Reflexões

Tudo é nosso, todo o universo e muito mais

Portanto, ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso: seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus. (I Co 3.21-23)

Quando lemos a dimensão daquilo que nos pertence em Cristo Jesus, esta realidade espiritual nos parece tão distante que sequer paramos para considera-la. Contudo o apóstolo Paulo nos conclama a reparar em nossa vocação, porque é à partir dela que nossa existência deve girar. Para compreendermos o que Paulo quer nos transmitir, vamos ler o texto de trás para frente.

“Cristo é de Deus” (I Co 3.23).

Aqui temos a expressão do Deus Trino. E explico o porquê. Um mais um é dois, contudo Deus não pode ser dois, visto que ambos possuem uma mesma essência. Digamos que se trate de duas pessoas fisicamente visíveis, então teríamos um e o outro, um diante do outro, duas pessoas. Como Deus é um, esta equação não fecha. Neste caso temos de ter uma terceira pessoa entre os dois, fazendo a junção de ambos. Assim, de uma forma misteriosa eterna, o Filho foi eternamente gerado, saindo ele do Pai Celestial, este fluxo se deu pelo influxo de uma terceira Pessoa, o Espírito de Deus. É por isso que lemos: “…o Espírito da verdade, que dele procede…” (Jo 15.26). Observe este termo “procede”, ou seja, emana do Pai. Assim, temos uma situação em que o amor do Pai se dirige ao Filho e retorna ao Pai em um movimento incessante e eterno feito pela terceira Pessoa da trindade, o Espírito Santo. E, em que pese o fato de Deus ser transcendente, ele é também Onipresente, razão de lermos:

Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; (se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá. (Sl 139.7-10)

Com isso queremos dizer que em Cristo Jesus subjaz todo o universo e ainda a profundidade de Deus, “pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1.16). Diante desta verdade podemos voltar ao texto de Paulo, no ponto em que diz:

“e vós, de Cristo” (I Co 3.23).

Nesta expressão temos a unicidade mediada pelo Espírito Santo de Deus. Explico. Quando o Senhor estava por ir ao calvário, se reuniu com o seus discípulos explicando-lhes que era necessário partir para que o Consolador pudesse ser enviado, outro semelhante a Ele (Jo 14.16). Quando Ele viesse passaria a habitar conosco (Jo 14.17). E como se daria esta habitação do Espírito Santo em nós? Ao aceitarmos a Cristo duas coisas acontece de forma instantânea e complementares: somos justificados em Cristo Jesus e também somos regenerados, isto é, nascemos de novo. No ato do novo nascimento recebemos um novo espírito humano (Ez 36.26) e é neste espírito humano recriado que o Espírito de Deus faz a sua habitação de tal sorte que “aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele” (I Co 6.17). Com isso queremos dizer que estamos na mesma unidade espiritual existente entre Cristo e Deus, razão porque o próprio Senhor orou por nós:

Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim. (Jo 17.20-23)

Observe a intensidade desta união existente entre nós, a igreja do Senhor, e Cristo, o cabeça da igreja. Somos um do mesmo modo como Cristo é um em Deus, razão porque ao nos unirmos com o Espírito Santo nos tornamos um em espírito. Isto não só em nossa individualidade como também e principalmente membros uns dos outros. Por isso dizemos que somos um corpo em Cristo porque estamos permeados pelo mesmo Espírito Santo. Então podemos entender outro ensino do apóstolo Paulo:

Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado. (Rm 5.5)

Se consideramos que Deus habita no céu e nós na terra, imagine uma comporta aberta sobre nossa cabeça e uma cachoeira sendo derramada sobre nós. Esta é uma pálida ideia do que seria o derramar do amor de Deus em nossos corações. Mas é muito mais que isso. Considere que no Deus Trino, temos o amor do Pai indo ao Filho, o Senhor em um incessante e eterno fluxo de amor por meio do Espírito Santo. Ocorre que este mesmo amor que vai do Pai ao Filho e retorna ao Pai pelo mesmo Espírito Santo, é derramado sobre nós no mesmo fluxo incessante e eterno. O que falta neste quadro é fazermos o amor retornar ao Filho, o Senhor e, por conseguinte ao Pai Celestial como atos voluntários e incessantes que procedem do nosso coração. Então faríamos com que as águas desta torrencial cachoeira de amor que sobre nós está, retornasse em um mesmo fluxo incessante e eterno, porquanto ao cremos em Cristo, temos a vida eterna. Então podemos compreender a sequência das palavras de Paulo:

porque tudo é vosso: seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é vosso (I Co 3.21,22)

Assim nada foge a dimensão daquilo que nos pertence porque “se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados” (Rm 8.17). Esta verdade é surpreendente porquanto tudo que existe no universo é tão nosso quanto qualquer coisa que achamos por possuir por alguma razão termos adquirido este direito. Considere por um momento a seguinte realidade: imagine ser você possuidor de centenas de imóveis herdados de seu pai. Por certo seria fisicamente impossível morar em todos ao mesmo tempo, então é de bom alvitre que você alugue-os. Uma vez feito não faria sentido algum você entrar nestas residências enquanto alugado elas estivessem, ainda que você seja o proprietário delas. Isto faz sentido no mundo dos negócios. Podemos olhar qualquer coisa neste universo e dizermos para nós mesmos: só não estou ocupando aquele tão belo lugar porque o aluguei a alguém, mas chegará o dia que poderei dispor destas coisas como possuidor de fato. Então oremos em uníssimos. Maranata, ora vem Senhor Jesus e, então saberemos quão verdadeira são estas coisas.

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