Comentários em aos Hebreus

Ser honrado por Deus passa pelo caminho da cruz

Assim, também Cristo a si mesmo não se glorificou para se tornar sumo sacerdote, mas o glorificou aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei; como em outro lugar também diz: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque. (Hb 5.5-6)

Caro amigo! Dileta amiga! Nosso tema é o sacerdócio de Cristo segundo a ordem de Melquisedeque. Normalmente os estudos da carta aos Hebreus tendem a demonstrar que Cristo é superior ao Antigo Testamento em todos os requisitos. Assim Cristo é superior aos anjos, a Moisés, ao tabernáculo, a antiga aliança e por ai vai. Talvez você me pergunte: – esta não é a interpretação correta desta carta? Qual o problema que este tipo de abordagem traz?

Considere este tipo de abordagem em outras dimensões. Digamos que alguém lhe diga que aplicar em ouro é melhor que em ações. Você tende a investir todo seu recurso em ouro, nem vai querer saber quais os riscos da aplicação das ações nem porque o ouro é tão mais valioso. Neste caso você simplesmente ignora as ações e aplica no ouro. Pode lhe ser dito que casar-se é melhor que viver solteiro(a). Se assim for, você pode dedicar a vida buscando um conjugue e, quando o encontrar, mudar seu estado civil, sem se importar em saber se continuar solteiro poder-lhe-ia ser melhor para se dedicar as coisas espirituais sem distração alguma. O que quero enfatizar é que, quando buscamos ressaltar a distinção da diferença, mostrando a superioridade de uma coisa sobre a outra, deixamos de atentar o que esta coisa de menor valia tem a nos comunicar.

O processo de entendimento da carta aos Hebreus deve seguir outro caminho. Devemos primeiro conhecer como as coisas funcionavam no Antigo Testamento, em especial nas tratativas em relação ao tabernáculo. Uma vez compreendido os mistérios que rondam o tabernáculo, elevar este entendimento nas dimensões do que Cristo alcançou na cruz. Estou a fazer esta argumentação porque é assim que o autor aos Hebreus se coloca no inicio do capítulo 5. Primeiro ele demonstra como o sumo sacerdote Araônico exercia seu ministério, então compara com o que Jesus fez por nós na cruz para que possamos compreender o papel singular que Jesus Cristo ocupa. Uma vez compreendido este papel temos como entender como os benefícios da cruz se aplicam a nós. Leia por si mesmo como o autor aos Hebreus faz este comparativo:

Ninguém, pois, toma esta honra para si mesmo, senão quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão. Assim, também Cristo a si mesmo não se glorificou para se tornar sumo sacerdote, mas o glorificou aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei; como em outro lugar também diz: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque. (Hb 5.4-6)

Aqui temos duas ordens ministeriais em evidência: a ordem Araônica e a de Melquisedeque. É certo que Jesus pertence a ordem de Melquisedeque, muito superior a primeira. Mas ambas possuem um elemento em comum: nem Arão, nem Jesus Cristo tomaram para si esta honra, antes cada um deles ocupou o lugar que lhes eram devidos segundo as prescrições divinas. E por que é tão importante fazer esta observação? Eu creio que um dos textos mais humilhantes do Novo Testamento relativo a igreja é uma instrução dada pelo apóstolo Paulo. Permita-me apresenta-la:

Escrevo-te estas coisas, esperando ir ver-te em breve; para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade. (I Tm 3.14-15)

Por que considero este texto humilhante? Creio que você se lembra de quando Deus disse para Abraão, estando este com 99 anos: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito” (Gn 17.1). Este comando divino dado para Abraão equivale ao pai que, para proteger seu filho de cinco anos exige que ele só brinque em sua presença, diante da vista de seus olhos porque se afastar daquele lugar pode ser deveras temeroso. Paulo faz o mesmo com a igreja, alerta que há um modo de agir prescrito por Deus que precisa ser conhecido quer pela carta escrita, quer por suas exortações pessoais. E que a igreja deve buscar este conhecimento antes de fazer qualquer coisa. Isto nos dá um precioso principio para as coisas de Deus, qual seja, no âmbito espiritual tudo é aprendido, nada se experimenta por acaso. Jesus mesmo confirma este princípio ao declarar: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32). Traduzindo estas coisas nos termos da carta aos Hebreus, tudo se sintetiza nesta frase: “Ninguém, pois, toma esta honra para si mesmo, senão quando chamado por Deus” (Hb 5.4).

