Comentários em aos Hebreus

Tudo está sujeito a Cristo, só vendo a cruz para entender

Todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés. Ora, desde que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou fora do seu domínio. Agora, porém, ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas; vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem. (Hb 2.8,9)

Caro amigo! Dileta amiga! Temos por tema o eterno domínio do Senhor Jesus Cristo. Eu creio que você vai concordar comigo nesta afirmação: uma das maiores dificuldades do ser humano é aceitar o sofrimento e a morte. Quem se depara com estas duas experiências altamente negativas tende a questionar duramente a Deus, perguntando como pode o Deus santo permitir o sofrimento do inocente. É por isso que precisamos entender a natureza e a amplitude do governo divino.

A primeira esfera do governo divino se encontra na Sua própria deidade. Na eternidade passada só havia Deus e nada mais, não existia nenhum tipo de criatura, seja anjos ou homens, como também não havia todo o restante do universo. Com isso quero dizer que Deus é autoexistente por Si mesmo, por conta de Sua própria natureza e, por consequência, não depende em nada de Suas criaturas. Nesta esfera podemos sintetizar dizendo que Deus é Deus, o Eu Sou.

A segunda esfera do governo divino se encontra no Seu poder criativo. Deus criou os céus e a terra, incluindo os seres espirituais invisíveis. E tudo quanto criou tem um propósito a cumprir em sua existência, prestando contas pela função que exerce no universo. Por exemplo Deus ordenou que a terra deveria produzir ervas e árvores frutíferas (Gn 1.11); os luminares deveriam servir para “sinais, para estações, para dias e anos” (Gn 1.14) e o homem deveria exercer “domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra” (Gn 1.26). Nesta esfera podemos sintetizar que Deus é o Criador.

A terceira esfera do governo divino se encontra em Seu próprio caráter. Estou colocando este terceiro ponto logo após a menção do Seu poder criativo porque é preciso que haja a coisa criada para que esta possa apreciar e adorar o caráter divino. Nesta esfera do caráter divino temos tudo que afeta o campo moral e espiritual. E, neste ponto encontramos também a razão da existência do sofrimento e da morte. Permita-me demonstrar esta conexão. No terceiro dia Deus criou a terra e ordenou que ela produzisse fruto. No segundo capítulo de Gênesis ficamos sabendo que Deus tomou do pó da terra e por ele formou o homem, assoprando em suas narinas o fôlego de vida, fazendo-o alma vivente. Nestes três elementos encontramos o homem tricotômico, formado de espírito, alma e corpo.

Ocorre que este mesmo homem, ser humano que se relaciona com o mundo físico, bem como com o mundo espiritual, recebeu uma ordenança nestes termos: estava absolutamente livre para se alimentar de toda árvore frutífera, bem como da árvore da vida. Contudo uma restrição lhe foi imposto, da árvore do conhecimento do bem e do mal não poderia comer, pois se o fizesse haveria de morrer (Gn 2.16,17). Agora note o que temos aqui: o homem está sendo dotado do direito de escolher o tipo de alimentação que lhe seria adequado. Chamamos esta faculdade de livre arbítrio. Ocorre que no instante que Deus impôs restrição a este livre arbítrio, não comer de certa árvore, e uma penalidade se o homem fizesse este tipo de escolha, Deus impôs ao homem a lei moral. A consciência do homem haveria de responder por suas escolhas. Basicamente o que Deus fez foi tomar do princípio da terra: o que se planta, se colhe, para aplicar no âmbito moral, tudo quanto o homem pensar ou fazer, responderá pelas consequências do exercício do seu livre arbítrio.

Por conta da penalidade da morte, o sofrimento e tudo que lhe segue está embutido nesta penalidade, como um prenúncio dela. Basicamente Deus diz ao homem: faça como bem entender, mas o salário do pecado é a morte. Portanto Deus exerce domínio no âmbito moral e espiritual. Nesta esfera podemos sintetizar que Deus é Juiz.

Observe que temos até aqui três esfera do domínio divino que revela Deus como sendo Deus, e Criador, e Juiz. Permita-me trazer um relato do livro de Ester. Hamã era o primeiro ministro do rei. Ele tinha por intenção ordenar a morte de todos os judeus de todas as províncias do império de Assuero. Ester habilmente reverteu esta ordem expondo o verdadeiro caráter de Hamã ao rei. Ao que o rei ordenou: “Enforcai-o nela” (Es 7.9). Nesta ordem o rei agira como juiz decretando a sentença de morte. Depois da queda Deus poderia ter executado sumariamente Sua sentença, destinando todo homem nascido de mulher para a morte eterna. Contudo aprovou a Deus exercer governo em uma quarta esfera de atuação.

