Comentários em aos Hebreus

Somos a casa de Cristo

E Moisés era fiel, em toda a casa de Deus, como servo, para testemunho das coisas que haviam de ser anunciadas; Cristo, porém, como Filho, em sua casa; a qual casa somos nós, se guardarmos firme, até ao fim, a ousadia e a exultação da esperança. (Hb 3.5,6)

Caro amigo! Dileta amiga! Nós somos a casa de Cristo. Creio que, de todas as revelações da carta aos Hebreus, esta seja a segunda mais importante e fundamental para compreendemos o propósito desta carta. A primeira e mais importante revelação da carta aos Hebreus diz respeito ao fato de Jesus estar assentado a destra de Deus, isto porque esta posição sintetiza a vitória da cruz, porquanto demonstra que Jesus foi obediente até passar por este tipo de morte, vindo a ressuscitar ao terceiro dia, ascender aos céus e assentar-se no trono, glória esta que tinha antes de ter sido esvaziado enquanto Verbo de Deus para se fazer Filho do Homem

Compreendido a mais importante revelação da carta aos Hebreus, somos agraciados com a revelação que cada um de nós, dos que crêem em Jesus Cristo, dos que foram justificados e regenerados, dos que nasceram de novo, cada um destes se constitui na própria casa de Cristo Jesus. Observe que o autor aos Hebreus não disse que Jesus é como Filho em Sua casa, mas que Cristo é como Filho em Sua casa, isto porque quando se designa Jesus por este nome, está se tratando do Verbo encarnado que viveu entre nós como a glória do unigênito do Pai celestial, agora quando nos é apresentado como sendo o Cristo, diz respeito a este mesmo Jesus Cristo, contudo na condição de ressurreto e exaltado, tendo distribuído do Seu Espírito Santo para todo membro do corpo de Cristo.

O termo grego para “casa” é “oikos”, cujo significado pode tanto ter a acepção de edifício material, templo ou morada, trazendo a ideia de fixação de residência, como também o sentido metafórico de família ou nação, que em um sentido teocrático se pode designar como sendo “casa de Deus”, como em I Tm 3.15. Nós podemos aplicar ambos os conceitos para cada um dos membros do corpo de Cristo, pois em primeiro lugar cada um per si se faz templo do Espírito Santo. Aqui é preciso compreendermos a planta do tabernáculo para entender o significado de nosso corpo ser um templo.

O tabernáculo era uma tenda levantada no deserto, com um pátio externo, cercado por peles de várias espécies. Dentro deste pátio havia duas tendas, uma sendo o santo lugar e outra o Santo dos santos, onde Deus habitava de forma restrita. Todo o espaço, desde o pátio externo até o lugar onde ficava a arca da aliança, era santos ao Senhor e cumpriam funções específicas. O objetivo final destas disposições era levar o sumo sacerdote adentrar no Santo dos Santos, diante da presença de Deus. Aplicado ao corpo humano, todo ele é santo ao Senhor, contudo a presença restrita de Deus se dá no espírito humano, ao ponto de Paulo colocar nestes termos: “aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele” (I Co 6.17). É por esta razão que o corpo é visto como uma morada, um templo, um espaço de habitação. Podemos ter esta mesma perspectiva em qualquer lar, porquanto cada indivíduo que habita neste espaço tende a definir seu lugar de preferência, como a cadeira de sua preferência, o lugar onde guardar suas roupas ou o lado da cama onde dorme.

E é quando se observa o espaço mais restrito da habitação de Deus no crente, isto é, o espírito humano, que se tem a noção de que este mesmo crente faz parte da família de Deus. Isto porque ele divide o seu corpo com o próprio Espírito de Deus, que habita nEle. Neste caso ambos estão em convivência continuada e, de forma mais ampla, como o mesmo Espírito Santo se faz presente a um só tempo com todos os crentes de todos os lugares, temos nesta conexão a grande família de Deus ligadas todas pelo mesmo Espírito de Deus, ao ponto de Paulo faz o seguinte comentário:

De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam. (I Co 12.26)

