Comentários em aos Hebreus

Não endureçamos nossos corações

Assim, pois, como diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração como foi na provocação, no dia da tentação no deserto, onde os vossos pais me tentaram, pondo-me à prova, e viram as minhas obras por quarenta anos. Por isso, me indignei contra essa geração e disse: Estes sempre erram no coração; eles também não conheceram os meus caminhos. Assim, jurei na minha ira: Não entrarão no meu descanso. (Hb 3.7-11)

Caro amigo! Dileta amiga! Estamos diante da segunda exortação da carta aos Hebreus que podemos colocar nestes termos: “Não podemos endurecer nossos corações”. Para compreendermos esta exortação temos de conhecer as circunstâncias históricas do evento do Êxodo que o autor aos Hebreus se utiliza para exortar seus leitores.

Israel era um povo escravizado no Egito até Deus levantar Moisés, libertando-os, abrindo o Mar Vermelho para os guiar até a terra prometida. Antes era necessário passar pelo Monte Sinai onde haveriam de receber a lei. A provocação que Israel fez contra o Senhor foi em algum ponto entre o Mar Vermelho e o Monte Sinai. Este percurso foi todo ele percorrido debaixo da graça divina, porquanto nenhuma lei ainda fora prescrita. Esta jornada tem início no capítulo 12 de Êxodo, com a instituição da Pascoa do Senhor, uma alusão ao sacrifício de Cristo na cruz. Portanto todo este percurso tem equivalência a nossa primeira jornada com o Senhor após termos recebido a Cristo, tendo nascido de novo.

No capítulo 13 de Êxodo vemos a provisão divina em conduzir o povo mediante uma coluna de nuvem durante o dia, coluna de fogo à noite, assim Israel era conduzindo dia e noite pelas mãos poderosas do Senhor. Este capítulo é uma alusão ao Senhor Jesus enquanto nosso Apóstolo, aquele que nos transmite as palavras de Deus, sendo Ele próprio o Verbo, a Palavra viva de Deus. Portanto, se deixar guiar pelas colunas de nuvens e de fogo equipara-se a permanecer nas palavras do Senhor, como Jesus mesmos disse: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14.15). Guardar as palavras de Deus é a primeira mostra de amor que damos ao Senhor.

No capítulo 14 de Êxodo temos a travessia do Mar Vermelho, quando Israel tomou consciência que todos os inimigos foram abatidos pelo poder de Deus. O Mar Vermelho é uma figura do batismo nas águas quando, por meio deste ato, damos testemunho púbico de nossa fé, vindo a tornarmos membro da igreja local. A alusão ao batismo nos faz lembrar que todos os benefícios advindos da cruz nos são dados por meio do sacrifício vicário de Jesus Cristo, pois assim como ele morreu, também morremos com Ele, como Ele foi ressurreto, também o somos como Ele e como Ele está assentado na destra do trono, também estamos assentados nos lugares celestiais em Cristo Jesus. Não podemos nos esquecer de que todos fomos batizados em um mesmo Espírito Santo, pertencendo agora a um mesmo corpo de Cristo, sendo Cristo Jesus o cabeça da igreja.

No capítulo 15 de Êxodo temos Israel acampado em Mara. Neste lugar encontraram águas amargas, contudo o Senhor mandou lançar sobre elas uma árvore, vindo a se tornar doce. Este é um lugar de refrigério, demonstrando que a cruz de Cristo tem poder para tirar toda amargura, traumas e feridas da alma, decorrente de fatos passados, mas que ainda afetam o crente em Cristo Jesus, impedindo-o de ter vida abundante ainda nesta era. É por esta razão que o Senhor prometeu a Israel que se desse ouvidos aos mandamentos do Senhor, nenhuma das enfermidades do Egito haveria de vir sobre ele. Na sequência Israel acampou-se em Elim, onde havia doze fontes de águas e setenta palmeiras, demonstrando o propósito do Senhor Jesus como nosso Apóstolo de nos conduzir por pastos verdejantes e águas de descanso.

No capítulo 16 de Êxodo temos Israel murmurando por não ter a mesma fartura de carne e pão como havia no Egito. Este é um problema sério na jornada cristã também, porquanto o próprio Senhor Jesus advertira que os cuidados deste mundo e a fascinação das riquezas podem sufocar a palavra de Deus. O Senhor, contudo, proveu Israel de maná vindo dos céus e codornizes, alimentos estes que perduraram por toda a jornada no deserto. O Senhor Jesus, quando tentado por Satanás declarou que nem só de pão haveria de viver o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus, portanto não podemos trocar a glória de Deus pelas benesses deste mundo.

