Comentários em aos Hebreus

Para conhecer a Cristo precisamos da cruz

… a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles. (Hb 1.2-4)

Caro amigo! Dileta amiga! Nosso tema é Jesus Cristo. Seriam necessários todos os livros de todos os tempos para escrever acerca dele e, ainda assim seriam insuficientes. Quanto a isso sabemos em potencial, porque nós mesmos se tivéssemos de escrever acerca de Jesus, talvez tivéssemos dificuldades de preencher vinte páginas. E nós precisamos aprender acerca de Jesus em conformidade com o tamanho da nossa fé para que nosso crescimento e maturidade sejam consistentes. Este é o ensino do apóstolo Paulo como podemos ler:

Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um. (Rm 12.3)

E em outro lugar

Porque não ousarei discorrer sobre coisa alguma, senão sobre aquelas que Cristo fez por meu intermédio, para conduzir os gentios à obediência, por palavra e por obras, (Rm 15.18)

Observe como Paulo era prudente para declarar seu conhecimento, fazendo uma correlação entre o que sabia e sua capacidade de absorvê-lo por meio da fé, aplicando em sua própria vida. Este tem sido nosso problema, pois um das grandes dificuldades que temos para aprender da palavra de Deus é que dimensionamos nosso conhecimento muito além daquilo que realmente podemos apreender por meio da revelação. Este descompasso entre o que pensamos saber e o que de fato conhecemos impede que as escrituras se internalizem em nós, produzindo seus efeitos eternos.

Esta é a razão porque muitas vezes precisamos estudar a Bíblia com o freio de mão puxado. Um bom exercício seria este. Se você julga, por exemplo, que sabe o significado de Jesus Cristo ser o Cordeiro de Deus, então tome folhas de papeis e comece a escrever a respeito. Podemos encontrar livros sobre o assunto com suas trezentas páginas, por exemplo, mas e nós, quantas páginas dariam o conteúdo que temos em nossa mente acerca deste aspecto da obra do Senhor. Muitos se veriam surpresos por ser incapaz de escrever mais que duas páginas acerca do tema. A diferença entre duas e trezentas diz respeito à necessidade que temos de sentar-nos aos pés do Senhor e começar, as vezes, no bê-á-bá da teologia.

Voltemos nossos olhos para a introdução da carta aos Hebreus. Nestes três versos temos uma síntese da grandiosidade do Senhor e, ao mesmo tempo, o entrelaçamento desta mesma grandiosidade com o cerne de Sua obra salvítica. Não nos olvidando que é por meio da cruz que Deus nos falou nestes últimos dias, sendo esta a única palavra que pode nos conectar com Deus. Permita-me explicar.

Nós sabemos que Deus criou os céus e a terra, é o que está escrito em Gênesis, no capítulo um, verso um. Ocorre que a nossa história começa em Gênesis, capítulo três, verso dezenove. Você deve estar se perguntado: – como assim? Permita-me relembrar você o que está escrito neste lugar:

No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás. (Gn 3.19)

Este é o veredicto divino após a queda. E, se tentarmos compreender um pouco mais o que vem depois, o autor aos Hebreus acrescenta:

E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo, (Hb 9.27)

Agora, se você quiser saber o que se pode esperar depois deste juízo, temos o destino final decorrente da queda escrito em outro lugar:

E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo. (Ap 20.15)

Observe que este é o trágico fim da queda humana caso Deus não tivesse intervindo em nosso favor. Paulo sintetiza este veredicto de forma sumária: “porque o salário do pecado é a morte…” (Rm 6.23). Então a nossa história, enquanto caídos, começa em Gn 3.19 e terminaria em Ap 20.15, não nos trazendo alento algum saber que Deus é o Criador, o Soberano do Universo, o Justo Juiz, porquanto qualquer destes conhecimentos somente aumentariam o terror advindo do destino que nos estava reservado. É por esta razão que o autor aos Hebreus expõe primeiro o que Cristo passou, para voltar a dizer quem Ele é, para em seguida, mostrar o que Ele fez, para só então apresentar o resultado final de Sua obra. O autor aos Hebreus se deixava guiar pela obra da cruz para conhecer o Senhor. E quem era Jesus para o autor aos Hebreus? Em primeiro lugar Jesus é o herdeiro do universo. E por que é tão importante declarar que Jesus é herdeiro? Leia por você mesmo:

Porque, onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador; (Hb 9.16)

Entenda isso, o que vêm depois do autor dizer ser Jesus herdeiro? Que Ele é o Criador do universo. Oras, para que nós pudéssemos ver Jesus como Criador, teríamos primeiro que vê-lo como Cordeiro de Deus, porquanto somente por meio de Sua morte haveríamos de sermos reconciliados com Deus, então o veríamos como Criador. Note como o contrário é verdadeiro. João viu um livro selado com sete selos, descobriu que ninguém poderia abrir aquele livro senão o Leão da tribo de Judá. Somente este teria poder para romper os selos e derramar os juízos. Ocorre que João soube do Leão, que estava em suas costas, mas quando ele se voltou para o ver, quem de fato João viu? Leia por você mesmo:

Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos. Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto. Ele tinha sete chifres, bem como sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra. (Ap 5.5,6)

Fora anunciado a João o Leão, mas o que ele viu foi o Cordeiro. Isto reforça a compreensão que só podemos conhecer o Senhor sob a ótica da cruz. É por isso que o autor aos Hebreus, após declarar ser Jesus o herdeiro, pode agora apresentar a grandiosidade do Senhor  como o Criador do universo, o  resplendor da glória de Deus, a expressão exata da divindade, como também o supremo governante do universo, visto sustentar todas as coisas pela palavra do Seu poder. Agora, note como o autor aos Hebreus volta novamente para cruz, seu ponto de partida. Eis que ele declara que Jesus fez a purificação dos pecados para, só então, assentar-se à direita da Majestade. Entre uma coisa e outra, Jesus veio, viveu entre nós, foi preso, sofreu grande humilhação, foi morto com morte de cruz e, ao terceiro dia ressuscitou. Somente depois de todos estes eventos é que assentou-se gloriosamente à direita da Majestade. Ou seja, primeiro o testamento teve a interveniência da morte do testador antes do Senhor poder se constituir na condição de herdeiro de todas as coisas.

Se fossemos comparar Hebreus 1.2-4 a uma peça de vestuário, veríamos que ele foi todo entrelaçado por meio do tricotar “de linho retorcido, estofo azul, púrpura e carmesim” (Ex 26.1), fios estes usados nas cortinas do tabernáculo, feito por obra de artista. O azul lembra o caráter celestial de Cristo, mas tanto a púrpura quanto o carmesim o sangue de Cristo derramado na cruz do calvário, sendo que a púrpura remete a realeza e o carmesim ao sacrifício. A púrpura é um tecido avermelhado usado pela realeza e o carmesim, que também é vermelho, trata-se de um corante produzido por inseto.

Vamos nos deter um pouco na revelação dada pelo autor aos Hebreus acerca de Cristo Jesus sustentar todas as coisas pela palavra do Seu poder. Eu creio que no dia anterior a leitura deste texto você teve oportunidade de tomar seu café da manhã, almoçar e, quem sabe, jantar. Se fizer uma avaliação dos alimentos que teve oportunidade de saborear, haverá de chegar a uma grande diversidade. Fazemos isso com tanta habitualidade que dificilmente refletimos acerca desta prerrogativa que temos. Conta que um pai levou sua filha para conhecer uma vaca, querendo com isso explicar de onde vinha o leite. Ao que ela voltou-se para o pai com expressão de zombaria, dizendo: – conta outra pai, o leite vem da caixinha do supermercado. Esta estória demonstra a facilidade com que os habitantes da cidade podem se desconectar do campo. Contudo, mesmo entre os cristãos, muitos se desconectam com muita facilidade que o Senhor Jesus está sustentando todas as coisas pela palavra do Seu poder, inclusive os alimentos que estiveram sobre nossa mesa no dia de ontem. E como isso se dá? Leia por você mesmo:

E disse: Produza a terra relva, ervas que dêem semente e árvores frutíferas que dêem fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nele, sobre a terra. E assim se fez. (Gn 1.11)

Esta palavra do Senhor foi dada no terceiro dia da criação. Deus ordenou que a terra produzisse o seu fruto e, desde aquele dia até hoje é assim que está sendo feito, portanto tudo quanto comemos no dia de ontem nada mais foi que o cumprimento e a sustentação desta palavra de Deus. Com isso quero dizer que este mesmo Deus que nos dá o pão para comer é o mesmo Cristo que fez a purificação de todos os nossos pecados, assegurando, de uma vez por toda, esta verdade por toda a eternidade, visto ter sido entronizado à destra de Deus depois de ter morrido na cruz por nós.

Comente este texto, isto me ajudará a aprofundar pontos que possam não ter ficado claros para você. Compartilhe com seus amigos e amigas. Vejo você no próximo texto.

2 Comentários
  • Antonio Carlos Prol Medeiros
    junho 6, 2018Responder

    Ótimo texto. Eu sou literalmente desconectado do campo. Nem saberia dizer se certas verduras nascem em árvores ou se são desenterradas para comer. Com isso, quero confirmar que sim, também me desconecto, ou me esqueço de que a Palavra tem poder e nos sustenta. Tenho que estar conciente dessa afirmação com mais determinação.
    Qual a versão da sua Bíblia?

    • Cezar Andrade Marques de Azevedo
      junho 6, 2018Responder

      Realmente está desconexão é uma realidade. E o texto fala de ervas, não só de árvores,
      realmente podemos ter dificuldade de saber a forma como os frutos são colhidos, quanto mais saber o quanto a palavra nos sustenta. A versão que uso é atualizada.

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