilitados de nos apresentar diante de Deus. Jesus, com Sua morte na cruz, alcançou para nós eterna redenção, porquanto Seu sangue foi derramado na cruz. Com isso Jesus afastou de nós a ira de Deus, tornando a Deus propício a nós. Seu sacrifício substitutivo nos justificou diante de Deus. Assim, a morte de Cristo nada mais é que nós mesmos morrendo junto com Ele, portanto, toda ira que nos seria destinada recaiu sobre Ele, assim, não há mais nada da parte de Deus a reclamar de nós. Deixamos deste modo a condição de pecadores para nos tornar justos aos olhos de Deus porque Deus atribuiu a nós, com a ressurreição de Cristo, os mesmos benefícios pertencentes ao próprio Senhor Jesus Cristo.

O fato de Jesus Cristo ter sido feito homem, ter percorrido toda a senda do sofrimento até culminar na morte na cruz, de ter sido tentado em todo este percurso, de todas as maneiras possíveis, o fez apto a  compreender nossas próprias fraquezas. É por esta razão que o autor aos Hebreus salienta que Jesus Cisto sofreu, por meio do que foi tentado, vindo a tornar-se apto a socorrer todos os que são tentados, em todas as épocas da história. É notável este fato, porquanto não somente temos Deus que é Deus, portanto auto existente, completamente distinto de Suas criaturas, como sendo o nosso Deus; como ainda temos o Deus Criador, que deu propósito para cada uma de suas criaturas, principalmente para o homem, a coroa de Sua criação; como temos também Deus, Juiz dos vivos e dos mortos, que não tem o culpado por inocente, contudo, quanto a nós, pela graça de Deus, nos vê como inteiramente justificados em Cristo Jesus; como ainda temos o Deus misericordioso na pessoa do bendito Senhor Jesus Cristo, que conhece a nossa estrutura por ter trilhado a mesma senda do sofrimento e vale de sombra de mote pelo qual passamos, apto a nos compreender, saber de nossas fraquezas e tentações e, ainda assim, nos proteger, reconhecendo-nos como sendo Seus irmãos, filhos do mesmo Pai celestial que Ele próprio o é e sempre foi.

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