Comentários em aos Hebreus

Somos chamados a sermos transparentes diante de Deus

Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna. (Hb 4.14-16)

Caro amigo! Dileta amiga! Nosso tema diz respeito a nossa convicção de que podemos nos tornar a imagem de Cristo e este é o grande tema da carta aos Hebreus. Fazemos esta afirmação porque a confissão referida pelo autor aos Hebreus a qual devemos conservar com firmeza está diretamente ligada a plena certeza da esperança mencionada em Hb 6.11. Esta certeza foi delineada pelo apóstolo João nos seguintes termos:

Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é. E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro. (I Jo 3.2,3)

 Chamo sua atenção quanto a expectativa que o filho de Deus nutre pela volta do Senhor expresso pelo termo “manifestar” usado pelo apóstolo João. Este termo precede de outro citado pelo autor aos hebreus, quando menciona que o Senhor penetrou nos céus. Vamos compreender este quadro todo, porquanto ele é vital para a confirmação de nossa esperança. Após a ressurreição Jesus encontrou-se com seus discípulos. Tomé chegou mais tarde, tomando conhecimento acerca da ressurreição, se negou a crer por considerar uma ocorrência impossível. Para crer Tomé exigiu que a manifestação do Senhor deveria ser comprovada com os sinais dos cravos nas mãos (Jo 20.25). Para sua surpresa Jesus não só apareceu a ele, como ainda lhe pediu para tocar nas feridas de suas mãos e na perfuração feita pela lança ao lado, entre suas costelas. Tomé se rendeu, crendo, dizendo: “Senhor meu e Deus meu!” (Jo 20.28). Naquele instante o Senhor afirmou algo que toca a cada um de nós: “Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20.29).

Todo aquele que recebe a Cristo como Senhor crê em sua ressurreição, contudo o autor aos Hebreus faz questão de elevar nosso nível de fé, fixando nossa fé no clímax da exaltação do Senhor que é o estar assentado à destra de Deus nos céus. Esta posição de autoridade perdurará até que todos os seus inimigos sejam colocados debaixo de seus pés. Basicamente o que temos aqui é que o protagonista dos eventos escatológicos é Deus, o Pai. O próprio Senhor Jesus, enquanto Filho do Homem, já fizera menção a este fato ao declarar que o dia de Seu retorno e, portanto, a consumação de todas as coisas era de competência exclusiva de Seu Pai celestial (Mt 24.36).

Por outro lado o autor aos Hebreus faz questão de demonstrar que o Senhor não somente está assentado no trono, em Seu lugar de exaltação depois da obra da cruz, como também exerce função sacerdotal nos céus sob a ordem de Melquisedeque (Hb 5.6). E por que é tão importante termos consciência do exercício deste ministério por parte do Senhor? Para entendermos esta importância devemos ligar duas verdades inexoráveis, a primeira diz respeito a santidade de Deus, a outra corresponde ao nosso privilégio de podermos entrar na presença de Deus, ambas devidamente retratadas tanto no tabernáculo de Moisés quanto no templo de Salomão.  Estou fazendo menção ao Santo dos santos. Creio que você se lembra de que este lugar era separado do lugar santo por um espesso véu. O santo dos santos era um lugar coberto pela escuridão, onde se encontrava a arca da aliança com as duas tábuas da lei contendo os dez mandamentos dentro dela e, sobre ela, a figura de dois querubins como que guardando a arca com suas asas estendidas.

Com a morte do Senhor na cruz o véu foi rasgado do alto para baixo, como abrindo o caminho para todo o adorar poder se aproximar diante de Deus sem a intermediação de nenhum outro homem. Paulo faz menção deste privilégio ao escrever a igreja aos efésios nos seguintes termos: “por ele [Cristo Jesus], ambos [judeus e gregos convertidos] temos acesso ao Pai em um Espírito” (Ef 2.18). E, neste aspecto, o ensino corrente na igreja é que para orar basta tão somente nos voltar a Deus e apresentar nossas petições, pois o caminho está aberto. Este ensino não traduz toda a verdade acerca da oração, isto porque quando os discípulos pediram a Jesus que os ensinassem a orar, a primeira instrução dada pelo Senhor foi que deveríamos santificar a Deus antes de apresentar a Ele qualquer pleito que fosse (Lc 11.2).