Dificilmente compreenderemos esta realidade espiritual sem levar em conta a definição grega para a palavra “igreja”, que significa “assembléia pública” como em At 19.39. Ainda que este mesmo termo possa ser aplicado para a igreja universal, ou seja, a reunião de todos os crentes, de todas as épocas, em Cristo, a ideia central é que haja um corpo de Cristo local que se reunia em nome de Jesus para adoração e ensino mútuo. É nesta concepção de reunião que podemos entender a instrução de Paulo:

edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito. (Ef 2.20-22)

e

de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor. (Ef 4.16)

É importante apresentar estas concepções porque o autor aos Hebreus faz um comparativo entre Moisés e Jesus Cristo como ambos tendo sob Suas responsabilidades a casa de Deus. Moisés era responsável por todo o Israel e Cristo Jesus é o cabeça da igreja, que é o Seu corpo. Enquanto Moisés anunciava a Israel acerca da vinda do profeta que seria semelhante a Ele, Jesus foi o ponto culminante de toda a revelação transmitida por Moisés. Infelizmente, para Israel, é dito dele: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1.11). A luz desta verdade Paulo acrescenta:

Pergunto, pois: porventura, tropeçaram para que caíssem? De modo nenhum! Mas, pela sua transgressão, veio a salvação aos gentios, para pô-los em ciúmes. (Rm 11.11)

E

Porque não quero, irmãos, que ignoreis este mistério (para que não sejais presumidos em vós mesmos): que veio endurecimento em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios. E, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: Virá de Sião o Libertador e ele apartará de Jacó as impiedades. (Rm 11.25,26)

Pelo ensino do apóstolo Paulo, os judeus rejeitaram a Cristo, dando oportunidade para a salvação dos gentios, formando a igreja do Senhor, contudo findo a dispensação da igreja, o Senhor voltará Seus olhos para Israel, salvando-o para a consumação do propósito eterno reservado a Israel. Portanto a fidelidade de Moisés sobre a casa de Israel não será de modo algum frustrada, ainda que no tempo, ela esteja em processo de suspensão até cumprir-se a plenitude dos gentios. Feito esta observação acerca de Israel, voltemos nossos olhos para cada um de nós enquanto casa de Deus.

O autor aos Hebreus finda seu argumento declarando que Cristo é como Filho em sua casa, ressaltando uma condicionante: “se guardarmos firme, até ao fim, a ousadia e a exultação da esperança” (Hb 3.5,6). A primeira pergunta que devemos nos fazer é em que consiste nossa esperança. Este termo aparece em Hb 6.11 com a expressão: “plena certeza da esperança”, em Hb 6.18 – “esperança proposta”, em Hb 7.19 – “esperança superior”, em Hb 10.23 – “confissão da esperança”. Mas é em Hb 6.11 e 12 que temos melhor clareza sobre a natureza desta esperança, pois demonstra que devemos ser “mas imitadores daqueles que, pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas” (Hb 6.12). Creio que a melhor forma de definir o cerne da nossa esperança foi exposto pelo apóstolo João nestes termos:

Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é. E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro. (I Jo 3.2,3)

Paulo sintetiza esta mesma verdade deste modo:

aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória; (Cl 1.27)

Tenho dito que o Espírito de Deus habita em nosso espírito humano baseado em I Co 6.17. O autor aos Hebreus revela que Cristo está assentado a destra de Deus. Agora, a principal função do Espirito Santo em nós foi revelada pelo próprio Senhor:

Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim; (Jo 15.26)

A suma do que tenho dito é que devemos ter por meta sermos transformados pelo poder de Deus na imagem de Cristo. Esta obra de transformação se dá quando contemplamos a glória do Senhor como que por espelho, para sermos “transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (II Co 3.18). Isto exige uma coparticipação de nossa parte, porquanto, vendo o Senhor pela fé, devemos desejar sermos conformados na Sua bendita imagem. Esta é uma atitude proativa, jamais experimentaremos a “boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2) se não a buscarmos objetivamente.

A carta aos Hebreus é conhecida como “palavra de exortação” (Hb 13.22) porque ela tanto motiva o indolente para buscar ao Senhor de forma proativa, como também orienta aquele que tem intimidade com o Senhor a experimentar ainda com mais profundidade a experiência de identificar-se com o Senhor e andar com Deus.

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