Destaques, Miscelâneas

Mecanismos de Conexão Sequencial

Autora: Karin Elizabeth Rees de Azevedo*

MARCUSCHI (1983: 13-25), ao apresentar algumas categorias textuais e sua aplicabilidade ao texto apresenta os  fatores de conexão sequencial,  ou coesão textual, e diz que não resta dúvida de que o mecanismo linguístico é um ponto de partida para a análise do texto, enunciando:

Esses fatores dão conta da estruturação da sequência superficial do texto; não são simplesmente princípios sintáticos e sim uma espécie de semântica da sintaxe textual, onde se analisa como as pessoas usam os padrões formais para transmitir conhecimentos e sentidos.

No entanto, tal autor mostra que não se trata de condição necessária, nem suficiente, para estabelecer entre os elementos linguísticos do texto relações de sentido e, desta forma, leva à distinção entre coesão e coerência. Essa distinção já se tornou praticamente um consenso na Linguística Textual, porém, cabe-nos ressaltar que se não é condição necessária nem suficiente, também é verdade que o uso dos elementos coesivos proporcionam ao texto a explicitação dos tipos de relações estabelecidas entre os elementos linguísticos que o compõem.

Ainda segundo Marcuschi (1983), a conexão sequencial envolve os procedimentos da conexão superficial do texto, estabelece as condições da co-textualidade e inclui a formação sintática do texto nas suas relações gramaticais. Este exige domínio de situações, através de quatro grupos de fatores que compõem a conexão sequencial, que são assim apresentados: o primeiro grupo denominado por repetidores, de que fariam parte a recorrência, o paralelismo e a definitivização; o segundo grupo  é o dos substituidores, e se subdivide em paráfrase, pró-formas nominais, verbais, adverbiais e pró-sintagmas, pronominalização e elipse; o terceiro grupo abrange os sequenciadores, que são distribuídos em sete itens: tempo, aspecto, disjunção, conjunção, contrajunção, subordinação e tema-rema; o quarto grupo envolve os moduladores: entoação e modalidades.

Como o mencionado autor afirma, os elementos de recorrência são um tipo de retomada textual especial porque trata-se da repetição do mesmo lexema, mas não do mesmo significado, apontando, em especial, o uso do paralelismo no texto poético. Os mecanismos referentes ao segundo grupo, os substituidores, também ocorrem pela repetição léxica, mas esta se dá pela troca de um elemento por outro, a que o autor  chama de substituição e que, no entanto, funciona como repetição.

Koch (1994), em seus estudos, parte da perspectiva de que a coesão refere-se aos processos sequenciais que asseguram uma ligação linguística entre os elementos da superfície textual e apresenta, partindo da função dos mecanismos coesivos na construção da textualidade, duas grandes modalidades de coesão, que enuncia como coesão referencial e coesão sequencial.

A primeira modalidade de coesão é encontrada por meio da remissão que um componente da superfície textual faz a outro elemento do universo textual. A segunda modalidade de coesão  está relacionada aos procedimentos linguísticos por meio dos quais se estabelecem diversas relações entre os segmentos do texto, e duas são as suas formas de apresentação: a frástica, em que a progressão se realiza por meio de sucessivos encadeamentos, assinalados por uma série de marcas linguísticas que estabelecem relações entre os enunciados que compõem o texto;  e a parafrástica, que se realiza no texto através de procedimentos de recorrência de termos, estruturas (paralelismo), de conteúdos semânticos, de recursos fonológicos segmentais ou supra-segmentais, de tempo e aspecto verbal.