A quarta esfera do governo divino se encontra na cruz. E porque a cruz seria uma esfera de governo? Observe o seguinte: quando o homem caiu em pecado, aparentemente Deus ficou em um beco sem saída, porquanto Sua natureza exigia a execução da sentença. Ocorre que na eternidade passada, em meio aos decretos determinado por Deus para executar todo o processo de criação e governo do universo, havia a previsão de um atenuante que seria implementado com a queda do homem. Entenda isso, na eternidade passada só havia Deus e um planejamento para a criação dos céus e da terra, mas no exato instante em que o ato criativo seguiu seu curso, podemos dizer, no instante zero da criação, Deus proveu do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. (Ap 13.8). Ou seja, quando Deus decidiu-se pela criação do universo, incluso o homem, a coroa de Sua criação, o próprio Deus decidiu-se pela morte do Seu Filho unigênito. Ou seja, quando Deus, no jardim do Éden decretou que o salário do pecado é a morte, antes mesmo de emanar este decreto, Deus já havia determinado que o Cordeiro haveria de morrer pelo pecador.

E é com a compreensão destas quatro esferas de governos divinos que conseguimos entender o argumento do autor aos Hebreus. Quando ele declara que todas as coisas estão debaixo dos pés do Senhor, isto inclui o exercício pleno de Sua deidade, Jesus é o Filho de Deus, o Verbo, Jesus é Deus; inclui o exercício do Seu poder criativo, Jesus criou todas as coisas, nada foi feito sem Ele; inclui o exercício do Seu julgamento, pois a Jesus é o juiz dos vivos e dos mortos; e inclui também o exercício de Sua misericórdia, porquanto por Jesus passar pela cruz provou a morte por todo homem. Este é o argumento final do autor aos Hebreus nestes versos que estamos considerando.

Voltemos então a questão da dor, do sofrimento e da morte. Por conta desta discrepância existente no universo, que não coaduna com a natureza divina, temos dificuldade de compreender como Deus exerce domínio sobre todas as coisas. E trago a sua memória a história de Jó para compreendermos a amplitude deste domínio. Jó perdeu todos seus filhos e todo seu patrimônio em um só instante. Como se não bastasse, foi acometido de uma terrível enfermidade que afastou todo mundo dele, menos seus três amigos e, depois, um quarto que veio trazer a consciência de Jó a Deus.

Nós, que lemos esta história, vemos não somente o sofrimento de Jó, quanto também o que passava nos bastidores da história. Sabemos que Satanás, responsável direto pelo desatino de Jó, só pode fazer o que fez debaixo da estrita ordem divina. Deus estava de fato no governo de todos os eventos, em que pese o terrível sofrimento que Jó teve de passar. Ao final, o próprio Deus veio estar com Jó e, ao invés de explicar as razões pelas quais Jó passou por toda aquela experiência, Deus fez mais de setenta perguntas. Basicamente o que Deus fez foi dizer a Jó que para entender tudo que ocorrera, Jó terá de ter o conhecimento divino de todas as causas e efeitos, desde a criação do mundo até o dia de Jó, o que seria impossível. Jó então compreendeu que na vida não se pode entender tudo, mas é preciso confiar sempre em Deus. No caso de Jó, ele foi restaurado em tudo quanto perdeu.

A cruz cumpre este papel. Jesus veio, sofreu, morreu e ressuscitou. A cruz é a prova cabal de Deus que da morte se extrai a vida, que se o pecado só pode ir até este ponto, o próprio Deus na bendita pessoa de Seu Filho cruza este portal, vencendo a morte de modo definitivo, tendo agora as chaves da morte e do inferno (Ap 1.18). E é por sermos incapazes de compreender toda a extensão da dor, do sofrimento e da morte que nos abate somos convidados pelo autor aos Hebreus a considerar a morte de Jesus na cruz, porquanto foi por suportá-la é que Jesus foi coroado de glória e honra. Nós não temos como ver toda a extensão do domínio dado a Jesus Cristo, tudo nos é difuso e confuso, contudo, somos chamados a ver a Jesus, a olhar para Jesus, que é o autor e consumador de nossa fé.

Talvez você me pergunte como podemos ter a cruz como uma esfera do governo divino em nosso cotidiano. Permita-me citar uma instrução dada pelo Senhor Jesus: “Quem acha a sua vida perdê-la-á; quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á” (Mt 10.39). Vida, neste texto, no grego, é “psuche”, isto é, vida da alma. A instrução, portanto, declara que precisamos deixar a morte ganhar seu curso no âmbito da alma para que Deus possa fazer a obra da ressurreição no âmbito do espírito. Isto porque a carne não traz nenhum proveito ao homem, mas o espírito é que vivifica (Jo 6.63). Para nós é muito difícil lidar com a derrota, com a dor e com o sofrimento, porque estas coisas exaurem nossas forças e nos humilham, mas é neste ponto que o Senhor entra com socorro, é quando estamos cruzando o vale de sombra da morte que o Senhor nos acompanha passo a passo, para que, por meio do seu bordão e seu cajado, possamos ser consolados e corrigidos. Por outro lado, se suportamos a prova nos termos de Deus haveremos de ver o Senhor preparando uma mesa na presença de nossos inimigos. Esta é a promessa do Salmo 23.

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