O comparativo entre Arão e Jesus Cristo demonstra que todo ser humano, na sua esfera de ação, precisa aprender a sujeitar sua vontade à vontade de Deus. O apóstolo Paulo trata deste tema quando instrui a igreja de Roma a apresentar seus corpos a Deus e renovar seu entendimento até serem transformados para então experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.1,2). E isto diz respeito a meta que devemos ter diante de nós, qual seja, nos transformarmos na imagem de Cristo pelo poder de Deus.

Acerca de Jesus conhecemos sua decidida humilhação, esvaziando-se de Sua deidade, se fazendo servo, tomando a forma de homem, sendo obediente até a morte de cruz. Por conta de sua obediência em trilhar o caminho da cruz foi exaltado sobremaneira, recebendo um nome acima de todos os nomes (Fl 2.5-9). O autor aos Hebreus nos comunica que esta exaltação implica também em assentar-se a destra da Majestade nas alturas (Hb 1.3), posição esta que ocupará até ter todos os seus inimigos postos debaixo de seus pés (Hb 1.13). O autor aos Hebreus revela que o trono do Senhor será um trono eterno (Hb 1.8) e complementa agora que esta glorificação estende-se inclusive na assunção do papel de Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque.

O mais importante da conexão feita pelo autor aos Hebreus diz respeito a disposição de Deus, o Pai acompanhar de perto toda a trajetória de Seu Filho unigênito na terra, desde sua concepção até cruzar pela cruz, morte, ressurreição, ascensão e exaltação. Devemos nos lembrar que o ato da geração de Jesus enquanto Filho do Homem, Deus o fez um pouco menor que os anjos. O próprio Deus, o Pai teve de comunicar aos anjos que Jesus devia ser adorado (Hb 1.6), porquanto até a ressurreição os anjos ainda não compreendiam de todo o mistério da encarnação de Jesus. Mesmo porque, como atesta o apóstolo Paulo, foi só na ressurreição de Jesus que esta revelação se tornou clara, porquanto está escrito:

e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor, (Rm 1.4)

O que se evidencia neste quadro é que o Filho de Deus, o Verbo, o Filho unigênito, feito agora Filho do Homem tem a mesma deidade que tinha antes de Seu esvaziamento. Por outro lado assume integralmente todas as prerrogativas dadas ao homem criado, seja enquanto o Rei dos reis, seja no exercício do Sumo sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque. Com isso o domínio que fora dado por Deus ao homem quando da criação, acerca de tudo ser colocado debaixo de seus pés, este domínio se tornou agora, pela obra da cruz, morte e ressurreição, indissoluvelmente pertencente a Jesus Cristo Homem, tanto na esfera natural, quanto na espiritual, tanto nas questões de governo quanto de espiritualidade, portanto do sacerdócio.

O comparativo entre o ministério de Arão e de Jesus Cristo, ainda que de ordens diferentes, mas ambos conduzidos pelo mesmo Deus, o Pai, demonstra que cada um de nós, não importa a posição que ocupemos neste planeta, a tarefa que nos é atribuída, o ministério que somos chamados a exercer, a posição que ocupemos na sociedade, quaisquer que sejam estas atribuições, também nós devemos aprender a andar com Deus, a confiar em Sua eterna providência, a buscar tão somente a honra que precede de Deus a viver para a glória de Deus.

O que este comparativo demonstra é que os caminhos de Deus cruzam necessariamente pela cruz, pela obra do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, pelo processo de morte e ressurreição de Jesus Cristo. O apóstolo Paulo fala deste percurso espiritual ao relatar o modo como enquadrou sua vida natural para conhecer o poder transformador de Deus na face de Jesus Cristo. Paulo deu de si o seguinte testemunho:

Bem que eu poderia confiar também na carne. Se qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu, quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos. (Fl 3.4-11)

Este testemunho do apóstolo Paulo se aplica a cada um daqueles que querem conhecer como ser transformado pelo poder de Deus na imagem de Cristo. Precisamos estar dispostos a abrir mão de nossa vida natural para conhecer o poder da ressurreição, isto é, somente passando pela senda da renuncia de nossa vontade própria em prol da vontade de Deus haveremos de experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus para conosco. E, para este propósito temos a própria jornada do Senhor Jesus enquanto homem para referendar nossos passos e guiar nossa trajetória junto ao Pai.

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