Vamos, portanto, ampliar nossa visão dos céus onde Jesus se encontra. Deus, o Pai está assentado em um alto e sublime trono. Sabemos disso pela visão que teve o profeta Isaías, porquanto viu ao redor do trono serafins que clamavam: “Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória” (Is 6.3). O salmista, fazendo menção desta santidade em torno do trono, ainda que exortando a celebrarmos o Senhor, fez questão de ressaltar que o Senhor está entronizado acima dos querubins e que todo aquele que se aproxima do Senhor deve prostrar-se diante dele porque Deus é santo (Sl 99.5). E, para ressaltar o temor que é devido a Deus por conta de Sua santidade, o salmista fez questão de ressaltar que três grandes homens do Antigo Testamento se aproximavam diante de Deus consciente desta santidade. Ele se referia a Moisés, Arão e Samuel. Estes de fato invocavam o nome do Senhor como nós também somos instruídos e eram ouvidos por Deus, como também nós o somos. Mas, na sequência o salmista revela que Deus ouvia suas orações contudo com base exclusivamente em Sua graça, como podemos ler:

Tu lhes respondeste, ó SENHOR, nosso Deus; foste para eles Deus perdoador, ainda que tomando vingança dos seus feitos. (Sl 99.8)

Note que esta aproximação feita por estes grandes homens de Deus diante do trono trazia consigo o senso do arrependimento. Isto porque quanto mais nos aproximamos da luz de Deus mais evidente se torna nossos pecados, erros e deficiências. O apóstolo João faz menção deste fato ao declarar: “Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade” (I Jo 1.6). E é por conta desta santidade que precisamos de Cristo Jesus diante do trono como nosso Sumo Sacerdote, conforme salientado pelo autor aos Hebreus.

Tendo este quadro em mente podemos compreender como se dá nossa aproximação diante de Deus Primeiro nós temos a firme convicção de fé que Jesus está exaltado, assentado no trono a destra de Deus. Segundo, temos a convicção que somos filhos de Deus e, por nos assemelhar com Cristo, nosso irmão mais velho, temos a firme esperança de sermos como Jesus o é.  Uma vez que estamos convictos da necessidade de nos assemelharmos com Cristo, tomamos consciência de todas nossas deficiências. Se tão somente adentrarmos diante de Deus com base em que somos, jamais seríamos ouvidos. Contudo fomos ensinados pelo próprio Senhor que todas nossas petições precisam ser feitas em nome de Jesus para que possamos ser ouvidos (Jo 14.13).

É fato que o Senhor ouve nossas petições feitas em nome de Jesus, contudo como nosso maior desejo deve ser em refletir Cristo em nós, só temos a liberdade diante de Deus de apresentarmos nossas fraquezas porque Jesus se compadece de nós. Esta é a ênfase do autor aos Hebreus no texto em epígrafe. Jesus homem viveu entre nós sujeitos as mesmas tentações que nós o somos Em todas as coisas Jesus foi tentado. Aliás, Mateus, ao relatar a tentação de Jesus no monte, fez questão de ressaltar que Jesus fora levado naquele lugar pelo próprio Espirito Santo para que pudesse ser tentado por Satanás (Mt 4.1). Se compararmos as três tentações de Jesus no monte com as mesmas tentações sofridas quando da queda do homem em Gn 3.6, chegaremos a mesma conclusão do apóstolo João, ao sintetizar estas três tentações, escrevendo:

porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. (I Jo 2.16)

É importante colocar em foco estes níveis de tentações a que somos submetidos porque o autor aos Hebreus nos faz lembrar que Jesus, que nos santifica, quanto nós, que somos santificados, somos um só diante de Deus, somos uma mesma família, somos irmãos em Cristo sendo o próprio Senhor nosso irmão mais velho (Hb 2.11). Devemos enfatizar mais uma vez que o autor aos Hebreus nos chama a assumir por completo nossa identidade cristã, sendo esta a razão da epístola aos Hebreus ser conhecida como “palavra de exortação” (Hb 13.22).

É por termos a consciência que o sacrifício do Senhor na cruz nos conduz pelas sendas da santidade, arrancando de nós pela raiz as influências deste mundo, seja no âmbito da carne, dos olhos e da vida da alma, que devemos nos achegar diante do trono de Deus confiadamente, pois o Senhor saberá compreender nossa natureza e tratar conosco. O que temos no texto em epígrafe é um convite da parte do autor aos Hebreus para chegarmos diante de Deus completamente despidos, expondo todas as nossas necessidades, carências, deficiências, fraquezas e tentações. Quanto mais transparentes formos diante do Senhor mais eficiente será em nós a obra da cruz. O que nos permite nos despir diante do Senhor é a convicção que o próprio Senhor foi tentado como nós o somos, contudo sem pecado, estando absolutamente apto a nos compreender e exercer diante de Deus, o Pai o ministério do Sumo Sacerdócio que lhe é inerente. A resultante desta santa aproximação é que no devido tempo haveremos de ver as interveniências divinas sobre nossa vida, não só respondendo nossas orações como também moldando nosso caráter, transformando-nos na imagem de Cristo, Seu Filho amado.

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