Comentários em aos Hebreus

Jesus, de servo à posição gloriosa no trono

Pois não foi a anjos que sujeitou o mundo que há de vir, sobre o qual estamos falando; antes, alguém, em certo lugar, deu pleno testemunho, dizendo: Que é o homem, que dele te lembres? Ou o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, por um pouco, menor que os anjos, de glória e de honra o coroaste [e o constituíste sobre as obras das tuas mãos]. (Hb 2.5-7)

Caro amigo! Dileta amiga! Nosso tema hoje é o homem, a glória da criação divina. Penso que com esta abordagem você vai entender porque Satanás teve uma sobrevida, podendo ficar tentando os seres humanos. Deus precisava criar o homem para lidar com Satanás de forma cabal. A primeira coisa que quero chamar sua atenção no texto do autor aos Hebreus acima diz respeito ao mundo que há de vir. Vamos ler como isso é descrito pelo apóstolo João:

Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. (Ap 21.1)

Eu convido a você sair no relento, olhar para o horizonte até onde sua vista alcançar, depois olhar para os céus. Considere a solidez do terreno que o cerca. Sabemos que muitos lugares são sacudidos por terremotos e maremotos, mas não é o caso de onde você esta. Tente agora calcular o tempo que a formação rochosa onde está levou para completar seu ciclo. Por certo o número poderá chegar a milhares, senão milhões de anos. Agora procure se lembrar do que a palavra de Deus diz a respeito do futuro deste mundo que você contempla. É-nos dito que haverá novo céu e nova terra. Agora tente imaginar como será este novo mundo que está por vir. É-nos praticamente inconcebível entender como isso pode ser.

Quero convidar você a fazer outro exercício. Não sei sua profissão, digamos que não seja médico. Agora, imagine você sendo chamado para atender seu filho, que precisa de uma intervenção cirúrgica no cérebro e tudo depende de sua habilidade. Por certo você diria ser impossível tal operação, pois você não conhece nada acerca de como operar um cérebro, teria de chamar um neurocirurgião e nele você confiaria. Então eu pergunto: – porque não confiar que Deus fará o que precisa ser feito para nos dar um novo céu e uma nova terra? Ter fé é crer no poder daquele que diz ser capaz de fazer o que promete fazer.

O novo céu e nova terra não foram prometidos aos anjos, declarou o autor aos Hebreus, mas ao homem. Ele fez esta declaração porque, se considerarmos os anjos que permaneceram na sua inocência, não se deixando seduzir por Satanás, mas foram confirmados em sua fidelidade por obra e graça de Deus, eles bem que poderiam ser os destinatários finais deste mundo que há por vir. Contudo o novo céu e a nova terra foram prometidos ao homem, à coroa da criação de Deus. E o autor aos Hebreus evoca o salmo oito com duas perguntas retóricas: “Que é o homem, que dele te lembres? Ou o filho do homem, que o visites?” (Hb 2.6) para ressaltar porque o homem recebeu a promessa deste destino glorioso. Sabemos que o homem foi criado por Deus, vindo depois a cair por dar ouvido à serpente no jardim do Éden. Ao ser criado foi feito conforme a imagem e semelhança de Deus, mas ao cair perdeu a glória de Deus.

A primeira pergunta nos leva a meditar no homem enquanto em seu estado perfeito. Se voltarmos nossos olhos para o jardim do Éden e o contrastar com o universo que o cerca, perceberemos quão insignificante era o homem criado. Ali estava um minúsculo ser cultivando um pequeno jardim em um planeta gigantesco, diante de um universo imensuravelmente maior. Não faz sentido algum destinar o mundo por vir a um ser tão miseravelmente ínfimo. E que dizer da segunda pergunta retórica? Ela questiona o homem depois de sua queda por fazer referência aos filhos de Adão. Sob este ângulo à promessa de um novo mundo para uma raça caída, morta em delitos e pecados, não faz sentido algum. Nesta perspectiva podemos dizer que Deus fez um investimento de altíssimo risco, porquanto intencionado em dar o mundo por vir ao homem, este se deixa seduzir pela serpente no jardim do Éden e se torna escravo do pecado. Isto nos obriga a entendermos a importância de termos Adão como nosso representante legal naquele jardim, porquanto sua posição de honra permitiu a Deus constituir entre nós outro representante legal para resgatar o que fora perdido com a queda. Leiamos:

Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo. (Rm 5.17)

Se Adão, criado perfeito em um ambiente perfeito falhou, Jesus Cristo homem, criado perfeito em um mundo caído venceu, cumprindo Sua missão até o fim em morte de cruz, vindo a ressuscitar e estar assentado a destra do Pai no trono da majestade. Ambos foram criados perfeitos, mas só um sem pecado sofreu a morte de cruz para ser ressuscitado. Então este homem, Jesus Cristo, em Sua glorificação, saiu da condição do menor, aquele que se fez servo, para se tornar o maior, isto é, o Rei dos Reis, o Senhor dos Senhores, o Leão da tribo de Judá, o Cordeiro de Deus. A este Jesus Cristo todo poder lhe foi entregue razão porque Seu reino jamais terá fim. Este Jesus Cristo homem está em condição de executar perfeitamente a ordem divina de a tudo sujeitar. Isto nos leva a buscar maior compreensão do esvaziamento que o Verbo, o Filho de Deus passou para que pudesse se tornar em o Filho do Homem.

pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, (Fl 2.6,7)

Leia atentamente o texto acima. Saiba que na palavra de Deus a ordem das palavras no texto não é fruto do acaso, antes esta ordem tem vital importância para compreendermos este mesmo texto. Geralmente quem lê esta passagem pode ter a seguinte leitura: Jesus esvaziou-se de Sua divindade para se fazer homem. Mas não é isso que diz o texto, antes que Jesus esvaziou-se de Sua divindade para se fazer servo. Vamos fazer um pequeno exercício para entendermos porque devemos destacar a missão antes da essência, ser servo, antes de ser homem. Se a intenção do esvaziamento da divindade era tornar Jesus um servo, então Ele teria diante de si todos os seres do universo para escolher um ser que tivesse a missão de servir. Por exemplo, Jesus poderia ser tornar em um burro ou jegue, animais de cargas. Estes animais poderiam, por sua força de trabalho, ser um exemplo típico de servo.  O fato é que, dentre todos os seres criados, o único que cumpria o requisito de ser servo era o homem. E de onde extraímos a afirmação que na essência da constituição humana está sua índole ao serviço? Leia por você mesmo como o homem foi criado e qual a missão que lhe foi confiada:

Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. (Gn 1.26)

Quando lemos este texto temos a tendência de pensar em termos de realização pessoal e na glória que se segue, porquanto nos dá a entender que fomos chamados para ser cabeça, não cauda.  Por este versículo se desenvolve, por exemplo, a construção argumentativa da teologia da prosperidade com a pretensão que o cristão precisa ocupar todos os lugares de proeminência. Ocorre que a ordem que nos obriga a exercer domínio é dada por quem governa todo o universo, portanto estamos mais na condição de mordomos do que governantes. Para que possamos dominar qualquer coisa que seja, antes devemos nos colocar na condição de servos de Deus, visando cumprir a ordem dada por Deus com o objetivo de alcançarmos resultados que trazem glórias a Deus. Antes deste verso nos dar a ilusão que somos senhores, nos chama ao serviço como sendo parte constitutiva de nossa natureza. Como esta ordem não foi dada a nenhuma outra criatura que se tenha conhecimento, é por conta desta ordem que o Verbo se determinou assumir a forma de servo, se fazendo homem. E, assim “o Verbo [esvaziado de Sua divindade] se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14 – Entre colchetes acréscimo para clarificar o entendimento do texto).

É sob esta perspectiva que o autor aos Hebreus continua com a citação dos salmos: “de glória e de honra o coroaste [e o constituíste sobre as obras das tuas mãos]” (Hb 2.7). Vamos relembrar as perguntas retóricas e sua conexão com esta posição gloriosa. A primeira pergunta nos faz lembrar que o homem foi criado a imagem e semelhança de Deus, ainda que como um ser ínfimo diante de um universo gigantesco. A segunda pergunta retórica nos faz lembrar que este mesmo homem criado veio a se deixar seduzir pela serpente, caindo de sua posição, sendo destituído da glória de Deus. Agora, para que este mesmo ser criado e caído pudesse ocupar novamente uma posição gloriosa, o Verbo de Deus teve de esvaziar-se de Sua divindade, se fazer homem, sofrer e morrer morte de cruz, assumindo com isso nossa ignomínia, para só então ser ressuscitado, ascendido aos céus, assentando-se a destra de Deus.

A suma do que temos dito é que toda glória destinada ao homem se realiza na pessoa de Jesus Cristo, o Filho do Homem, o Filho de Deus. E aqui quero terminar chamando atenção para um aspecto peculiar constitutivo do ser humano, razão porque foi necessário primeiro Jesus assumir esta condição de Filho do Homem para resolver por todas as eras o problema criado por Satanás com sua rebelião. Todo nascido de novo é um ser tricotômico, formado por espírito, alma e corpo. Os anjos são seres espirituais e o restante do universo material, portanto o ser humano tricotômico é um catalizador de todo o universo. Isto porque por ter um espírito, está na mesma dimensão do mundo espiritual formado pelos anjos, lembrando que Deus é Espírito. A este respeito escreve o apóstolo Paulo: “aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele” (I Co 6.17). Por ter autoridade no mundo espiritual é dito do homem: “Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos?” (I Co 6.3). Ademais este mesmo homem possui um corpo, portanto também formado de matéria. Assim podemos dizer que Jesus Cristo, ao assumir a forma humana, Ele em si mesmo se tornou a conexão de todo o universo criado, podendo, enquanto Filho do Homem, lidar com todas as dimensões de domínio do universo criado. Por isso Jesus mesmo declarou: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18).

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