A sequenciação frástica envolve o uso de diversos conectores, que se constituem em mecanismos de coesão; esses  estão  ligados aos procedimentos que permitem o uso de termos pertencentes a um mesmo campo lexical para realizar a sequenciação do texto ou o encadeamento entre enunciados ou sequências maiores do texto. A sequenciação parafrástica é baseada nos procedimentos em que surge o conector para realizar a organização textual, em que a reiteração de um mesmo item lexical,  das mesmas estruturas sintáticas com itens lexicais diferentes marcados por expressões linguísticas, ou mesmo a recorrência de recursos fonológicos tais como o metro e a rima e a utilização da recorrência de tempo verbal devam ser considerados mecanismos de sequenciação.

De acordo com Fávero (1991), a coesão, que é manifestada no nível microtextual, tem relação com o modo como os componentes textuais, ou seja, as palavras, estão ligadas entre si dentro de uma sequência. Partindo dessa visão e de uma classificação em termos da função que exercem esses mecanismos na construção do texto, a autora propõe três tipos de coesão: a referencial, a recorrencial e a sequencial stricto sensu.

A coesão referencial decorre do fato de que certos itens na língua têm a função de estabelecer referência não apenas pelo seu próprio sentido, mas em relação a alguma coisa necessária ao seu entendimento. Essa coesão, segundo Fávero, pode ser obtida por substituição e por reiteração. A substituição acontece quando um componente é retomado ou precedido por um outro elemento que traz as marcas do que substitui. Ocorre nessa substituição no caso de retomada a anáfora e, na sucessão a catáfora.

Em relação à forma como pode ocorrer a substituição encontramos seis observações. A primeira é que apenas os pronomes pessoais de terceira pessoa podem ser considerados substitutos textuais. A segunda está ligada ao conceito de que só se pode substituir anaforicamente um nome se esse estiver na estrutura superficial. A terceira é que não é possível realizar a substituição quando não se possa processar cognitivamente a informação. A quarta observação envolve a substituição por meio da definitivização, que  é localizada por meio do universo cognitivo. A quinta refere-se ao uso das pro-formas verbais fazer e ser que podem substituir verbos de ação, mas não de estado, exigindo a presença de uma pró-forma nominal. Finalmente a última é que pode ocorrer a substituição por zero, ou seja, a elipse de entidades já introduzidas no texto.

A substituição por reiteração é apresentada como a repetição de expressões no texto, em que os elementos repetidos têm a mesma referência. Pode ocorrer reiteração por meio de cinco mecanismos: a repetição de um mesmo item lexical, o uso de sinônimos, embora não haja sinonímia verdadeira na língua, a reiteração por meio de hiperônimos e hipônimos, que permitem maior precisão textual, o uso de expressões nominais definidas, entendidas pela retomada por formas diversas do mesmo fenômeno que envolvem o conhecimento do mundo e não apenas o linguístico, e o último mecanismo é a reiteração através do uso de nomes genéricos que funcionam como itens de referência anafórica.

O segundo tipo de coesão proposto pela autora é a recorrencial, que se distingue da reiteração porque, nessa última, a função do elemento coesivo é assinalar que a informação já é conhecida e mantida, enquanto na recorrencial a função do mecanismo coesivo é assinalar que a informação progride. Consiste a coesão recorrencial, apesar da retomada de estruturas, itens ou sentenças em apresentar ou fazer progredir a informação. São apontados pela autora como casos desse tipo de coesão: a recorrência de termos, estruturas (paralelismo), paráfrase e recursos fonológicos.

A recorrência de termos e o paralelismo têm como função a reutilização de estruturas com diferentes conteúdos. Da mesma forma a paráfrase, pois atua como articuladora entre informações antigas e novas incorporando a criatividade como uma característica que a distingue da repetição, proporcionando a coesão do texto.

Temos o ritmo e os recursos de motivação sonora apresentados como recursos fonológicos possíveis de estabelecer a coesão textual. Dressler ( apud Fávero, 1991) afirma que a forma fonética do texto é consequência de estrutura semântica fornecida pela sintaxe e observa que tais recursos devem ser abordados levando-se em conta a pragmática, a estilística e a psicolinguística.

