Reflexões

O justo diante do soberbo

Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé. (Ha 2.4)

Um dos textos mais preciosos do Novo Testamento foi retirado de uma das passagens mais enigmáticas do Antigo Testamento, o texto sobre o justo vivendo pela fé. Nesta passagem encontramos as mais densas trevas junto com o frágil candelabro. Dizemos candelabro porque o justo não é luz em si mesmo, antes a reflete, contudo levando em conta o fato de se evidenciar que ele vive por fé, toda realidade na qual ele está inserido não pertence a este mundo. Para entender a posição do justo, consideremos por um instante o soberbo. Este indivíduo é a expressão máxima da iniquidade que o ser humano pode atingir. Ele surge em meio a um ambiente permeado de corrupção, ao ponto do profeta exclamar:

Até quando, SENHOR, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás? Por que me mostras a iniquidade e me fazes ver a opressão? Pois a destruição e a violência estão diante de mim; há contendas, e o litígio se suscita. Por esta causa, a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta, porque o perverso cerca o justo, a justiça é torcida. (Ha 1.2-4)

Este fragmento da realidade desenhado pelo profeta sintetiza todo material jornalístico contemporâneo Alguém pode dizer que este quadro traz a tónica de toda a história da humanidade, mas sabemos que há períodos temporais em que a corrupção alcança níveis estratosféricos e, geralmente quando atinge este patamar, impérios caem apodrecidos em sua corrupção moral. Foi assim, por exemplo, no tempo do dilúvio, quando o próprio Senhor Deus faz o diagnóstico declarando: “A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência” (Gn 6.11). Antes este diagnóstico fora aprofundado: “Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gn 6.5).

É preciso salientar a condição do coração da humanidade naquele tempo. Isto porque Jesus mesmo declarou que este diagnóstico haverá de se repetir em todas as suas letras: “Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem. (Mt 24.37). E como poderíamos retratar esta condição humana no final dos tempos? Leiamos:

Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. (II Tm 3.1-5)

Salta a vista que este é o retrato de muitos indivíduos nos dias atuais. Não há como dar uma estatística por dois motivos básicos, o primeiro decorre do fato da igreja ainda se fazer presente entre os homens, e, sabemos, se faz presente por causa da presença santificadora e restritiva do Espírito Santo, segundo e principal motivo de não termos exatamente o mesmo diagnóstico de antes do dilúvio. Até porque declarou o apóstolo Paulo: “Com efeito, o mistério da iniquidade já opera e aguarda somente que seja afastado aquele que agora o detém” (II Ts 2.7). Nesta palavra profética Paulo realça que a iniquidade cresce exponencialmente até chegar o ápice em que será “revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição” (II Ts 2.3), este que Habacuque o conheceu como “o soberbo”, um homem ”o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus” (II Ts 2.4). É diante deste quadro tenebroso que o profeta acresceu o “mas”, dizendo: “mas o justo viverá pela sua fé” (Ha 2.4). Três vezes esta expressão se apresenta no Novo Testamento:

visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé. (Rm 1.17)

E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé. (Gl 3.11)

todavia, o meu justo viverá pela fé; e: Se retroceder, nele não se compraz a minha alma. (Hb 10.38)

Vamos fazer uma junção entre a primeira citação, dada pelo profeta, e a última, feita pelo autor aos Hebreus:

Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas,…, todavia, o meu justo viverá pela fé; e: Se retroceder, nele não se compraz a minha alma. (Ha 2.4, Hb 10.38)

Observe a contraposição entre “sua alma” e “minha alma”. A primeira é a alma do soberbo, a segunda, a de Cristo Jesus. A alma do soberbo será entregue as trevas como está escrito:

e adoraram o dragão porque deu a sua autoridade à besta; também adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem pode pelejar contra ela? (Ap 13.4)

Em contraposição a alma de Jesus é a própria expressão de Deus, o Pai:

Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, (Hb 1.3)

Então voltamos ao enigma do texto de Habacuque. Enquanto por um lado ele retrata o soberbo na maior expressão de sua iniquidade, por outro apresenta o crente como plenamente justificado na obra da cruz e, portanto, na mais absoluta paz com Deus com um grande desafio diante de si: viver nos dias atuais com seu olhar fixo em Jesus, autor e consumador de sua fé (Hb 12.2).

 

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