E é no capítulo 17 de Êxodo que Israel chegou no limite de sua obstinação, vindo a provocar a Deus de forma irremediável. Foi em Refidim que Israel não encontrou água, vindo a murmurar contra Moisés, tentando com sua atitude ao Senhor. Deus então ordenou a Moisés que ferisse a rocha em Horebe, vindo a jorrar água, matando a sede do povo. Aquele lugar veio a serem chamados Massá e Meribá por conta de Israel ter tentado ao Senhor. A grande questão que Israel levantou em sua tentação foi questionar se o Senhor estava realmente entre eles, demonstrando com este questionamento toda sua incredulidade para com a obra realizada pelo Senhor desde a libertação do Egito até aquele dia fatídico (Ex 17.7).

Este evento de Massá e Meribá, ocorrido ainda no primeiro ano da travessia do deserto, durante o Êxodo, mostrou a índole deste povo, que por sua incredulidade, recusou-se a crer que Deus estava com eles por toda a jornada, atingindo o clímax desta incredulidade no deserto de Parã e Cades,quando o Senhor sentenciou:

Até quando me provocará este povo e até quando não crerá em mim, a despeito de todos os sinais que fiz no meio dele? (Nm 14.11)

A incredulidade em não discernir a presença de Deus no percurso, apesar de todas as maravilhas que experimentaram, fez Israel vagar no deserto por quarenta anos, impedidos de entrar na terra prometida. Talvez você me pergunte: – que paralelo podemos fazer com a vida cristã? Creio que você está lembrado que Jesus nos prometeu: “eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10.10). Por esta palavra compreendemos que a obra da cruz tanto nos salva de nossos pecados, nos dando uma nova vida em Cristo Jesus, como também nos transforma pelo poder de Deus na imagem de Cristo durante toda nossa peregrinação, até o grande encontro daquele dia, quando vamos experimentar a ousadia e a exultação da nossa esperança (Hb 3.6).

E onde mora o perigo? Trago novamente a lembrança o texto lido na ceia do Senhor, mês a mês em I Co 11.23-26, ordenança esta que deve ser realizada até que o Senhor venha. Na sequência do texto lemos: “pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si” (I Co 11.29) para em seguida acrescentar, “Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem” (I Co 11.30). Aqui está em foco a incapacidade do cristão perceber o corpo de Cristo, onde cada membro é ligado um ao outro pelo mesmo Espírito Santo, tendo Cristo Jesus por cabeça. Vamos trazer outro texto para tornar isso mais claro:

Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. (I Jo 4.20)

A obra da cruz realizada pelo Senhor Jesus inaugurou a igreja, o corpo de Cristo, formando uma única comunidade, regida pelo amor de Deus. Não há como discriminar irmãos sem rejeitar a obra completa da cruz, não há como amar o Senhor, sem estender este amor aos irmãos. E a exortação do autor aos Hebreus é para que não venhamos a endurecer nossos corações ao ponto de não discernir a presença de Deus, seja naquilo que ele faz em nós e por nós, como também em todo o arraial dos santos, a igreja do Senhor. O autor aos Hebreus, ao final de sua exortação nesta parte, faz questão de destacar a razão pela qual o Senhor se indignou contra aquele povo incrédulo. Disse o Senhor:

“Estes sempre erram no coração; eles também não conheceram os meus caminhos. Assim, jurei na minha ira: Não entrarão no meu descanso. (Hb 3.10.11)

 O que precisamos entender é que o Espirito de Deus habita em nosso espirito humano para comunicar Cristo em nosso coração. Por coração entenda a essência do nosso ser que governa a totalidade de quem somos. Paulo trata deste processo de revelação em sua carta aos Efésios, no capítulo três, a partir do verso quatorze. Depois de ter exposto acerca da multiforme sabedoria de Deus e do mistério que esteve oculto desde a fundação do mundo acerca da igreja, segundo o eterno propósito de Deus estabelecido em Cristo Jesus, Paulo expõe como podemos fazer para que Cristo se assenhore de nosso coração.

Este processo se inicia quando oramos para que o Senhor fortaleça nosso homem interior com poder mediante o Espirito Santo (Ef 3.16). A resultante desta oração deve nos conduzir sob a liderança do Espírito Santo, sensíveis à Sua instrução que é corroborada pela palavra de Deus. O Espírito Santo nunca direciona um cristão que não seja respaldado pela verdadeira doutrina proveniente da Bíblia.

Por meio deste fortalecimento interior, que nos permite andar em Espirito, não cumprindo com as concupiscências da carne (Gl 5.16), o fruto do Espírito tem lugar para frutificar em nosso coração, então Cristo passa a ter lugar em nosso coração por meio da fé, nos arraigando e alicerçando em amor (Ef 3.17), nos conduzindo até sermos cheios da plenitude de Deus (Ef 3.19). Quando alcançamos esta graça, quando toda a igreja, o corpo de Cristo se une neste mesmo propósito de experimentar esta plenitude, então se dá conosco o que se passou com a igreja primitiva:

Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e, com intrepidez, anunciavam a palavra de Deus. (At 4.31)

Comente este texto, isto me ajudará desenvolver outros aspectos do texto que não me foram percebidos. Compartilhe com seus amigos e amigas. Vejo você no próximo texto.

Leave a Comment