O ritmo, como elemento coesivo na organização do texto, se relaciona à duração das sílabas que, por um lado,  liga-se à posição das pausas, acentos e entoação, e, por outro, à mudança do tempo. Devemos entender o ritmo como uma sucessão de movimentos indissociáveis da rede complexa de significantes que compõem o texto. Importa salientar que tanto o ritmo como os recursos de motivação sonora, para o texto poético, são importantes, uma vez que esse tipo de texto apresenta uma maior sonoridade ou musicalidade que perpassa a construção textual.

O terceiro tipo de coesão é a sequencial e desta FÁVERO (1991:35) enuncia:

Os mecanismos de conexão sequencial strictu senso (porque toda coesão é, num certo sentido, sequencial) são os que têm por função, da mesma forma que os de recorrência, fazer progredir o texto, fazer caminhar o fluxo informacional. 

Esses mecanismos diferenciam-se dos de recorrência por não ocorrer retomada do item lexical, apresentando-se por sequenciação temporal e por conexão. A primeira é obtida de quatro formas: pela ordenação linear dos elementos, pelo uso de expressões que marcam a ordenação ou continuação das sequências temporais, pela utilização de partículas temporais e pela correlação dos tempos verbais. A segunda, a sequenciação por conexão, surge da relação que os enunciados têm em relação aos outros na construção textual, em que não só se compreende o enunciado por si mesmo, mas este auxilia na compreensão do texto como um todo. Ocorre uma interdependência semântica que pode ser vista por meio dos operadores do tipo lógico, operadores discursivos e as pausas.

Os operadores do tipo lógico têm por função estabelecer relação entre duas proposições e podem se estabelecer de seis formas: por disjunção, condicionalidade, causalidade, mediação, complementação e restrição ou delimitação. A primeira procura combinar proposições por meio do conector ou,  visto como inclusivo ou exclusivo. A segunda forma apresenta as relações de dependência entre proposições de forma que a proposição consequente será verdadeira se a antecedente o for. A causalidade também apresenta relações entre proposições no sentido de que certas construções exprimem tanto uma relação de causa e consequência quanto à relação de causa como condição suficiente. A mediação faz parte da condicionalidade, mas é expressa por duas proposições, em que uma delas exprime o meio para se atingir um determinado fim. A complementação é entendida na relação entre duas proposições, em que uma complementa o sentido de um termo da outra, podendo ser entendida também como um elemento de referência. A restrição ou delimitação ocorre na relação de duas proposições, em que uma restringe ou limita a extensão de um termo da outra.

Os operadores do discurso apresentam-se nas relações apresentadas: por conjunção, que compreende o tipo de conexão em que os conteúdos se adicionam; por disjunção, que trata de enunciados que têm orientações discursivas diferentes das apresentadas pelos operados lógicos; por contrajunção, que ocorre no tipo de conexão em que os conteúdos se opõem numa sequência; e, por  explicação ou justificação, em que é introduzida na proposição uma explicação de um ato anterior.

A pausa surge como mecanismo de coesão sequencial porque, na escrita, o uso dos sinais de pontuação podem substituir os conectores frásicos e, dessa forma, assinalar relações diferentes que podem ser explicitadas.

 De todos os mecanismos coesivos apontados, encontramos, a despeito das diferentes classificações, o entendimento de que qualquer que seja o processo utilizado, o mecanismo estará realizando a conexão sequencial, uma vez que Marcuschi (1983) os apresenta como constitutivos da textualidade na estruturação da sequência superficial. Da mesma forma Fávero (1991) enuncia que todo elemento coesivo de certa maneira estabelece a conexão sequencial.

Dessa forma, entendemos a conexão sequencial como aquela que envolve o uso de todos os fatores que se manifestam no nível microtextual e possibilitam a constituição da textualidade por meio das relações estabelecidas entre os segmentos do texto.

* * Mestre em Língua Portuguesa, atuando como revisora de textos em Londrina. PR

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