Reflexões

Paulo disposto a ensinar, o quanto depende de nós

Paulo, chamado pela vontade de Deus para ser apóstolo de Jesus Cristo, e o irmão Sóstenes, (I Co 1.1)

Paulo escreve aos Coríntios com as cordas do coração. Sem perder de vista quem ele é, não teme mostrar suas fraquezas para realçar o poder de Deus em sua vida. Muitos de nós concebemos que quanto mais perto de Deus estivermos, quão mais íntimo for nosso relacionamento com o Senhor, menos propensos a insegurança haveremos de estar, menos sujeitos a dúvidas seremos, menor o medo que sentiremos. Para estes, andar com Deus é sinônimo de sucesso crescente, prosperidade constante, saúde perfeita, relacionamentos edificantes. Então, quando se deparam com o coração do apóstolo Paulo, precisam reconsiderar seu entendimento do que seja de fato a vida cristã.

Paulo foi chamado para exercer seu ministério por vontade de Deus, não buscou isto para si, pelo contrário, quando foi chamado e comissionado, sua intenção era oposta. Antes conhecido como Saulo, ele perseguia os cristãos, torturando-os e, mesmo, matando-os, com o objetivo de fazê-los negar sua fé. Tinha ordem das autoridades religiosas para entrar nas sinagogas da cidade de Damasco, prender os discípulos de Jesus Cristo e os levar para Jerusalém para serem julgados (At 9.2). Lucas enfatizou que Paulo respirava ameaças de morte contra os discípulos do Senhor, como evidenciando um coração irado e revoltado por encontrar gente que não seguia a liderança dos fariseus (At 9.1).

Foi cavalgando nesta fúria que Saulo caiu do cavalo diante da luz do céu que brilhou ao seu redor, de onde ressurgiu a voz lhe perguntando: “- Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9.4). A resposta de Saulo foi sintomática, ele retrucou com outra pergunta: “- Quem és tu, Senhor?”, ao que ouviu por resposta: “- Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (At 9.5). Saulo, em um único instante compreendeu que estava diante do Senhor e do Salvador, o Messias. Ato seguinte, o Senhor já o instruiu que havia um chamado específico para ele, contudo deveria aguardar chegar instruções a respeito (At 9.6). Não demorou para Ananias receber da parte do Senhor a missão de Saulo: “-Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel” (At 9.15). Aqui uma contraposição em relação a muitos que se arvoram no direito de exercerem para si ministérios sem que para isto houvesse da parte do Senhor um chamado específico. A obra de Deus acontece no corpo de Cristo, assim como alguém se descobre vocacionado para esta obra, é preciso também que a igreja reconheça este chamado. Este é um terreno santo e os passos precisam ser dados com zelo e discernimento.

Paulo foi chamado para ser apóstolo de Jesus Cristo (I Co 1.1), com o objetivo de pregar o evangelho, o que procurava fazer com zelo para não anular a cruz de Cristo (I Co 1.7). Esta ressalva é deveras importante, porquanto esta cruz não só deve estar no centro da mensagem do evangelho, como também aplicada no coração daquele que ministra a mensagem, como também dos que a ouvem. É por esta razão que Paulo enfatiza que a pregação se constitui em Cristo crucificado, escândalo para os judeus (porquanto lhes é impossível aceitar que o Salvador viesse a morrer morte de cruz, morte maldita conforme prescrito na lei de Moisés), e loucura para os gentios (visto que lhes é estranho o conceito que a pregação, por si só, é suficiente para salvar alguém, concedendo-lhe vida eterna) (I Co 1.23).

A pregação de Paulo consistia em pregar a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus (I Co 1.24), porquanto Cristo Jesus se tornou da parte de Deus sabedoria, e justiça, e santificação e redenção. Nestes quatro termos Paulo equaciona toda a dimensão do processo salvítico: a mensagem (sabedoria), a justificação e regeneração (justiça), o viver cristão enquanto espera a volta do Senhor (santificação) e a glorificação (redenção). Aqui uma observação importante: Paulo tem por hábito em seus escritos referir-se a Jesus Cristo e a Cristo Jesus. A inversão do nome tem sua razão de ser. Quando Paulo cita Jesus Cristo, está mencionando o homem que viveu entre nós em sua carne, quando fala de Cristo Jesus, está referindo-se ao Cristo que compartilha do Seu Espírito Santo conosco, o Cristo ressurreto.

Paulo faz questão de ressaltar aos Coríntios que fora até eles para anunciar o testemunho de Deus (I Co 2.1), sempre enfatizando que este é Jesus Cristo, que fora crucificado (I Co 2.2). Diz ainda que fez este anuncio por demonstração do Espírito e de poder (I Co 2.4), para que a fé daqueles cristãos não se apoiasse em outra coisa senão no poder de Deus (I Co 3.5). Aqui é preciso frisar que quando somos impactados pela presença de Deus e o aceitamos pela fé, a totalidade de nosso viver para a ser dirigido por Deus. Não existe nenhuma ara que esteja fora da jurisdição divina. Por exemplo, na carta aos Efésios Paulo faz menção da esposa (Ef 5.22), do marido (Ef 5.25), dos filhos (Ef 6.1), dos pais (Ef 6.4), dos empregados e servidores públicos (Ef 6.5) e dos empregadores, profissionais liberais, empreendedores, negociantes e todo aquele que está à frente de negócios (Ef 6.9). Com isso cada um dos papeis que exercemos diante do nosso próximo deve ser fundamentado na bendita palavra de Deus. Não há espaço para pensarmos por nós mesmos, antes nossa mente precisa ser remodelada por esta palavra como único meio de podermos experimentar qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.1,2).

Paulo tem muito a transmitir, contudo para que possamos realmente estarmos em condições de ouvi-lo temos de nutrir em nós o profundo anseio de responder a obra de Deus feita em nós em amor serviçal que procede da adoração em espírito e em verdade. Paulo diz que compartilhava de sua sabedoria aos experimentados (I Co 2.6), ou seja, aqueles que se aplicavam proativamente em buscar a vontade de Deus para sua vida em pronta obediência. Para estes Paulo falava a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, contudo, ainda assim pré ordenada desde a eternidade para a glória de Deus, agora revelada a igreja do Senhor (I Co 2.7). Mesmo porque temos em nós o Espírito Santo que nos revela este maravilho mistério, porquanto “as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus” (I Co 2.11),

O método de ensino de Paulo era baseado em palavras ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com coisas espirituais (I Co 2.13), portanto aquele que deseja conhecer deste mistério precisa imergir na audição, estudo, meditação e aplicação da palavra de Deus, porquanto as coisas do Espírito de Deus se discerne espiritualmente (I Co 2.14), visto termos a mente de Cristo (I Co 2.16). Ainda que o desejo de Paulo fosse o de compartilhar a sabedoria de Deus, havia impedimentos, porquanto para muitos dos crentes em Coríntios Paulo não podia compartilhar com eles como a espirituais. Isto porque eles se apresentavam como carnais, como crianças em Cristo (I Co 3.1), razão porque Paulo tinha de dar a eles leite para beber, não o alimento sólido (I Co 3.2). Quem está nesta condição não pode suportar as coisas profundas dos mistérios de Deus e, cabe aqui perguntar: porque Paulo via estes crentes em Coríntios como carnais? Ele mesmo dá a resposta, por haver entre eles ciúmes e contendas, o que os caracterizavam como andando como homens, não como espirituais (I Co 3.3). E aqui cabe-nos uma profunda reflexão sobre como temos conduzindo nossos relacionamentos. Não há como querer crescer em Cristo cultivando intrigas entre irmãos.

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